Cafôfo “mexe” com todos

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnAs eleições autárquicas de domingo disseram muito daquilo que será a política madeirense nos próximos tempos. Entrámos no “Ciclo Cafôfo”. Já vinha sendo construído, mas esta foi a chamada “prova dos nove”. O resto, tanto para quem está no Governo, como para quem está na oposição, sobretudo para quem está no PS, a gestão dos tempos e das estratégias andará à volta dessa premissa que a consulta popular revelou e cujos contornos estão bem definidos, não há volta a dar. Por muito que isso custe a quem custar, não há modo de evitar que o futuro passe pela opção que o reeleito presidente da Câmara do Funchal assumir relativamente ao seu plano político, que naturalmente passa, agora, pela autarquia, mas que inevitavelmente passará, até pelo peso que esta vitória representa e no contexto de dificuldade em que ocorreu, por um objetivo mais amplo que terá a ver, com naturalidade, não se sabe se pela liderança do PS ou outro modelo que porventura venha a ser adotado, e futuramente pela luta que visa a governação regional. Parece pacífico pelo “andar da carruagem”, como diz o povo. A questão está em saber se há vontades e qual a metodologia.

Cafôfo ganhou em quase toda a linha, do ponto de vista do que será o interesse político. Da sua prestação e do seu resultado dependeriam a estabilidade das lideranças, tanto do PSD como do PS. Uma vitória como esta colocou em sentido as “tropas”, lideradas por Miguel Albuquerque e Carlos Pereira. O povo, com este voto, não obstante as dificuldades que o candidato da coligação “Confiança” enfrentou, sobretudo depois dos acontecimentos do Monte, demonstrou claramente duas coisas: primeiro, quer Cafôfo, segundo, não quer este PSD a governar, para já na Câmara. As razões são várias e caberá, a quem estiver interessado, neste caso mais ao PSD, a avaliação do comportamento do eleitorado, no Funchal em primeiro lugar, mas um pouco por toda a Região se fizermos uma leitura mais ampla dos resultados.

É evidente que se tratam de eleições para os orgãos do Poder Local. É evidente que não têm propriamente a ver com a governação regional. Mas também é evidente que, desde a primeira hora, todos sabiam que os eleitores iam ter, no exercício do voto, uma atitude de avaliação local e regional, obrigando a uma análise mais abrangente dos valores expressos em votos, que deram uma imagem de fragilidade ao PSD, a qual não pode ser ignorada pelos responsáveis, sob pena de uma falta de atuação imediata comprometer o futuro do Partido Social Democrata para muitos anos. A reunião da Comissão Política veio, de certa forma, demonstrar uma reação imediata, resta saber se há coragem para as mudanças necessárias.

O PSD, tanto na Região como no todo nacional, deve refletir. E muito. A diferença é que Passos Coelho já vem sofrendo desgaste há muitos anos (embora não queira ver), sobretudo porque os portugueses não perdoam o que se passou na crise e em consequência da qual ainda hoje sofrem reflexos das políticas adotadas. Coisa que não acontece com Albuquerque, que sofre este resultado com poucos anos daquilo a que chamou de renovação e numa altura em que, em condições normais, pelo tempo de governação, não seria expetável esta penalização do eleitorado. Por isso, Albuquerque deve refletir mais. Não só mais, mas acima de tudo refletir bem. O que vai fazer não se sabe, mas é preciso fazer qualquer coisa, uma vez que estas eleições autárquicas revelaram um claro “erro de casting”, em algumas situações, que porventura não foram sujeitas a avaliação local, na devida proporção, como seria aconselhável. E um erro de “casting” compreende-se uma vez. Não há mais margem para erro.

Nem sempre a política de descartar pessoas porque simplesmente estavam ligadas a poderes anteriores, independentemente da popularidade que têm em cada zona e da capacidade que revelam, ou de satisfazer “grupos de pressão” para “moldar o regimento”, dão os resultados esperados. Querer nem sempre é poder. E o eleitorado já não tem o mesmo comportamento, está mais volátil, porque os tempos também são outros. Os partidos devem ter em conta novos métodos, de acordo com a realidade, apostando mais na qualidade dos seus quadros do que na gratidão dos apoios. Infelizmente, nesta partidocracia fragilizada, é precisamente ao contrário. Com os resultados que estão à vista. Quem apreender isso, pode chegar a tempo. Quem não apreender…

Quanto ao Partido Socialista na Madeira anda há muitos anos em reflexão. E uma vez mais, surge numa posição em que tem necessidade de avaliar o futuro, só que agora tem uma base que não tinha. Carlos Pereira chama a si as vitórias em Machico, Porto Moniz e Ponta do Sol, aqui um triunfo de relevo, por ser nova conquista, mas no Funchal tem que dividir, no mínimo, os louros com Cafôfo. E dividir já é um problema. Porque, na verdade, quem leva os benefícios todos é mesmo o autarca, que tem ao seu lado uma faixa socialista importante que não se revê na liderança do partido na Região. E teve, muito provavelmente, uma faixa social democrata nestas autárquicas. É por isso mesmo que, para o Partido Socialista, os tempos são de grandes dificuldades, com Carlos Pereira a ser um líder com outro “à perna”. Não será fácil este “braço de ferro”, que neste momento é menos subtil do que era, mas que ainda não é tão visível como poderá ser. Mas desenha-se, no mínimo, um próximo quadro político regional para o PS, uma outra fórmula que pode vir a mudar muita coisa. Resta saber se nessa fórmula cabem os dois, Carlos Pereira e Paulo Cafôfo.