Estepilha: Quanto mais roto melhor…

Rui Marote

No meu périplo pela Europa de Leste (agora em Kiev, Ucrânia) vou apreciando múltiplos aspectos da cultura local, e também as novas tendências em matéria de usos e costumes modernos. A liberdade na moda, embora com certo atraso, chegou em força a estas nações.


Recordo o slogan da Benetton: todos iguais, todos diferentes. Antigamente era hábito nos países por detrás da “cortina de ferro” o padrão de vestuário ser do mesmo estilo e da mesma cor. Os “blues jeans” levaram anos a fio para entrar na Rússia, e quando alguém visitava Moscovo e ostentava essa ganga, era de imediato assediado para trocar ou comprar as calças mais cobiçadas pela juventude russa.

Hoje em dia, os jovens na Bielorrússia, no Cazaquistão, na Geórgia e no Azerbaijão exibem as calças rotas com à-vontade embora a moda fosse lançada no Inverno de 2014-2015. Com algum atraso, portanto, mas a verdade é que até batem recordes de “quanto mais roto melhor”, em relação a alguns países ocidentais. Note-se que alguns destes países de que falo até têm uma forte tendência muçulmana, não sendo isso que prejudica o gosto por esta moda.

O cronista José António Saraiva escreveu (e que transcrevemos com devida vénia) já alguns anos: “Há muito que andamos a dizer  e a escrever que se aproxima o fim de mais uma civilização hiperdesenvolvida, semelhante ao que terá acontecido há muitos milhões de anos antes do aparecimento dum outro “homem”, o das árvores  e das cavernas (…)”.

Ora, para as pessoas da minha geração, estas modas são uma anedota. Só usei calças compridas no ano em que completei 15 anos: até então ia para escola de calças curtas. Usar calças compridas era sinónimo de se tornar homem.
Recordo que as minhas primeiras calças foram embolsadas junto ao tornozelo, o que não aceitava, porque não correspondia às calças normais.

Chegar a casa sem um botão (marca), termo usado para roupa de homem, ou com a camisa descosida, era motivo para ser submetido de imediato a um interrogatório e aplicação de castigo com frases críticas: “Isto é uma vergonha pareces um desgraçado! Livra-te se amanhã vestes essa camisa sem marca!”
No colégio do Dr. Caroço, era obrigatório o uso de uma bata branca e gravata. Muitas vezes recorríamos ao cinto da bata para substituir a gravata. Era notório, numa aula, haver uma dezena de alunos de gravata branca. E o fardamento da ginástica? Em que as sapatilhas de sola vermelha da Leacock teriam de estar brancas como a neve… Muitas vezes, para não termos falta, pintávamos as sapatilhas com giz do quadro de parede, à última hora, tirando o encardido causado pelas “peladinhas” do futebol.

Eram outros tempos. Desde então os alfaiates e as costureiras desapareceram. Tudo aparece já confeccionado na Zara, na HM e noutras lojas dos centros comerciais.

O exemplo mais ridículo são as calças rotas. As calças compradas na loja já rotas constituem o exemplo máximo de uma civilização que chegou ao fim da linha e já não consegue inventar mais nada. Então pōe-se a rasgar deliberadamente a roupa nova…
Caso para dizer: Estepilha…