É preciso ter cuidado com as generalizações?

É preciso ter cuidado com as generalizações?

Respondendo à questão deste pequeno texto, é tão preciso ter cuidado com as generalizações como com qualquer outro tipo de argumento.

É frequente a apresentação da refutação “Cuidado com as generalizações”, “as generalizações são perigosas”, “não devemos generalizar”.

As generalizações são um tipo de raciocínio ou argumento indutivo, também chamado não dedutivo. Há muitas formas de apresentar um argumento. As mais usuais no dia a dia são as induções e as deduções. Os argumentos são compostos por proposições. E as proposições tem valor de verdade, isto é, podem ser verdadeiras ou falsas. Uma proposição é o conteúdo do pensamento e que é expresso em frases declarativas com sentido. Um argumento é um conjunto de proposições. Uma dessas proposições ocupa o lugar de conclusão, que é a tese ou opinião que queremos defender. E as outras são as razões que apresentamos para defesa dessa opinião e são chamadas de premissas. A principal diferença entre as induções e deduções é que no caso das primeiras a verdade das premissas não garante a verdade da conclusão, ao passo que nas segundas, sendo as premissas verdadeiras, e sendo o argumento válido, é impossível a conclusão ser falsa.

Vamos a um exemplo de uma dedução:

Portugal fica em Marte e Lisboa no México

Logo, Portugal fica em Marte

Neste caso é um argumento com uma premissa apenas. E ela é falsa. A conclusão também é falsa. Mas vamos imaginar que a premissa é verdadeira. A pergunta a fazer é: se a premissa for verdadeira, pode a conclusão ser falsa? Ora, se for verdade que Portugal fica em Marte e for verdade que Lisboa fica no México, é impossível ser falso o que é afirmado na conclusão, isto é, que Portugal fica em Marte. Ou seja, o argumento é dedutivo e é válido, pois a verdade da premissa garante a verdade da conclusão. Mas não se preocupe, pois neste exemplo apenas queremos mostrar como premissas verdadeiras aguentam a verdade da conclusão. Para que o argumento funcionasse completamente haveria de explicar outras condições, mas que não interessam avançar aqui. As generalizações são um tipo de argumento diferente, já que saem fora do âmbito da dedução. Isto acontece porque a conclusão de uma generalização é sempre mais vasta que o que é afirmado na ou nas premissas. Eis um exemplo típico de generalização:

Os últimos 3 atentados terroristas foram levados a cabo por muçulmanos

Logo, os Muçulmanos são todos terroristas

Daqui se vê claramente que mesmo que a premissa seja verdadeira, a conclusão é apenas provavelmente verdadeira. Isto quer dizer que a verdade das premissas nas generalizações indutivas não garante a verdade da conclusão. No exemplo dado, a generalização é obviamente precipitada e por isso o argumento é mau. Como é que o podemos avaliar? Por aquilo que chamamos “amostra” que são os casos apresentados na ou nas premissas.

Assim, as generalizações não são más em si mesmas. O que é mau é se generalizamos a partir de premissas que não apresentam casos em número significativo que nos possa fazer aceitar racionalmente a conclusão.

Quando estamos perante generalizações tudo o que há a fazer é ser-se racional e examinar com algum cuidado o conteúdo do que afirmamos nas premissas. Claro que em termos de raciocínio, as generalizações pressupõem sempre uma boa dose de ceticismo. Mas não temos como as considerar todas perigosas, como muitas vezes se argumenta. Até porque considerar uma generalização perigosa, incorre no próprio perigo que se pretende denunciar, a saber, o da fragilidade racional da generalização. Se não vejamos como lá se chega:

As generalizações X, Y e Z são perigosas

Logo, todas as generalizações são perigosas

Como se vê, só sabemos que todas as generalizações são perigosas generalizando. E assim também a conclusão deste argumento é uma generalização perigosa.

Mas é falso que as generalizações sejam em si perigosas. Elas são usadas todos os dias em praticamente todas as situações, desde a consulta médica, advocacia, política, ensino, etc…

Tudo o que há a fazer é sempre um exame informado, cuidadoso e racional das razões que apresentamos quando queremos generalizar.

Nota final: há ainda outros tipos de argumentos indutivos, sendo os mais comuns, as analogias e as previsões.