A Madeira está a desenhar uma “Saúde de negócio” e parece querer descartar a “Saúde social” para a República, denuncia a Ordem dos Enfermeiros na Região

Elvio Jesus.jpgO presidente do Conselho Diretivo Regional da Ordem dos Enfermeiros está preocupado com o rumo da Saúde na Região. O retrato que faz, num momento em que a Bastonária está de visita à Região, não é positivo nem tão pouco expressa qualquer indício de que poderá melhorar nos próximos tempos se não houver alteração de medidas e de políticas no setor. O anunciado novo ciclo parece uma miragem e Élvio Jesus não coloca reservas nas suas observações, di-lo com frontalidade e põe aquilo a que popularmente se chama o “dedo na ferida”, orientando o discurso no sentido de estarmos perante um cenário que conduz a um “beco sem saída”. Uma perceção fundamentada no que ouve, no que sabe e no que vê. Não é bom para quem manda.

Algo está errado nas prioridades da Saúde na Madeira

“O que nós sentimos é que algo está errado na política e nas prioridades da Saúde na Madeira, também ao nível da organização das respostas em cuidados. Em geral, temos recursos a mais em algumas áreas, que não a de enfermeiros, seguramente não, mas continuam a existir listas de espera”, começa por situar a sua explanação do problema.

Refere, claramente, que “não existe, não se perspetiva nem se sente qualquer intenção de dar resposta ao que é mesmo necessário. Se temos pessoas em casa, praticamente abandonadas, que do ponto de vista da saúde estão num nível de assistência completamente inaceitável no nosso estado de desenvolvimento, e não temos mobilização de outros recursos, incluindo enfermeiros e viaturas, para essa resposta, quer dizer que vamos continuar a assistir à degradação das pessoas e a dizer que os hospitais estão cheios. Toda a gente fala nas listas de espera de consultas e cirurgias, mas ninguém fala da assistência social domiciliária integrada”.

A comunicação entre Saúde e Social é disfuncional

Élvio Jesus denuncia que “a comunicação entre a Saúde e o Social não existe de forma efetiva, é disfuncional, não dá resposta no tempo útil nem na priorização que deveria existir. Por exemplo, uma ajudante domiciliária, que é orientada por alguém que não tem nada a ver com a Saúde, chega a casa de um idoso e vê que ele está diferente do dia anterior, chama a ambulância e leva para o Hospital, Se isto estivesse integrado na Saúde, provavelmente o idoso não tinha necessidade de sair de casa”.

Grupos de pressão fazem dinheiro com a Saúde mesmo no setor público

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“Se continuarmos a manter os vícios que temos no SESARAM, de grupos de pressão, com várias fações políticas, dentro do mesmo partido, não há hospital novo que resolva, apesar de eu ser um acérrimo defensor da construção do novo hospital”, diz Élvio Jesus.

O responsável pela Ordem na Região suspeita que “aquilo que está a ser desenhado na Região é a separação do Social da Saúde. A Madeira parece querer mandar para a República o ónus do orçamento relacionado com o apoio às pessoas idosas, acamadas, muito dependentes, inválidas. Tudo isto para que Lisboa, que não tem história de cobertura tão grande como a nossa nessa área, fique com esses encargos. Ao mesmo tempo, a Região pega no dinheiro da Saúde, que são muitos milhões, e distribui por meia dúzia de grupos de pressão, que fazem negócio com a Saúde, mesmo no setor público”.

Este governo não se compromete com contratação de enfermeiros

O chamado novo ciclo da Saúde e a prometida contratação de enfermeiros, em cenários apontados pelo mais recente secretário regional, passaram a uma fase diferente. Neste momento, Élvio de Jesus diz que “pelo menos ao nível do secretário regional da Saúde, este governo não se compromete com a contratação de enfermeiros”, aguardando que a presença da Bastonária na Região, possa, de algum modo, esclarecer melhor esse posicionamento do Governo relativamente a esse assunto, estando previsto para segunda-feira um encontro entre a representante da Ordem e o presidente do Governo Regional, na Quinta Vigia.

Atalaia a privados junta-se à desgraça do Lar da Bela Vista

Aquele responsável pelo orgão representativo da Ordem dos Enfermeiros na Região mantém a tónica nos idosos para reagir a uma mais do que provável entrega do Atalaia a privados. Uma decisão que “vai colocar aquela instituição longe das pessoas, fora de uma fiscalização que permita ver até que ponto a componente financeira terá ou não influência num melhor ou pior tratamento dos respetivos utentes, deixando no ar a possibilidade de assistirmos a situações complicadas do ponto de vista da esperança de vida desses mesmos idosos”. A Ordem suspeita que “a Saúde da Madeira prepara-se para ficar exclusivamente com aquilo que é rentável. Tudo o que são problemas das pessoas, idosas, dependentes, vulneráveis, de cuidados paliativos, é com Lisboa”.

O desenho é deixar para a Saúde o que é rentável

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“Talvez queiram transformar o Atalaia numa instituição privada, que nada acrescentará à desgraça que já é o Lar da Bela Vista”.

Cada vez tem menos dúvidas sobre o posicionamento das estruturas de comando político do setor na Região: “O desenho que está a ser feito na Madeira é deixar para a Saúde tudo o que é rentável, para beneficiar grupos de pressão que por aí andam, canalizando para a República aquilo que diz respeito à parte social da Saúde, aos mais pobres, aos mais frágeis. Veja o que se passa no Lar da Bela Vista, que tem cerca de duas centenas de utentes, muito dependentes e está sem enfermeiros com desenvolvimento de competências, sendo esse serviço assegurado por pessoas de estágios profissionais, com rotatividade anual e ainda por cima pagos por uma empresa social a fazer negócio com esses jovens. Em termos de capacidade de resposta fica muito a desejar. Talvez queiram transformar o Atalaia numa instituição privada, que nada acrescentará à desgraça que já é o Lar da Bela Vista. Claro que isso serve para atenuar o Orçamento da Região, do SESARAM, mas não resolve o problema das pessoas, das famílias e dos cidadãos”.

Há muita coisa a fazer na Saúde da Madeira

Para Élvio Jesus “há muita coisa a fazer na Saúde da Madeira” e acusa a chamada “Reforma dos Cuidados de Saúde Primários” de estar “encaixada neste puzzle”. Presentemente, recorda, “o enfermeiro, no centro de saúde, cuida da pessoa, da família, da comunidade onde está a prestar o serviço, conhece toda a gente e seus costumes. Com este novo modelo que está em estudo, assente na valorização da consulta médica, vai fazer com que o médico, para ir a casa, vai ganhar mais, o mesmo acontecendo nas várias situações em que for chamado, quer pela rede, quer pelos cuidados paliativos, quer pela escola. Isto representa a fragmentação e uma propensão para um modelo económico que nada tem a ver com a resposta às necessidades das pessoas”.

Região caminha para uma Saúde de negócio

Certeza, certeza mesmo, é que “a Saúde da Madeira está desorganizada, com inversão de algumas prioridades”. Reforça as suspeitas fundamentadas em muitas situações juntas, que apontam para um cenário que diz estar a desenhar-se: “A Região caminha mais no sentido de ter uma Saúde de negócio, descartando responsabilidades nas respostas integrais às pessoas, nas zonas onde elas necessitam desses cuidados. O que se pretende fazer, aqui, é uma cópia do que se fez no Continente, que resultou numa fragmentação da pessoa e dos cuidados”.

Vamos pagar muito caro”

Élvio Jesus não vê grandes perspetivas de futuro. Diz que lamenta esse cenário, mas não vê. Está convencido mesmo que “a médio/longo prazo, essa situação vai ameaçar a sustentabilidade do sistema de Saúde e vamos pagar muito caro por isso. O que aconteceu nos últimos anos, por movimentos interesseiros e por culpa do PAEF, fez regredir a organização da Saúde”.

Região segue modelo do Continente

A esperança de que este secretário, o terceiro do Governo liderado por Albuquerque, viesse resolver os problemas da Saúde, como avançou em declarações nos dias seguintes à sua tomada de posse, acabou por ficar aquém das expetativas dos agentes do setor. Élvio Jesus diz que “a intenção da Região é seguir o modelo do Continente”, mas questiona esta política atendendo a que o quadro implementado por Lisboa, há 12 anos, “não resolveu o problema dos idosos, dos mais vulneráveis, aumentou exponencialmente o número de médicos, reduziu o número de enfermeiros, mas não teve soluções para o problema das pessoas”. E deixa nova interrogação: “É isso que a Madeira quer?”.

Se continuarmos com os vícios não há hospital que resolva

O novo hospital é outra das questões em cima da mesa. Mas para Élvio Jesus, não vai resolver o problema da Saúde na Madeira “se mantivermos a estrutura organizativa atual”. É claro quando afirma que “se continuarmos a manter os vícios que temos no SESARAM, de grupos de pressão, com várias fações políticas, dentro do mesmo partido, não há hospital novo que resolva, apesar de eu ser um acérrimo defensor da construção do novo hospital”.

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A Ordem dos Enfermeiros já tinha alertado, em 2004, para a inoperacionalidade dos Marmeleiros.

Lembra a organização, pela Ordem dos Enfermeiros na Região, de uma conferência intitulada “Construção versus Remodelação Hospitalar”, trazendo à Madeira uma figura prestigiada nesse domínio, Durão Carvalho, que era então responsável pela reconstrução do Hospital Santa Maria, que na altura disse não haver possibilidade, nos hospitais da geração daquele do Funchal, de um crescimento adaptado às exigências”.

A “Reflexão da Saúde” desde 2011

Recorda a criação de um “Movimento de Reflexão da Saúde” que funcionou como centralidade do debate sobre o setor durante o ano de 2011, com conferências envolvendo diversos convidados, audiências com as principais autoridades, entre elas ao Representante da República, mandámos documentos para todos os partidos políticos com representação parlamentar e enviámos, também, documentação para certos setores da República, com elementos que indicavam a necessidade de um hospital de raiz”.

A posição de Miguel de Sousa

Neste contexto da problemática da Saúde, o atual vice-presidente da Assembleia Regional, Miguel de Sousa, figura que desempenhou o cargo de vice-presidente de governos de Jardim e foi secretário regional das Finanças em período dito “jardinista”, além de uma ligação ao PSD desde sempre, integrando os orgãos mais importantes do partido, veio a público, no DN Funchal, tecer considerações a propósito do Hospital dos Marmeleiros, sublinhando a falta de condições daquela unidade hospitalar, posição que foi aliás referida, também, numa entrevista da Bastonária dos Enfermeiros, que está de visita à Região e que afirmou não haver condições de funcionamento do Hospital dos Marmeleiros.

Alerta da Ordem em 2004

No artigo de opinião, Miguel de Sousa lança algumas interrogações: “Se uma tasca sem cumprir as regras legais é imediatamente encerrada pelas autoridades fiscalizadoras, pode um hospital funcionar sem condições adequadas? Existe entidade certificadora do serviço hospitalar? Devo assumir que se o hospital não cumprir com o obrigatório o governo regional impede o seu funcionamento? São os profissionais provedores da qualidade do serviço prestado e das condições existentes ? Ou o hospital funciona sejam quais forem as circunstâncias?”

Élvio Jesus, numa rede social, lembrou precisamente a Miguel de Sousa que, em 2004 a Ordem dos Enfermeiros, na Madeira, já tinha alertado para a inviabilidade dos Marmeleiros, assim como a sua inadequação para futuro lar de idosos, altura que o Programa do Governo Regional apontava para a construção (impossível) de um novo Hospital em Santa Rita, em cerca de quatro anos”.