Inovação, frescura e tropicalidade no segundo dia do Funchal Jazz

Fotos: Rui Marote

O Funchal Jazz prosseguiu no segundo dia com uma noite preenchida de oferta musical para diferentes gostos. A noite principiou com um jazz mais convencional, se é que se pode usar esse termo, interpretado pelo agrupamento OriOn triO.

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O certo é que se trata de um combo de altíssima qualidade, que conjuga um percussionista absolutamente notável, Rudy Royston, com um não menos proficiente saxofonista, Jon Irabagon, e um competente contrabaixista, Yasushi Nakamura.

As sonoridades produzidas são de um equilíbrio inquestionável, em que a concatenação de todos os membros do grupo se aparenta perfeita, alternando momentos de consagração colectiva com outros de exaltação virtuosística individual. É uma música que agrada sobremaneira aos mais “puristas”, pois aqui se encontram todos os ingredientes, todo o lastro do passado, somado a interpretações que se apresentam ao mesmo tempo na vanguarda do jazz contemporâneo.

Num registo completamente diferente veio depois o guitarrista Kurt Rosenwinkel e a Caipi Band, constituída por Pedro Martins (guitarra, teclados, voz), Olivia Trummer (piano, teclados, voz), Frederico Heliodoro (baixo eléctrico, voz), pelo baterista Bill Campbell e por António Loureiro (percussão, voz).

Rosenwinkel, aplaudido por ícones como Eric Clapton como “génio”, é sem dúvida um músico bastante dotado e entusiasta, reverenciado mesmo por alguns que o consideram dos mais inovadores e representativos das últimas décadas. A sua procura por alma, criatividade e inovação resultou, nesta Caipi Band, em propostas fortemente marcadas pelos sons latinos tipicamente brasileiros, com uma tropicalidade, uma frescura e uma liberdade que seduzem.

A lembrar um pouco, se nos atrevermos, John McLaughlin no álbum “Belo Horizonte”. Vários foram os intérpretes de jazz norte-americanos que se deixaram cativar pelos sons do Brasil, desde o famoso “Jazz Samba” de Stan Getz e Charlie Byrd. Kurt Rosenwinkel, todavia, vai mais longe do que McLaughlin, na medida em que conjuga uma proposta musical que, mais do que marcada pela “tropicalidade”, se articula num todo por vezes quase psicadélico, que alguns escolhem mesmo classificar como “metafísico”. Obviamente, toda a classificação é redutora, e mais ainda em matérias como o jazz; mas Rosenwinkel e a Caipi Band souberam muito bem interagir com o público e apanhá-lo nas malhas das ambiências que criaram.

O tema final foi absolutamente envolvente. O público queria mais, mas não o terá pedido com a insistência suficiente, ou a banda não quis mesmo alinhar nos “encores”, depois daquele final em beleza. Haverá mesmo quem se questione se estas sonoridades são jazz: pois são, com certeza, e do arrojado e fresco, apropriadíssimo para degustar numa noite de Verão.

Hoje as propostas de qualidade continuam, a atingir o ponto do imperdível. Os apreciadores de guitarra poderão deliciar-se com Bill Frisell, um mago deste instrumento, e uma referência incontornável, a que se segue o Charles Lloyd Quartet, com Gerald Clayton, Reuben Rogers e Eric Harland: a um saxofonista de topo juntam-se um pianista, um contrabaixista e um baterista para uma receita imbatível de sucesso. Quem puder assistir, não perca.