Crónica Urbana: Santos da casa não fazem milagres

Rui Marote
Estarei fora da Região durante três semanas e não tinha previsto escrever para já qualquer crónica urbana, mas sim substituí-las por crónicas de viagem.
O motivo que me leva a debruçar-me sobre o teclado é manifestar uma opinião quanto ao assunto que hoje fez manchete num jornal da Região, que abordou a visita iminente do príncipe Alberto do Mónaco à Região (já abordada pelo FN) e o anúncio da inauguração de uma praceta em seu nome.
Intitulo esta crónica “santos da casa não fazem milagres” para manifestar que ilustres madeirenses não tem espaço na toponímia da cidade.
Nada temos nada contra cidadãos de outras nacionalidades serem homenageados ou terem o seu nome numa praça ou numa rua.
Mas interrogamo-nos sobre o que fez o tetravô do actual príncipe de Mónaco pela cidade do Funchal para merecer tal honra? Desconhecemos… Sabemos que visitou a Madeira várias vezes, quando andou em expedições oceanográficas sobretudo nos mares dos Açores, à semelhança do monarca português também oceanógrafo e seu contemporâneo, o rei português D. Carlos. Mas as actividades do monarca monegasco na Madeira limitaram-se, tanto quanto sabemos e na sua maior parte, a excursões para caçar cabras nas Desertas, como pode ser lido no estudo de Nélio Pão (CEHA) publicado em 2013. Tiramos o chapéu ao príncipe por ter paciência para um viagem de barco que na altura demorava 16 horas até à Deserta Grande. Mas isso é motivo para ter nome de praceta? Claro que se isso ajudar a Estação de Biologia Marítima, que fica perto e depende da CMF, a obter um patrocínio da “Monaco Explorations” para fins científicos, percebe-se facilmente a intenção…
A Câmara do Funchal reúne de urgência esta semana para deliberar essa atribuição de nome a uma praceta situada no Lido.
Para a cidade do Funchal dar o nome do conhecidíssimo cantor Max, Maximiano de Sousa, a um arruamento, foi uma confusão e uma demora intermináveis. Hoje Max tem a sua rua: um homem nascido e criado à beira mar foi ter o seu nome numa rua que conduz a Santo António e que não tem uma única casa, tendo de um lado um barranco e do outro o muro da ribeira.
Os leitores desconhecem: vou dar uma ajudinha, é entre o Tecnopólo e as piscinas da Penteada.
Aproxima-se aparentemente a altura em que o presidente da Câmara será tipo Samora Machel, só que branco, e resolva, por exemplo, mudar a qualquer momento o nome das avenidas principais da cidade, como a Av. Manuel de Arriaga por Avenida Trump ou a Avenida Zarco por Av. Putin, ou quaisquer outros equivalentes estrangeiros. Ainda aqui vamos…
Já agora, no âmbito destas homenagens a estrangeiros, lembramos que a Câmara do Funchal continua como fiel depositária da efígie do pintor russo Karl Bryulov, a qual seria para colocar no Golden Gate. Esse sim, um pintor do Romantismo que viveu na Madeira e retratou a Madeira. Para quando?