Veronese e a morte

Verdes são campos / da cor do limão /assim são os olhos / do meu coração. Belo este exemplo da lírica de Camões, que Zeca Afonso divulgou através duma não menos bela melodia. A cor verde rica em significados simbólicos é parte importante da natureza e directamente responsável por muitos dos seus prodígios. O pigmento que existe nas células das plantas em conjugação com a luz do sol, cria a clorofila que as tinge de verde permitindo-lhes assim que, pelo fenómeno da fotossíntese, libertem o oxigénio de que vivem os nossos pulmões. Haverá prodígio maior do que este ? Cooperação espantosa, reveladora da harmonia e vitalidade que assistem ao Universo! Verde que se apresenta sob as mais variadas tonalidades e matizes e deu origem a uma expressiva palavra a designar a magnífica alfombra que reveste os campos. Campo que te estendes / com verdura bela…/ de novo Camões, a enaltecer a verdura dos pastos, imagem bucólica, que transfere essa cor para os olhos da sua amada.
Igualmente bela é a imagem do lago na canção de Los Panchos que se expandiu nos anos cinquenta pela voz do cantor de jazz norte americano Nat king Cole, e mais tarde adoptada por Pácido Domingo para o seu reportório: Aquellos ojos verdes/ serenos como un lago/ en cuyas quietas aguas/ un dia me miré.
Mas a lei dos contrários mostra-nos a versão oposta dos que afirmam que olhos verdes são traiçoeiros. Olhos verdes são traição, são cruéis como punhais; ou ainda ojos verdes com brillo de facas/ que s´han clavaíto en mi corazón. Francisco José e Concha Piquer, vozes passadas que ainda hoje se ouvem, apesar de tudo.
Com origem no latim viridius esta cor, indispensável na paleta dos pintores, adquire denominações relacionadas com as diferenças de origem química e de pigmentação; assim existem o verde malaquite, o verde turquesa, terra verde, verde esmeralda, verde cobalto, verde da Prússia. Há ainda outras designações populares como o verde-bandeira, o verde-garrafa, verde-musgo, verde-alface, verde-mar. E também as nuances do claro e escuro. O verde surdo obtém-se pela adição duma pequena dose de preto, e o verde mate contém uma mistura de cinza.
É o momento de trazer ao texto o verde veronese ou viridian: Paolo Veronese foi um pintor maneirista, nascido em Verona no século XVI, que por isso recebeu a alcunha de veronese (veronês). Realizou toda a sua obra em Veneza e viveu próspero. As suas obras de grandes dimensões eram especialmente requisitadas por famílias poderosas e pelo Doge que as queria para o Palácio Ducal. O verde que de preferência usava nas telas de vibrante colorido era de sua própria criação e herdou o seu nome para a posteridade. É uma cor fria, tem a tonalidade das águas nos mares tropicais, e uma vibração transparente que a torna luminosa em meio de outros verdes. É a cor do eucalipto. O eucalipto, essa árvore exuberante e privilegiada que a Natureza dotou de extraordinárias capacidades de adaptação e sobrevivência, de intenso e agradável aroma, cujas bagas as nossas avós usavam nos baús para perfumar a roupa e afugentar as traças. Árvore a um tempo atraente e traiçoeira que espreita a distracção humana para alargar domínios e perverter as paisagens.
É notória a mancha de viridian que emerge das nossas serras, depois de assoladas pelos incêndios. Infestiva e prolífera esta planta constitui um género dominante da flora, devido ao seu poder de captação da água dos solos, o que a torna uma ameaça, por matar a vegetação nativa, por retirar à terra a capacidade produtiva de outras espécies.
A polémica está instalada, mas é assunto que não cabe aqui. No entanto em presença das tragédias que as alterações climáticas e outras causas têm provocado, a secura das terras por provada falta de água, o perigo da redução do oxigénio e da humidade do ar, que a todos afecta, não há dúvida de que a morte ronda. A morte ronda, anda por perto, subrepticiamente, à conta de muita indiferença e ignorância, à conta duma loucura à solta ainda mal inventariada.
Verde, sim, mas cuidado com o belo eucalipto. O verde, como dizem os poetas nalgumas canções, pode ser traiçoeiro. Cuidado com o excesso de viridian. Paolo Veronese foi um grande pintor, mas o seu verde preferido era uma mistura de esmeralda e malaquite que tornava luminosas as suas telas, mas não fazia mal a ninguém. O segredo estava no equilíbrio das doses aplicadas. O segredo continua a ser o processo do equilíbrio.
A acção do homem poderá tornar-se exemplar se perceber que as parábolas da arte se aplicam à vida com todo o proveito e benefício.