O verso dos enganos: erro no exame de Português está a levantar dúvidas mas IAVE minimiza

O exame nacional de Português, 12.º ano, realizado nesta segunda feira, está a causar polémica por um alegado erro que poderá ter induzido os milhares de estudantes que o realizaram em respostas erradas. Mas o IAVE, que é a entidade nacional que tutela estas matérias, garante que tais dúvidas não têm fundamento.

No cerne da questão, está o grupo I-A do exame, que tem por referência um poema de Fernando Pessoa, do seu heterónimo Alberto Caeiro, “E há poetas que são artistas…”. Com efeito, a versão do poema apresentada não está em conformidade com o original do emblemático escritor português. No verso “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa”, deveria estar “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira”. Uma diferença de alguma dimensão que pesa naturalmente ao nível da interpretação, uma vez que as três questões formuladas aos estudantes incidem sobre este texto e em particular sobre o verso da polémica, nomeadamente a questão dois, “Interprete o verso “Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem não pensa” (v.9), atendendo à especificidade da poesia de Alberto Caeiro”.

É certo que Alberto Caeiro costuma ser dos mais fáceis heterónimos de Fernando Pessoa em termos de compreensão da sua poética, uma vez que insiste recorrentamente na rejeição do pensamento e na defesa de uma vivência espontânea e sensorial, em comunhão com a natureza. No entanto, a edição do poema escolhida pela equipa do IAVE pode efetivamente induzir em erro muitos estudantes porque os verbos “pensa” e “respira” fazem alguma diferença, sobretudo para os alunos com maior dificuldade na interpretação de texto, quando confrontados com trocadilhos do género pensa/não pensa.

A controvérsia tem existido nas redes sociais. Mas, segundo divulgou o jornal digital “Observador”, o IAVE não se revê nestas críticas e assegura pela voz do seu presidente, Hélder Sousa, que “não há erro nenhum”. Noticia o “Observador”que, “no comunicado enviado à imprensa, o IAVE esclarece que “o verso em apreço apresenta, na obra citada na prova, a redação que dela consta”. A edição da obra que foi citada no exame “diverge de outras edições”, mas “o seu teor não impede nem condiciona a resposta ao item 2 do grupo I”: o aluno deve apenas responder à pergunta com base no poema citado, não com base em qualquer outro.

A opção da edição do poema que figurou em exame incidiu sobre Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, 3.ª ed., Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p.72, com o título Poesia de Alberto Caeiro.

Outras opções estranhas constam desta versão do poema, nomeadamente o verbo “construi”, embora com a nota no poema a apontar para a forma adequada, “constrói”, assim como uma vírgula a separar um sujeito nulo subentendido. Mas são dúvidas que para o IAVE não colhem.

Para muitos estudantes, o heterónimo Caeiro é de longe o mais acessível dos estudados, embora as questões formuladas demandem dos alunos um poder de interpretação, raciocínio e redação que nem sempre está ao alcance de todos, agravada com as variáveis típicas do exame como a ansiedade e o nervosismo.

Esta não é a primeira vez que são levantadas dúvidas aos exames de Português, nomeadamente à diferença dos critérios de correção para respostas idênticas.

Neste momento, os estudantes nem tempo têm para refletir ou parar para pensar no assunto, porque estão pressionados pelas provas que ainda têm de realizar, nomeadamente hoje, com o grande desafio que é a prova nacional de Física e Química. No entanto, os professores que conhecem bem os textos que trabalham anualmente, bem como as características dos alunos e toda a ambiência de exame não compreendem estas ocorrências, ainda mais numa prova nacional, quando é convocada uma equipa para a elaborar, ver e rever. Além disso, o poema transcrito não deveria incidir sobre uma opção incomum ou divergente mas sobre a realidade conhecida e trabalhada em contexto de sala de aula.