“Recebi uma Câmara falida que estava no “top 10” das autarquias mais endividadas do País”

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Filipe Sousa diz que recebeu a Câmara com um endividamento 14 milhões acima do limite legal e deixa com 6 milhões abaixo desse limite.

Filipe Sousa perdeu apoios de partidos que o apoiaram há quatro anos na vitória à Câmara de Santa Cruz, mas diz que tem trabalho feito e números que o deixam orgulhoso: recebeu uma dívida 14 milhões acima do limite legal de endividamento e hoje está 6 milhões abaixo dessa capacidade. Os fornecedores eram pagos em 1049 dias e hoje recebem em 38. Entrou com “uma câmara falida, no top 10” das mais endividadas do País”. Não acreditou que fosse possível “endireitar” as contas em três anos. “Mas foi”.

O “Juntos Pelo Povo” começou como um movimento e foi nessa qualidade que se submeteu, há quatro anos, ao crivo do eleitorado. Foi assim que ganhou os votos suficientes para liderar a gestão da Câmara Municipal de Santa Cruz, uma das autarquias a marcar sobremaneira a derrota histórica do PSD ao nível local. Em contrapartida, um feito para o JPP, que “rompia”, assim, com a hegemonia social-democrata e com o comportamento tradicional do eleitorado, que até então confiava estas lideranças a candidaturas assentes em partidos.

Primeira candidatura enquanto partido

Acontece que os movimentos de cidadãos, num cenário em que a democracia é normalmente apanhada na “teia” da partidocracia, rapidamente se apercebem de algumas vantagens, políticas e burocráticas, de assumirem um papel de partido. Foi o que aconteceu, também com o JPP, que pela primeira vez, nas eleições de outubro, vai tentar conquistar o eleitorado para novo mandato, mas já na condição de estrutura partidária.

Filipe Sousa, o presidente da Câmara, não estava muito para aí virado, como diz o povo, primeiro estranhou, depois entranhou, rendeu-se à parte prática da questão, por razões de operacionalidade. E sobretudo esclareceu tudo internamente, antes desse passo: não estar sujeito a pressões do partido e autonomia total de decisão na escolha de pessoas. Tudo acertado, partido para a frente e até ao momento nada que o fizesse arrepender.

O JPP dá-me liberdade de pensamento e de ação

“Inicialmente, fui uma das vozes contra, relativamente à passagem deste grupo de cidadãos a partido. Mas progressivamente apercebi-me da importância desse passo, em primeiro lugar porque enquanto grupo estava limitado para as eleições autárquicas, depois porque as eleições regionais estão vedadas a movimentos, além de que a situação goza de uma burocracia que só quem anda nisto é que sabe”, explica o autarca que lidera os destinos de Santa Cruz.

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“Sinceramente, nem eu acreditava que fosse possível endireitar as contas da Câmara em três anos. Foram anos difíceis, com penhoras, com execuções, com quase 20 milhões em obras ilegais que os tribunais obrigavam a pagar.

Filipe Sousa justifica a sua relutância aos partidos pelo facto de a lógica partidária condicionar muito a ação política. Foi esta preocupação que sempre o afastou dessas opções, talvez pelo facto de já ter pertencido ao Partido Socialista e de estar por dentro dessa lógica. Por isso, está preparado para quem o acusa de ser contra os partidos e ter formado precisamente um partido. “Fui contra a forma como os partidos estão estruturados. Felizmente, o JPP dá-me essa liberdade., de pensamento, de ação, sem condicionar. Se assim não fosse, não seria candidato. Isto não é para ganhar lugares, hoje estamos aqui, amanhã não estamos”, responde, reforçando a idéia que quer passar, de estar ali, na liderança de Santa Cruz, “por quatro anos”. Depois, é a vontade de se recandidatar e a vontade do povo de reeleger.

Já estamos em condições de fazer seleção

Filipe Sousa garante ter autonomia total para escolher a sua equipa, que a haver um novo mandato será a mesma, num princípio de que “em equipa que ganha não se mexe”. É essa autonomia que dá aos candidatos a presidentes das juntas de freguesia na escolha das suas equipas. “Não interfiro em nada e isso tem resultado”. De tal modo tem sido eficaz esta receita, segundo diz, que no dia da entrevista tinha recebido quatro pessoas que se tinham oferecido para incluir a lista do JPP, embora esta já esteja constituída. “Deixa-me agradado, não queremos excluir ninguém, mas agora já estamos em condições de fazer uma seleção”.

O candidato do JPP diz que não é necessário falar, especificamente ao eleitorado, nesta altura que antecede as eleições, da passagem do JPP a partido. Por uma razão simples: “Aquilo que nos diferencia dos outros é que eu não deixo as explicações ao eleitorado para esta altura das eleições. Temos uma rotina mensal, quinzenal, onde damos a conhecer às pessoas tudo o que vai acontecendo nas freguesias e na Câmara. As pessoas, hoje, já sabem as razões que levaram o JPP a ser partido. Não estou preocupado com isso”.

Não tenho receio, estou confiante no trabalho

O facto de estarmos perante um número elevado de candidaturas, sete, bem como a circunstâncias de, tanto o PS como o CDS/PP, que há quatro anos apoiaram o JPP, apresentarem agora uma candidatura própria, “não tira o sono” a Filipe Sousa. “Há espaço para todos. O que não aceito é que existam partidos, que pelo facto de não terem a hipótese de terem um candidato A ou B, decidam, por vingança, apresentar uma candidatura própria”. Não falou em nomes mas se dissermos que falava do PS não andaremos longe.

Reage da mesma forma quando sublinhamos que essas candidaturas podem resultar numa dispersão de votos e afetar o JPP: “Não tenho receio. Até estou confiante no trabalho que fizemos e naquilo que as pessoas manifestam, estão conscientes de que esta é uma forma diferente de estar na política e reconhecem a ação desenvolvida pelo JPP”.

Nem eu acreditava que fosse possível…

Filipe Sousa admite ter sido um mandato difícil. “Sinceramente, nem eu acreditava que fosse possível endireitar as contas da Câmara em três anos. Foram anos difíceis, com penhoras, com execuções, com quase 20 milhões em obras ilegais que os tribunais obrigavam a pagar. E conseguimos superar isso, apesar de ainda existirem alguns riscos resultantes de processos que estão em tribunal, mas para os quais temos hoje uma margem de manobra em enfrentar esses riscos”.

Desde 1 de janeiro “respiramos de outra forma”

O autarca e candidato diz mesmo ter recebido a Câmara “com 14 milhões acima dos limites legais de endividamento” e vai entregá-la “com seis milhões abaixo desses limites”. E agradece a compreensão do povo de Santa Cruz, sem a qual não era possível, uma vez que, como refere, “foram necessárias medidas impopulares, mas fomos explicando à população. Desde 1 de janeiro, felizmente, respiramos de outra forma e começámos a programar alguns investimentos públicos. Ainda são poucos para a dimensão do concelho, mas são aqueles que podemos fazer e sobretudo que podemos pagar dentro dos prazos legais. Não vamos deixar para outros pagarem”.

Autarquia pagava a 1049 dias e paga a 38

Hoje, a Câmara de Santa Cruz paga a tempo e horas aos seus fornecedores. Filipe Sousa diz que recebeu a autarquia com 1049 dias para pagar faturas e neste momento, “em consequência de um relatório feito por quem nos audita, o Governo da República”, pode apresentar, também neste domínio, números que sublinha serem relevantes: “É com muito orgulho que digo que, agora, estamos a pagar em 38 dias quando a lei dá 90 dias para pagar. E mesmo assim, acho que as faturas, se entram hoje na Câmara, deveriam ser pagas logo. Só que é importante não esquecer que recebi uma Câmara completamente falida, estava no “top10” das câmaras mais endividadas do País”.

Continua com números para dar expressão ao trabalho desenvolvido: “Esta Câmara gastava 650 mil euros por ano em combustíveis e agora gasta 150 mil euros e com mais viaturas a circular. Não é poupar por poupar, é antes estabelecer critérios e rigor.”

Conseguimos” é slogan de “trabalho”

“Conseguimos” é o slogan do Juntos do Povo. Fica, assim, numa palavra, aquilo que o JPP e Filipe Sousa caraterizam como a nota dominante dos 4 anos de mandato. Para os próximos, se for eleito, o autarca aponta objetivos na área da eficiência energética (iluminação pública, que passa para a tutela dos municípios, será alvo de remodelação), aposta nas questões ambientais, no saneamento básico e na rede de água potável”.