Elza Soares encerrou ‘Raízes do Atlântico’ em noite cheia de público

Fotos: Rui Marote

A brasileira Elza Soares encerrou com um concerto de fôlego o Festival Raízes do Atlântico deste ano, numa interpretação marcada por momentos reivindicativos e mesmo políticos, de uma mulher que foi considerada, segundo a própria organização, “um dos maiores tesouros da cultura brasileira”. Pergaminhos, certamente, não lhe faltam, já que é a autora de ‘A Mulher do Fim Mundo’, álbum vencedor do título de “melhor do ano” de 2015 pela revista Rolling Stone, vencedor do Grammy Latino e classificado entre os dez melhores álbuns do ano pelo jornal norte-americano “The New York Times”, entre outras distinções. Cantora e compositora brasileira de samba, bossa nova, MPB, sambalanço, samba rock e samba jazz, foi eleita em 1999, pela BBC de Londres, como a cantora brasileira do milénio.

Filha de um operário e de uma lavadeira, nasceu em 1937, numa favela, e teve de cumprir ordens do pai e deixar de estudar aos treze anos, para se casar. Tinha catorze anos quando nasceu o seu primeiro filho. Morreram-lhe vários, outros foram sequestrados… a sua vida parece uma novela, mas é na realidade uma história simultaneamente de sofrimento e perseverança. Tendo passado por tais acontecimentos, não admira que a sua música encerre perceptíveis elementos de protesto e mesmo de revolta. Cantou sentada, por sofrer das costas. Mas a voz, certamente, essa não lhe dói.

Sobre ela, o jornal The Guardian escreveu que o tempo parece não pesar.  E energia vital e capacidade de afirmação, certamente, não lhe faltam.

Elza Soares e o grupo de músicos que a acompanhava foram a última atracção da noite, que se iniciou, todavia, com um concerto aproximando duas regiões vizinhas, entre as quais, infelizmente, não se estabelecem tantas pontes como seria desejável – a Madeira e as Canárias.

Guilherme Órfão & Beselch Rodriguez apresentaram uma exploração das sonoridades e tradições dos dois arquipélagos.

“Guilherme Órfão começou a tocar instrumentos tradicionais madeirenses aos 7 anos, inicialmente braguinha e depois rajão e viola de arame. Passou pelas melhores escolas de música tradicional da Madeira e foi com a prática dos cordofones que integrou a Orquestra de Ponteado e o Si que Brade. Mais tarde, com amigos, criou os Metáfora, banda onde é arranjista e compositor. Recentemente tem divulgado os cordofones madeirenses por palcos nacionais e internacionais com o seu projecto a solo”, explica a organização do Festival.

Já Beselch Rodriguez nasceu em Tenerife e descobriu o Timple, um instrumento tradicional das Canárias, quando o seu avô o iniciou no mundo do folclore e da música tradicional. Desde então já trabalhou com várias formações, editou três discos e actuou em vários festivais. Foi reconhecido pelo governo canário como um dos máximos representantes da nova geração de intérpretes deste instrumento.

Actuou também neste concerto uma dupla de músicos açorianos, Carlos Medeiros e Pedro Lucas, os quais, com dois álbuns de originais, têm colhido elogios pela forma como cruzam recolhas tradicionais açorianas com linguagens sonoras modernas.

Trata-se de dois ilhéus separados, em idade, por trinta anos de desventuras em torno das suas raízes musicais, conforme refere a organização do ‘Raízes’.

“Medeiros traz o sal na voz e a capacidade inigualável de cantar histórias e tradição do cancioneiro açoriano, Medeiros é um dos músicos mais respeitados da música tradicional Portuguesa, Lucas junta-lhe a irreverência e juventude da guitarra e das programações electrónicas, do jazz e do rock”. Já haviam actuado anteriormente no âmbito deste Festival com o projecto Experimentar ‘Na M’Incomoda’.