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Há momentos que nos marcam e nos transformam para o restante da nossa vida. Nem todos esses momentos pelas melhores razões. Foi por um desses momentos que passei no dia 15 deste mês no Monte. Eu estava no Largo da Fonte quando a tragédia aconteceu e as imagens desse momento nunca mais me sairão da cabeça e do coração. O que eu e as pessoas que por lá estavam vimos é totalmente indescritível. O terror, o pânico, o medo são sentimentos muito mais fortes quando os vivemos realmente.
Quem me conhece bem, sabe o medo que eu tenho da morte. O medo de não ter tempo para viver tudo aquilo que desejo e sonho. Estes momentos fazem-nos inevitavelmente reflectir e repensar em todo o trajecto de vida que estamos a traçar, em todas as reais prioridades que estabelecemos para a nossa vida, em todas as opções que fazemos diariamente, em quem e em quê investimos o nosso tempo que, por muito que não queiramos, é realmente limitado.
Eu também passei por toda esta reflexão naquele dia. Depois de já ter chegado, com a minha família, a um local mais seguro uma das primeiras perguntas que a minha mãe me fez foi se eu ainda queria manter a minha candidatura à Junta de Freguesia do Monte. Era a pergunta que forçosamente eu teria que responder mesmo que ninguém a me tivesse feito. Era a pergunta que levantava diversas outras perguntas. Como seria a minha reacção naquele momento se eu fosse o presidente da Junta em exercício? Estaria eu preparado para enfrentar esta responsabilidade? Poderia eu ter feito algo diferente para evitar esta situação?
E ali estava eu, ainda atordoado com o que se tinha passado e com mais perguntas do que respostas. Na verdade, eu ainda continuo com mais perguntas do que respostas, mas a resposta à primeira pergunta surgiu por instinto. Surgiu por paixão! Eu continuava apaixonado pelo Monte! Como poderia eu abandonar uma paixão quando ela mais parece precisar de mim? Não que o Monte não tenha centenas de pessoas que por ela também são apaixonadas e que por ela dão o seu melhor, como foi exemplo as diversas dezenas de pessoas que desde a primeira hora ajudaram nas operações de resgate e apoio. Este é também o momento para agradecer profundamente todos esses particulares e instituições e fazendo uma referência particular, se me permitem, aos Escoteiros do Monte que ao longo dos últimos anos e ao longo de diversos momentos marcantes pelos quais temos passado, têm mostrado uma coragem e um espírito de ajuda ao próximo inexcedíveis.
Quem me conhece pessoalmente seguramente perguntará: como pode uma pessoa que se diz tão racional deixar-se ser levado assim pela emoção? Eu percebo bem a responsabilidade acrescida que agora qualquer um de nós candidatos enfrentamos. Estou também seguro que todos os restantes candidatos também percebem. Compete-nos a todos nós restabelecer a confiança perdida. Compete-nos a nós combater o medo. Compete-nos a nós garantir que isto nunca mais aconteça. Compete-nos a todos nós aprender a lição e podermos garantir às pessoas que neste momento sofrem por perdas horríveis que esta lição tão dura nunca mais será esquecida. Compete-nos a nós, já a partir deste momento, garantir que tudo faremos para que todas as perguntas sobre este incidente fiquem totalmente esclarecidas de forma justa e transparente, mesmo que isso demore um pouco mais de tempo do que as pessoas gostariam, e que depois as responsabilidades sejam assumidas. Este é um daqueles momentos em que todos os olhos estão postos em nós e em que a credibilidade das instituições está em jogo e por isso não pode ser momento de guerra político-partidária. É um momento de total responsabilidade e compromisso com a verdade de todos os quadrantes políticos. É tempo de contenção nas opiniões e declarações que fazemos para o público, porque essas opiniões e declarações podem acabar sempre por prejudicar o cabal apuramento da verdade que todos exigimos.
Um abraço de enorme solidariedade a todos aqueles que foram afectados por esta tragédia e um enorme obrigado a todos aqueles que anonimamente foram verdadeiros heróis nesse dia.
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Nota:
Este autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.
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