Virtuosos do acordeão e do saxofone dominaram primeiro dia do Funchal Jazz

Fotos: Rui Marote

A primeira noite do Funchal foi assinalável por, logo de entrada, ter apresentado ao público madeirense músicos nacionais e estrangeiros com um tão impressionante domínio do seu instrumento. A abrir o Festival, se se antecipava música fácil de cair no ouvido, não foi essa certamente a opção da organização. Pelo contrário, optou-se por um alinhamento de músicos capazes de interpretações notáveis pelo sentimento e pela entrega mas, sobretudo, irrepreensíveis do ponto de vista do domínio da técnica musical, da criatividade e da improvisação.

João Barradas é um jovem acordeonista português que já começou a dar nas vistas há mais tempo, noutros domínios musicais que não o do jazz. E é um dos grandes responsáveis, actualmente, pela credibilização deste instrumento tão associado a manifestações populares, nos mais respeitáveis eventos e salas de concertos.

Basta dizer que entrou directamente para o segundo ano do Conservatório aos nove anos de idade, e que o terminou com vinte valores, para se ter uma noção de quão prometedor era, logo de início, o seu percurso. Dominando desde a música clássica a toda uma série de outros géneros expressivos, iniciou ainda adolescente uma incursão na cena jazzística internacional que tem sido épica a todos os títulos.

Ontem, Barradas demonstrou-o também no Parque de Santa Catarina, perante uma assistência que o apreciou e da qual nos chegaram múltiplos ecos de uma apreciação positiva da prestação deste intérprete luso, que se apresentou com Greg Osby no saxofone alto, João Paulo Esteves da Silva no piano, André Fernandes na guitarra, André Rosinha no contrabaixo e Bruno Pedroso na bateria.

Greg Osby, um nome marcante do free jazz, serviu sem dúvida de inspiração e de catalisador ao arranque da própria criatividade de João Barradas, e ao encontrar, por este, da sua própria via jazzística. Via essa na qual, diga-se, tem colhido as mais assinaláveis críticas por parte de consagrados músicos norte americanos, como Joe Lovano, que também ontem subiu novamente ao palco do Funchal Jazz, integrado no colectivo Saxophone Summit, verdadeira celebração deste instrumento de sopro e no qual pontificou o próprio Osby.

Sob a batuta de Dave Liebman, o grupo impressionou pela qualidade técnica e artística, capaz de arrancar sonoridades exaltadas ao sax (alto, soprano e tenor) e ao clarinete, sendo complementados estes músicos por um contrabaixista de considerável proficiência, o octogenário Cecil McBee (impressionante) e o septuagenário baterista Billy Hart.

No piano, Phil Markowitz, de 65 anos, a primar pela juventude… Foi uma pena que este Saxophone Summit não tivesse prosseguido mais um pouco na execução de “encores” no final do concerto, pois não é todos os dias que se tem oportunidade de ouvir músicos deste calibre. Mas faltou a motivação marcante do público, que terá achado porventura cansativa tal dose de virtuosismo instrumental numa só noite; e a idade não ajudava os intérpretes a continuar pela noite dentro. O que tivemos oportunidade de ouvir, em todo o caso, foi absolutamente assinalável, e não faltou quem, entre o público, pensasse o mesmo. O final, dedicado ao cinquentenário da morte de John Coltrane, um ícone para qualquer apreciador do sax, foi absolutamente delicioso.

De qualquer modo e a partir de uma determinada hora o Parque de Santa Catarina foi-se enchendo, e no final da noite o público que enchia o recinto era muito e interessado. Espera-se, portanto, o mesmo grau de afluência para os dias seguintes, dado que não faltam razões para comparecer. Amanhã, o saxofone voltará a soar, pelas mãos experientes de Jon Irabagon, que com Yasushi Nakamura (contrabaixo) actua no Rudy Royston OriOn triO, comandado pelo percussionista texano que certamente dará um “show” na sua especialidade; segue-se a Kurt Rosenwinkel Caipi Band, onde a guitarra do músico titular será indubitavelmente rainha, integrada num ‘melting pot’ jazzístico fortemente influenciado pelas sonoridades do Brasil. Ouçam-no. Eric Clapton tem-no em alta consideração.