A propósito do órgão novo da Sé do Funchal

Decidiu o Cabido adquirir um novo órgão, da autoria de Dinarte Machado, para assinalar as comemorações do quinto centenário da sagração do altar-mor da Sé. Colocado no transepto, oculta, parcialmente, o precioso retábulo do Senhor Jesus, quando movido para posição paralela a este altar. Mesmo encostado à parede, interfere, de forma negativa, na leitura deste espaço nobre da catedral e, provavelmente, na concentração espiritual dos fiéis, que optam pelo lado sul do transepto.

A Sé possuiu já vários órgãos, sendo de salientar o que se encontra, actualmente, no coro, sobre a entrada principal, construído na Inglaterra nos finais do século XIX. Pertenceu à Igreja Anglicana, mas, no ano de 1937, foi comprado pelo Cabido. Em 1996, beneficiou de dispendioso restauro e respectiva bênção, sendo, por diversas vezes, utilizado em concertos e na liturgia. E, como ficou demonstrado recentemente, continua apto para ser tocado.

Foto Rui Marote

Nestes quinhentos anos, o coro ou tribuna, onde se encontrava o órgão, foi variando de lugar, entre a capela-mor, o cruzeiro e a entrada principal, com a capela do Senhor Jesus a servir também para acomodar um órgão de dimensões reduzidas, usado frequentemente nas cerimónias litúrgicas da catedral. Algumas vezes, a localização do órgão foi contestada, ora pela vereação da Câmara do Funchal ora pelo provedor da Fazenda, valendo a intervenção régia.

Entendeu o actual pároco da Sé ou o Cabido ser necessário um novo órgão, pensado ao serviço da liturgia e da participação dos fiéis, colocando-o no braço sul do transepto, com indisfarçável prejuízo da gramática do retábulo do Senhor Jesus e do contexto desta capela com tecto mudéjar.

Foto Rui Marote

Neste retábulo tardo-maneirista, que ostenta a data de 1677, sobressaem quatro pinturas flamengas de finais do século XVI, da oficina de Miguel de Coxie, sendo uma delas assinada e datada, e um cristo crucificado, do século XVII, envolvido por uma auréola entalhada e dourada.

No meu modesto e laico juízo, a promoção da evangelização e da ajuda ao próximo, apregoadas pela Igreja, não passa pela compra de um novo órgão. É certo que se enriqueceu a Sé, ao nível do seu património. Trará beleza e ostentação na liturgia. Contudo, o crescimento da fé e a prática das virtudes cristãs não emanam dos tubos de tão grandioso instrumento musical, como os acordes que se propagam pelas naves da catedral.

Foto Rui Marote

O papa Francisco ensina-nos que «a fé não é uma coisa decorativa, ornamental. Ter fé quer dizer pôr realmente Cristo no centro da nossa vida.» (Twitter, 30 Agosto 2013).

O espírito de grandeza e poder, tão presente na história da Igreja e ainda dominante na instituição, contrasta com as palavras e a humildade de Francisco.