Ana Teresa Pereira candidata a Prémio de Narrativa do Pen Clube com o livro “Karen”

A escritora madeirense Ana Teresa Pereira é finalista aos prémios literários do Pen Clube Português, nomeadamente na narrativa, com o romance “Karen”, lançado em 2016 e aplaudido pela crítica. O jornal Público, por exemplo, atribuiu ao livro a classificação máxima – 5 estrelas – e, através da apreciação de Hugo Pinto Santos, classificou-o assim: “(…) no seu mais recente livro, Karen, Ana Teresa Pereira tematiza a ideia de um outro/uma outra —, levando até aos limites do concebível, do exprimível, a tensão que faz cruzar os corpos e as mentes com os seus pares, lá onde se tocam como tecido sobre pele. Uma luz a travessar uma cortina. Algo assim que pareça real, mas seja, no fundo, a dúvida de toda a irrealidade. A trama de Karen lembra Rebecca, o romance de Daphne du Maurier, e a película homónima de Hitchcock inspirada no livro”.

Esta temática do outro, do duplo, do sósia, no qual se reflectem aspectos profundos e ocultos de nós próprios, tem cruzado a obra já bastante extensa de Ana Teresa Pereira, uma escritora que se afirmou a partir do momento em que o seu romance “Matar a Imagem”, publicado em 1989, venceu o Prémio Caminho para a literatura policial. A autora vive uma vida algo reclusa, não participa em encontros nem em festivais de literatura, raramente faz aparições públicas, mas vai publicando consistentemente, com o passar dos anos, uma série de livros com personagens e temáticas recorrentes, mas que mesmo aos que não se adequam totalmente ao seu imaginário, fascinam e perturbam.

As referências culturais são muitas e habitam na sua obra, frequentada por personagens frequentemente idealizados mas não menos politicamente incorrectos em vários aspectos, nos pensamentos, acções e comportamentos. No fundo, são viajantes em busca de alguém ou de algo, e é nessa busca que se tocam ou que, de algum modo, os seus destinos se entrecruzam. A visão cinematográfica está presente em muita da sua literatura, que ganharia bastante em ser transposta para a Sétima Arte, em nossa opinião. Aliás, a perspectiva de Ana Teresa é mesmo a de visualizar uma série de rostos, de personagens, que imagina a partir de actores reais, dos quais o principal ícone é Jeremy Irons; e é a pensar neles que constrói as personagens dos seus romances.

Não tem grandes preconceitos quanto ao que é considerado “grande literatura” e quanto ao resto; adora policiais, principalmente lidos ao sabor dum bom cigarro, e até já escreveu um “western”. Uma das paixões da sua vida são os animais e a defesa dos seus direitos. Sobre eles escreve frequentemente, quer nas redes sociais, quer por vezes mesmo nos media convencionais, no sentido de sensibilizar a melhores tratos aos mesmos por parte da nossa sociedade.

Nestes prémios do Pen Clube, Ana Teresa Pereira concorre com Ana Margarida de Carvalho, autora do livro “Não se pode morar nos olhos de um gato” (Teorema), Ernesto Rodrigues, com a obra “Uma bondade perfeita” (Gradiva), Francisco Sousa Vieira, “Os Homens que os pássaros comem” (Verso da História) e Mafalda Ivo Cruz, com o livro “Europa” (Mariposa Azul).

Estes prémios literários do Pen Clube destinam-se a distinguir, todos os anos, os melhores livros publicados no ano anterior, e em primeira edição, em Poesia, Ensaio e Ficção. São patrocinados pela Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas. O seu valor é de 5 mil euros, em cada uma das três diferentes categorias.

Na poesia, os concorrentes são António Carlos Cortez, com “Animais Feridos” (Dom Quixote), Fernando Pinto do Amaral, com “Manual de Cardiologia”, na mesma editora, Jpão Rui de Sousa, com “Ardorosa Súmula” (Coisas de Ler) e Maria João Cantinho (Do ínfimo), também na mesma editora. Finalmente, concorre Rui Lage, com “Estrada Nacional” (INCM).

No ensaio, os concorrentes são Bernardo Pinto de Almeida, com “Arte Portuguesa no Séc. XX, Uma História Crítica” (Coral Books), Eduarda Neves, “O Auto Retrato: Fotografia e Subjectivação” (Palimpsesto), Pedro Eiras, “Constelações e Ensaios Comparatistas” (Afrontamento), José Maria Vieira Mendes, “Uma Coisa não é outra Coisa” (Cotovia), e Rui Miguel Mesquita, “A situação e a substância: Cinco ensaios sobre a ficção de Virginia Woolf e de Maria Velho da Costa” (Afrontamento).

Como se vê, existem nomes consagrados entre os concorrentes, a par de outros mais novos.

Ana Teresa Pereira já recebeu várias distinções, inclusive em prémios literários instituídos na Madeira, além de ser considerada um caso peculiar e quase único na ficção portuguesa, tendo construído praticamente o seu panteão pessoal de personagens, de temáticas e de fãs e apreciadores, entre os quais se contam vários académicos e críticos literários.