“Quando falamos de uma Santana para Todos é para deixarmos de fazer política em função dos amigos do poder, dos afilhados e dos compadres”

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
João Sousa, candidato do PS à Câmara de Santana, diz que está chegado o momento de “fazer a verdadeira mudança, através de um projeto que ainda não foi experimentado em Santana, liderado pelo Partido Socialista”. Foto Rui Marote

O PSD criou uma “dívida colossal” e o CDS/PP “fez uma gestão de insolvência”. É assim, com todas as letras, que o candidato do PS à Câmara de Santana classifica os anteriores mandatos que em sua opinião “atiraram o concelho para o despovoamento e para o atraso” que nem a distinção de Reserva da Biosfera, pela Unesco, veio disfarçar. Diz mesmo que esse “título” não está ser devidamente defendido, o que coloca em perigo quando daqui a uns anos for para reavaliação. “Santana corre o risco de perder essa atribuição”, alerta. No alvo das críticas coloca o atual presidente Teófilo Cunha, o anterior Rui Moisés e o que esteve antes, Carlos Pereira, que surge agora com uma candidatura independente. Para este, uma interrogação: “Não entendo o que pode trazer de novo, o que é que pode fazer agora que não tenha feito nos 22 anos em que foi presidente da Câmara”. Tem uma idéia: “Só pode ser para manter a torneira aberta e beneficiar os mesmos”.

Santana não tem culpa dos desvarios do PSD

João Sousa, natural de Santana, professor no Funchal, reconhece que o atual presidente da autarquia “recebeu uma pesada herança, uma dívida colossal, dos governos despesistas do PSD e limitou-se a fazer a gestão dessa dívida, o saneamento financeiro. Ora, do nosso ponto de vista, entendemos que Santana não tem culpa dos desvarios do PSD, mas se estávamos à espera de outras oportunidades para a população, no sentido de uma atenção à economia, o resultado foi uma deceção. E uma vez concluído o ciclo das grandes obras, onde ainda falta a via expresso, era chegado o momento de olhar para o rendimento de quem trabalha, o rendimento de quem investe e sobretudo do grande problema que é o despovoamento”.

Teófilo com gestão “Tio Patinhas”

O candidato afirma, sem reservas, que o CDS/PP “fez-se eleger precisamente com o argumento de que iria combater a desertificação, o êxodo, mas não foi isso que aconteceu. Limitou-se a fazer gestão corrente, a ser uma espécie de Tio Patinhas na gestão da dívida, esquecendo o grave problema económico financeiro que urge resolver”. E é com esta realidade que considera chegado o momento de “fazer a verdadeira mudança, através de um projeto que ainda não foi experimentado em Santana, liderado pelo Partido Socialista, que tem uma outra perspetiva, centrada na situação económica da população, que é grave, procurando ir ao encontro do que é realmente importante, o rendimento, proporcionando meios para que o norte seja uma atratividade”.

Câmara deve exercer pressão sobre poderes

Para João Sousa, “a Câmara deve ser um polo dinamizador, deve exercer pressão junto dos poderes, regional, nacional e até da União Europeia. Lembro que o PS, em sede de Assembleia Regional, já apresentou uma proposta no sentido da discriminação positiva, ao nível fiscal, para quem investe na Costa Norte, mas o PSD não acolheu. O PSD vem agora apresentar-se ao eleitorado quando foi um entrave à viragem que se pretende implementar em Santana, atraindo investimento, criando emprego e fixando os jovens”. É esse o enfoque que o PS pretende dar à campanha naquele concelho, considera “uma questão central”.

O risco de perder a Reserva da Biosfera

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
O candidato socialista acusa o presidente da Câmara de ter feito uma gestão “Tio Patinhas” e não pensou nas pessoas. Foto Rui Marote

A aposta na Reserva Mundial da Biosfera é considerada como “uma decisão positiva do mandato de Rui Moisés, do PSD”. João Sousa lembra que “Santana tem uma distinção que o mundo gostaria de ter e que no País apenas 11 regiões têm”, recorrendo a estudos científicos para explicar que essa marca representa que em cada euro investido pela Câmara há 22 euros de retorno. Mas não é para ficarem parados à espera que as coisas aconteçam. É preciso candidatar projetos e gente competente, que trabalhe com a Câmara, em parcerias envolvendo a Universidade da Madeira. O senhor Teófilo Cunha esteve mais preocupado com a dívida, foi um gestor forreta e abandonou por completo esta mais valia, que poderia potenciar o desenvolvimento em todas as áreas. Não candidatou projetos, não foi ao encontro das instituições e, neste momento, faltando quatro anos para que este galardão seja reavaliado, corre-se o risco de Santana vir a perder”.

Terrenos abandonados com perigo de incêndio

Há outro problema que, num contexto de concelho virado para a natureza, pode constituir perigo para o futuro, na ótica do candidato do PS: “Os muitos terrenos que se encontram abandonados pelo concelho, que resulta da falência do mundo rural, são áreas propícias à propagação de fogos. Esse mundo rural está a morrer, é preciso uma ação concertada. Se o problema não for atalhado, corremos o risco de colocar em causa o próprio turismo, que é de natureza e é com a natureza que nos devemos preocupar, sobretudo com esses terrenos abandonados que podem comprometer o próprio desenvolvimento global”.

Eleitorado já decide de olhos abertos

O candidato socialista acredita, por isso, que o seu programa é aquele que melhor enquadra os interesses da população de Santana, em função do comportamento que, em sua opinião, resultou num mau desempenho de PSD e CDS/PP. Diz que “o eleitorado já decide de olhos abertos, já vai assumindo posições de acordo com os projetos que são apresentados. E dada a situação crítica que o concelho vive, em que temos 40 anos de PSD e CDS/PP, com resultados terríveis, com Santana a perder quase metade da sua população desde que estes partidos assumiram o poder, revelando incapacidade de resolver este problema, estou convencido que o povo vai entender que esse ciclo deve ser alterado, é essa a nossa mensagem. Quando falamos numa Santana para Todos é precisamente para deixarmos de fazer política em função do compadrio, dos amigos do poder, dos afilhados e dos compadres”.

Projeto (PS) ainda não foi experimentado

Por tudo isto, “acena” ao eleitorado com um projeto que “ainda não foi experimentado, já conhecem os modelos do PSD e do CDS. Se a população quiser o PS na oposição, lá estaremos com empenho fiscalizando até ao último cêntimo. Se acharem que chegou a hora do PS assumir a governação autárquica, estamos preparados. Este é um momento crucial”.

Extravasa esse otimismo eleitoral para o resto da Região, diz mesmo estar convencido que “do ponto de vista político, surgirão mudanças importantes. Sendo o PS governo na maior parte das autarquias, estarão criadas condições para alteração de governo na Região. Muito pode acontecer já nestas eleições. O dia 1 de outubro pode ser muito decisivo para o futuro político da Madeira”.

Liderança forte na Câmara e sem medo de falar

Defende uma “liderança forte na Câmara, sem medo de falar, que vá ao encontro daqueles que podem decidir, nomeadamente o Governo, é preciso ter essa capacidade de chegar às instituições e fazer valer às realidades do concelho. Quando isso não chegar, é preciso ir ao Governo da República e, se não for suficiente, ir às instâncias europeias”.

Na génese deste projeto socialista para Santana está, como faz questão de referir, “a auscultação da população, não vamos governar do gabinete à espera que as coisas aconteçam, vamos ao encontro das pessoas, promover reuniões com as forças vivas do concelho, agricultores, comerciantes, empresários da restauração, pescadores, porque ainda há pesca”.

Florir estradas, tratar dos jardins

Pretende criar, no âmbito da gestão autárquica, um gabinete que possa, de algum modo, orientar os agricultores no sentido de, aos poucos, poderem passar de uma agricultura de susbsistência, para uma agricultura biológica, beneficiando precisamente as questões ambientais que mereceram o galardão da Unesco, além de constituir uma fórmula que irá dar maior rentabilidade a quem produz”. Tudo aliado ao turismo, porque sendo Santana um espaço privilegiado para o turismo de natureza, é aqui que devemos incidir as nossas atenções, florindo as estradas, tratando dos jardins, mostrando as caraterísticas próprias do concelho. Quem vem a Santana não vem à procura de turismo de massas, vem preparado para um turismo de natureza, de tradições. E o que se fez em Santana? Alargaram as ruas e asfaltaram, perdeu-se a calçada tradicional e a identidade do concelho”.

Casas de Santana devem ser preservadas

Mantendo o discurso nas tradições, enumera, primeiro as chamadas “casas de Santana”, diz que “é preciso apostar nesse cartaz que ultrapassa o concelho, é da Região. Só que até a palha para fazer a cobertura temos que importar. Porque é que não incentivamos a produção?” Depois, dá o exemplo do pão de Santana, que se vende nos supermercados para “não é pão genuíno de Santana, mas que se houvesse incentivos poderíamos ter, no concelho, uma produção com marca própria. Mesmo não dando grandes retornos, é preciso apoiar quem faz essas atividades, até porque é o concelho e a sua história que estão em causa. Faz-se concursos para tudo, porque razão não se faz para criar incentivos para premiar os terrenos melhor cuidados, os jardins, enfim um conjunto de realidades que têm um objetivo comum: tornar Santana genuinamente atrativa e, simultaneamente, rentável”.