Mestre “Ginela” fez o primeiro resgate marítimo de algumas vítimas da queda do avião na Madeira em 1977

Os anos passam mas o mestre “Ginela” não esquece o acidente aéreo de 1977. Fotos FN.

A 19 de novembro de 1977, início da noite, o pescador José Nicolau (mais conhecido como mestre “Ginela”) e mais dois tripulantes ocupavam uma lancha perto do calhau de Santa Cruz na mira do peixe isca rumo à sua embarcação “Senhora do Rosário”. Eis que cerca das 21h35, testemunha o maior acidente aéreo registado na Madeira, do voo TP425, e assume ter sido a primeira embarcação marítima a resgatar alguns passageiros que caíram ao mar, junto ao calhau de Santa Cruz.

Já lá vão 40 anos mas José Nicolau não esquece aquela noite de “impacto, dor e luta para salvar quem pedia socorro no mar”. Na altura, com os seus 29 anos, tinha ainda muito mundo para ver através da pesca, a única saída profissional da época para quem não tinha recursos económicos. Depois da Madeira, veio o mundo, quer como armador, quer como mestre, sendo um rosto bem conhecido da faina pescatória. Fixou a sua residência nos Açores. No entanto, regressa frequentemente a Machico onde tem alguns familiares e amigos.

O FN encontrou-o num destes momentos de passagem por Machico, já com 69 anos de idade e uma mais do que justa aposentação das lides marítimas. Tempo também de olhar para trás e recordar experiências e vivências. E eis que a memória recorda, numa conversa sem esse rumo inicial, o trágico acidente aéreo da Madeira, em novembro de 1977, do qual resultaram 131 mortos, 125 passageiros e 6 tripulantes. Um dia negro para a aviação e, em particular, para a Madeira.

Um estrondo e gente no mar

O pescador faz-se ao mar com bom ou mau tempo. No dia do acidente aéreo, chovia muito e o vento de sudoeste a fazer das suas. Mas o chamado bote auxiliar da embarcação “Senhora do Rosário” fazia aquilo que em gíria dos homens do mar se chama “iscar”, preparando uma viagem mais longa. Eis que ocorre o acidente que nos é contado com base no testemunho de José Nicolau: “Estávamos na marca da isca, perto do calhau de Santa Cruz. De repente, sentimos um grande estrondo. Imediatamente, deparámo-nos com pessoas a caírem no mar, mesmo à nossa frente… chocados mas decididos a salvar estas vidas, deixámos tudo para trás, resgatámos à volta de uma dezena de passageiros, visivelmente muito aflitos. Era puxar para bordo e deixar no cais. Foi dramático e difícil de esquecer durante muitos anos”.

O processo de socorro no aeroporto, à data da década de 70, era muito rudimentar, para além do traçado viário de acesso que em nada se compara à realidade atual. Tudo muito distante e a confusão geral, misturada com o choque e pânico e a impreparação para acudir a tais sinistros instalaram-se na aerogare e nas áreas de acesso.

O lema era “salvar”

José Nicolau recorda que “o lema era salvar”, mesmo empurrando a lancha para zona de perigo. “Arriscámos navegar no perigo para salvar o que podíamos. Depois, ainda fizemos uma viagem até ao Funchal para levar três passageiros aflitos com destino ao hospital. Naquela altura, não havia as embarcações de resgate prontas a chegar a Santa Cruz como hoje. Nós fizemos o primeiro resgate das vítimas por via marítima. Quando chegámos ao Funchal, por volta das duas horas da madrugada, o navio patrulha estava ainda a sair rumo a Santa Cruz para o socorro…”

Algumas horas depois, os relatos sucederam-se dos contornos exatos da tragédia. O Boeing TP 727-200 arriscou uma terceira aterragem na então pista de Santa Catarina, com mau tempo, e acaba por sair pista fora, pela cabeceira, vindo a embater numa pequena ponte de pedra junto ao aeroporto, quebrando em duas partes. Uma parte fica sobre a ponte, que se incendeia, e a outra cai ao mar de Santa Cruz. São alguns dos muitos passageiros que caíram à água que foram imediatamente vistos e resgatados por José Nicolau e tripulação.

Nos primeiros tempos do sinistro, os sonhos tinham os contornos inquietos do acidente. Mas Mestre “Ginela” e tripulação habituaram-se à vida madrasta do mar, na Madeira e no mundo. Hoje, aposentado da pesca desde 2011, olha para o mar e lá vai acompanhando a safra de cada ano. “Este ano não foi mau. O maior problema de sempre que está a afetar a pesca em todo o território português é a concorrência dos chamados “barcos arrastões”, que fazem a pesca de cerco e sugam todo o peixe. Só não levam o peixe voador porque é rebelde e não se deixa pescar na rede”. Este fenómeno, conhecido por todos, tem agravado a situação económica de muitas famílias que sobrevivem da atividade pescatória e “só a comunidade internacional pode resolver, com restrições claras e firmes, com a suspensão das respetivas licenças”.

O conhecido mestre “Ginela” também considera que não há falta de embarcações para navegar. “O que falta é o peixe para dar estabilidade a todos aqueles que vivem da pesca”.

Num momento em que os sucessivos problemas com os voos no Aeroporto da Madeira CR7 é um dos temas da atualidade, com os ventos cruzados a cancelarem e desviar dezenas e dezenas de voos, o mestre “Ginela” conhece bem essa realidade. De ventos, percebe bem o pescador que os enfrenta anos a fio assim como da especificidade da localização do aeroporto.Também os técnicos e toda a engenharia aeroportuária. Mas, neste capítulo, prefere não divulgar a sua opinião sobre o assunto para não ferir suscetibilidades, reservando os comentários aos diplomados na área.