Pedro Dias, The Fugitive, em versão aldeã II

O julgamento de Pedro Dias, o famoso “The fugitive”, em versão aldeã, ou Rambo tuga, já se iniciou no Tribunal Judicial da Comarca de Guarda, com o protagonista do filme de terror a trajar de fato cinzento (quase, quase a condizer com o seu interior, já que o negro seria porventura mais condizente), aparentemente calmo e algemado.
Como “paz de alma” que é, passou toda a sessão em silêncio, limitando-se a tomar notas em folhas de papel, enquanto ouvia as testemunhas. Poderá estar naquele emaranhado de papéis, quem sabe, a reescrita da obra “Crime e castigo” de Dostoiévski, pela pena de Pedro Dias…
António Duarte, o homem que foi alegadamente sequestrado por Pedro Dias em Moldes (concelho de Arouca), relatou o incidente do dia 16 de outubro, referindo que Pedro Dias não o agrediu fisicamente, apesar de lhe ter apontado uma arma, tendo sublinhado que Dias o tratou com “cuidado”, ou seja, para o senhor António Duarte, ser sequestrado foi coisa de somenos; não ter sido agredido fisicamente foi a modos que uma obra de caridade de um coração bondoso e compassivo. Apontar uma arma, gesto tão natural num bom cristão, isso então nada mais foi que uma atençãozinha muito habitual entre bons amigos. Já o tratar com “cuidado”, calculo que terá sido aparar-lhe a barba, purgar-lhe a cera dos ouvidos, extrair-lhe as remelas ou contar-lhe uma história dos irmãos Grimm antes da hora da deita. O arguido, de acordo com o homem alegadamente sequestrado, só o amarrou, colocando-lhe uma batata na boca, o que lhe dificultou a respiração. “Pôs uma batata na boca, disse-me que a tinha lavado e tapou-me os olhos também“, disse. O importante aqui é que a batata estava lavadinha, com certeza em água corrente e convenientemente escaldada, não fosse o sequestrado engolir uma minhoca ainda a contorcer-se ou, eventualmente, uma porçãozita letal de pesticida. O pormenor dos olhos tapados a que foi sujeito também só pode claramente funcionar como atenuante. Pedro Dias, muito “cuidadosamente”, procurou tranquilizar a vítima, quem sabe para ajudá-la a fazer uma sesta sem o atrapalho da luz a incomodar-lhe a vista. Só pode.
Além disso, como argumento abonatório extra, a ex-namorada do arguido relatou o encontro que teve com Pedro Dias no dia dos horríficos homicídios de Liliane e Luís na EN299, a caminho de Coimbra, tendo recordado que Pedro “estava calmíssimo”. Imagine-se se o Pedrito estivesse com um ataquezito de nervos… É melhor nem deitar-se a adivinhar o desfecho…
É também corrente que o arguido tinha na sua posse, em cativeiro, espécies animais proibidas, mas, segundo atestou Ana Cristina Laurentino, “O Pedro não mata um animal, respeita muito a natureza e os seres vivos”, o que não é de todo destituído de razão, já que o “ecologista” Pedro, com toda a certeza simpatizante do PAN e dos Verdes, esteve uma longa temporada em plena harmonia com a natureza e com os bichinhos. Afinal de contas, o que esta exemplar criatura não respeita são os seres vivos humanos, aos quais, calmíssimo, rouba a vida.
Personalidade ímpar, igualmente, a ex-namorada Ana Cristina: verdadeira, autêntica, absolutamente incapaz de um falso testemunho, mesmo quando sob juramento! Sólida como o BPN! Pensando bem, daria uma testemunha e peras no Caso Marquês ou, em alternativa, em casos de violência doméstica, sobretudo com mulheres adúlteras, alegadamente merecedoras de apedrejamento até à morte ou de pauladas com moralizadores preguinhos.
Após os homicídios de Aguiar da Beira, de acordo com a antiga companheira, Pedro Dias pediu-lhe para dizer, caso alguém perguntasse por ele, que haviam passado a noite juntos. “Ele disse: “Caso alguém pergunte por mim, se não te incomodar, diz que tivemos uma escorregadela e que passámos a noite juntos.” Afinal, uma mentirinha para o arranjo da nossa vida que mal faz?
Quando contactada pela GNR, Cristina (Que gesto tão fofinho!) reproduziu o que o ex-namorado lhe pedira (O Amor é tão lindo!), tendo argumentado que tinha ficado “nervosa” e “muito desconfiada”, o que a levou a mentir duas vezes à GNR, optando apenas por confessar a verdade quando lhe foi explicado o que estava em causa.
Ana Laurentino, não por amor da verdade, mas, isso sim, por saber-se igualmente em causa no processo disse ainda que, durante o “romântico” namoro ou namurro, o arguido tinha alterações súbitas de humor, registando duas situações em que Pedro Dias a agrediu fisicamente. Um coisa à Romeu e Julieta! “Era bruto e agressivo… como tão depressa me pedia desculpa.”, referiu, o que naturalmente vem provar e reforçar o respeito que o seu Pedrito tem pelos seres vivos, como a própria Ana Cristina confirmou na pele. Em declarações aos jornalistas, o advogado das famílias de Liliane e Luís Pinto, duas das vítimas mortais, afirmou que os seus clientes esperam uma “pena exemplar”, isto é, a “pena máxima” — “25 anos de prisão efetiva” — pelo crime que descreveu como uma “execução sumária”, que ocorreu “de forma cruel, inesperada e injustificada”. João Paulo Matias acrescentou ainda que as famílias não esperam “receber qualquer indemnização”, já que Pedro Dias não tem qualquer bem em seu nome. Ou melhor, pergunto eu, como poderia Pedro Dias ter associado ao seu nome qualquer ideia de bem?