O Celibato dos Padres Católicos


A comunidade católica da Madeira foi recentemente agitada pelo facto de um sacerdote madeirense, pároco da freguesia do Monte, ter assumido a paternidade duma filha e ainda pela atitude do Bispo do Funchal que não o dispensou do serviço paroquial, antes o acolheu fraternalmente, afirmando apenas que não toleraria ao mesmo uma vida dupla, aguardando a sua decisão pessoal, atendendo ao carácter obrigatório do celibato. Estas duas atitudes, pronunciadoras dum tempo novo na Igreja, têm suscitado comentários, reflexões e debates nos jornais, redes sociais e televisão, o que à partida me parece ser um dado positivo, já que a discussão do celibato sacerdotal não pode continuar a ser adiada, à luz da necessária auscultação dos sinais dos tempos.
Antes do Concílio Ecuménico Vaticano II (1962-65) ninguém ousaria pensar sequer no papel cada vez mais activo que os leigos desempenham hoje nos actos do culto e na administração da vida paroquial. Hoje, mais do que na década de 1960, essa participação não é apenas suscitada pelo compromisso dos leigos com a sua fé e envolvimento na liturgia, indo de encontro à pureza dos primitivos tempos do cristianismo e facilitando o diálogo ecuménico, mas também por uma necessidade prática, face à escassez do clero. A ordenação sacerdotal de homens casados, que nenhum dogma de fé impede, será pois uma realidade num futuro talvez mais próximo do que se julga. Mas cabe perguntar: está a comunidade cristã, concretamente a madeirense, preparada para isso? A resistência à mudança de hábitos e comportamentos costuma ser forte e sofrida, sobretudo no que respeita às tradições religiosas. Então, porque não começar já a promover e a expandir a institucionalização do diaconado permanente? Em localidades de missão, onde a escassez de sacerdotes é ainda maior, os diáconos (homens casados) celebram baptismos, casamentos e funerais. Acho que é tempo de ir abrindo o caminho.
Os defensores da manutenção do celibato costumam argumentar com a quebra de disponibilidade dos sacerdotes se tiverem família. Mas não estão hoje muitos deles a acumular as funções religiosas com outras actividades? O facto de constituírem uma família própria não será uma mais-valia para a compreensão dos problemas inerentes ao casamento e portanto para um melhor acompanhamento e orientação dos fiéis e uma mais aberta e eficaz doutrina da Igreja nesse capítulo? É evidente que o exercício de funções sacerdotais por homens casados originará uma série de novos problemas, relacionados naturalmente com comportamentos e atitudes do cônjuge e dos filhos, que o padre não conseguirá controlar. Mas também é verdade que a demasiada clericalização da Igreja e o poder e sacralização da “casta” sacerdotal foram muitas vezes responsáveis pela debandada das fileiras católicas e até pelo anticlericalismo. Há que ter coragem e fé para avançar com novas soluções, embora com prudência e sem precipitação. O caminho aprende-se andando.