“Vamos dar a cara por aqueles que têm medo de falar, medo de represálias”

Mac Bhico-MPT-Virgínia Henriques
“É importante que Machico tenha iniciativas todo ano e não só nos meses de verão, mostrando também a beleza patrimonial. É preciso acabar com a sazonalidade de eventos”.

O Movimento Partido da Terra (MPT) candidata uma educadora de infância à Câmara Municipal de Machico. Virgínia Henriques, natural do Porto da Cruz, militante do partido há quatro anos, tem agora a sua primeira experiência política. Foi convidada, aceitou o desafio. Por uma razão: o MPT é um partido vocacionado para a defesa das populações “e identifico-me muito com os problemas das pessoas que sentem mais necessidades de apoio, primeiro porque sou uma pessoa do povo, depois porque a minha família também passou por dificuldades”. Além disso, quer “dar a cara por aqueles que têm medo”. Porque “há e muito”.

Contribuir para ajudar os mais desfavorecidos

Colocando-se nesse patamar de identificação com o projeto, diz-se apostada numa luta determinada para estas eleições de 1 de outubro. Tem um objetivo coletivo: eleger representantes nos orgãos autárquicos, na Assembleia Municipal, na Câmara e nas juntas. Tem outro objetivo pessoal: poder contribuir para ajudar as pessoas. O facto de ser mulher candidata, podendo com isso ganhar espaço de simpatia junto do eleitorado feminino, não a faz mudar a estratégia, ainda que admita que gostaria de ter o voto das mulheres. “A minha preocupação principal é contribuir para ajudar os munícipes mais desfavorecidos, acho que estou em posição de fazer um bom trabalho. Claro que enquanto mulher, este é um desafio muito grande e uma oportunidade de demonstrar a minha coragem de dar a cara, por este partido, e mostrar às outras mulheres que podemos ser mais reivindicativas, mais participativas e que todas nós podemos ter um dever cívico”.

Pessoas têm medo de apoiar o partido

Virgínia Henriques não esconde as dificuldades inerentes ao facto de formar uma candidatura pelo MPT. Diz que “apesar das mentes mais abertas e de ter havido alguma evolução nesse sentido, as pessoas ainda têm medo de apoiar o partido, medo por represálias, a níveis pessoal e profissional”, reforçando essa ideia com a existência “de casos concretos, aqui no concelho de Machico, mas também nos concelhos do Funchal e Santa Cruz”. Um problema que, como diz, “coloca alguns entraves na feitura das listas”. Mas desmonta logo qualquer intenção que pudesse ser interpretada como indício de desistência. Nada disso. Quer ir em frente, as dificuldades e as pressões dão-lhe mais força, aposta na reação às adversidades e diz que “devemos ter coragem para lutarmos por aquilo em que acreditamos”.

Há muita pobreza que não se vê no centro mas nas redondezas”

Aponta como meta o social. Considera que “há muito trabalho a fazer nas questões sociais do concelho”, diz que “há muita pobreza”, que “não se vê no centro, mas que há nas redondezas”. Faz uma referência que considera “preocupante para o futuro”, fala da saída de “muitas famílias jovens, que na falta de condições locais, acabam por sair à procura de vida melhor. Temos famílias que estão há mais de dez anos à procura de habitação social. E se queremos que os jovens fiquem no concelho, temos que lhes dar mais apoios para que as famílias tenham estabilidade”.

Dar formação e criar empregos são metas “fundamentais” na perspetiva da candidata do MPT. Defende “uma maior e melhor articulação com as empresas do concelho”.

Pessoas foram atiradas para o Bairro de Água de Pena

Machico-MPT-Virgínia Henriques
Virgínia Henriques fala do Bairro de Água de Pena: “Parece que as pessoas foram atiradas para ali e nunca mais ninguém quis saber. Vivem com graves problemas sociais, há casos de desemprego, de pobreza, o edifício está em elevado estado de degradação e aquela gente está ao abandono”.

Aponta um caso que está nas prioridades do MPT. Faz o papel que, em sua opinião, é a “imagem de marca” da campanha, denunciando situações que neste momento afetam a população. Fala do Bairro da Água de Pena, um espaço de habitação social da Investimentos Habitacionais (IHM). “Parece que as pessoas foram atiradas para ali e nunca mais ninguém quis saber. Vivem com graves problemas sociais, há casos de desemprego, de pobreza, o edifício está em elevado estado de degradação e aquela gente está ao abandono”. Defende uma pressão da Câmara sobre o Governo, no sentido de ser encontrada uma solução concertada. E faz uma alusão lógica que esteve na origem da construção daquele bairro: “As pessoas foram ali colocadas precisamente porque tinham dificuldades. Não é novidade que precisem de apoio. Precisaram para ter casa e não foi o facto de terem casa que deixaram de enfrentar problemas”.

Melhorar o apoio domiciliário

Muito mais do que foi feito. É assim que a candidata do MPT coloca a situação relacionada com os idosos, mais precisamente com o apoio domiciliário, um serviço que é referido como insuficiente por muitas candidaturas pelo concelho de Machico. O Movimento Partido da Terra não é exceção. “A Câmara podia desenvolver um trabalho, articulado com a Segurança Social, no sentido de melhorar o apoio domiciliário. Há muitos que preferem ficar no conforto das suas casas e não lhe podemos tirar isso. Não podemos nem devemos. O que é preciso é encontrar soluções além dos lares. Podiam ter feito mais”.

As acessibilidades, pequenos arranjos que facilitassem o acesso dos idosos, faz parte das intenções de Virgínia Henriques, que inclui “ajuda a medicamentos e senhas de refeição, em casos que assim se justifiquem depois de devidamente identificados”.

Campanha de contenção

Na linha de orientação que definiu para este desafio do MPT, a candidata diz que vai fazer “uma campanha de contenção. As razões passam pela crise: “Devemos poupar, as pessoas entendem que se faça um discurso contido. É essa mensagem que queremos passar à população, nos contactos porta a porta que pretendemos fazer. É aí que vamos explicar às pessoas o que temos para defender neste desafio eleitoral. Vamos dar a cara por aqueles que têm medo de falar, que têm medo de represálias e que não têm coragem, vamos reivindicar e tentar ajudá-los”.

Reconhece que a saída do PSD e a entrada o PS “pode ter mudado alguma coisa”, aponta os eventos como exemplo dessa mudança, “sem dúvida que existem mais”. Mas também considera que “é importante que Machico tenha iniciativas todo ano e não só nos meses de verão, mostrando também a beleza patrimonial. É preciso acabar com a sazonalidade de eventos”. Só que esse lado positivo contrasta com um negativo: “Há uma falha no social”.