Enterrar os mortos e cuidar dos vivos

Carlos Fino
Se Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês do Pombal, para quem já não se lembra) fosse o primeiro-ministro da Geringonça e, perante uma renovada tragédia sem nome, declarasse que a sua prioridade era enterrar os mortos e cuidar dos vivos, também ele seria crucificado pelos media, os quais, na sua piedade farisaica, rasgariam as vestes em público (e em Observador, valha a verdade) e clamariam a sua indignação por tamanha manifestação de sangue frio perante a adversidade. Diriam que não era sangue frio, mas simples desdém pelo sofrimento do povo. Que quem mantém a lucidez perante a dimensão dos problemas, está-se mesmo a ver que não pode ser boa pessoa. Que rasgue também as vestes e peça desculpa, exigiriam.

E se o poverello de Assis (S. Francisco de Assis, para os mais distraídos) tivesse reencarnado como ministro do interior da Geringonça e, perante a consciência da destruição e da dor à sua volta, não fosse capaz de conter as lágrimas e precisasse, também ele, de consolo, diriam os mesmíssimos media que era por ser fraco. Incompetente e fraco, que o país, o que precisava era de ação e não da exposição de lágrimas ao povo. Como é que alguém que expõe as lágrimas em público, que só podem ser privadas, revela sentido de estado ou capacidade para dirigir? Proclamariam que um ministro que se preze tem de ser contido, e os ministros, como toda gente sabe, nunca choram, nem andam por aí a abraçar nem a tirar selfies a torto e a direito.

E se o presidente dos afetos, conhecendo o sofrimento geral e a determinação do governo em não desistir no meio da desgraça, mas conhecendo também que a substituição da ministra, que não tinha conseguido recuperar do abalo, era questão de dias, decidisse, friamente, aproveitar o ensejo para se antecipar e humilhar publicamente o primeiro-ministro, por entre beijos e abraços ao povo, que diriam os media, praticamente todos de Direita? Também rasgariam as vestes em vez de cantarem hossanas nas alturas? Ou gritariam louvado seja, que finalmente a Direita tem líder, que já não é aquele que outrora mergulhava no Tejo e guiava táxis, ou inventava mefistofélicas vichyssoises em Lisboa, uma vez que, após anos a fio de prime-time, se terá especializado em planear a exposição dos sentimentos mais adequados? Tanto, que são, ou pelo menos aparentam ser, sempre genuínos.

E se o país, que os media nos impingem, passasse a ser o país verdadeiro, o que herdámos da depressão profunda que nos foi infligida por Passos, Portas, Cristas e quejandos? O país real, esse que está em acelerada convalescença, graças aos cuidados da Geringonça. Não a descabelada gritaria dos que não se conformam por ter mudado a realidade que manifestamente prefeririam: a da eternização do empobrecimento do povo e da impiedosa depredação dos seus direitos.