Portugal é um Estado onde vigora a liberdade religiosa, é um Estado laico, que representa a imparcialidade relativamente aos assuntos de caráter religioso, permitindo a livre escolha e o respeito por todos, independentemente das opções que venham a assumir nessa matéria.
Dito isto, essa mesma liberdade permite-nos observar a deslocação do Papa Francisco a Portugal de uma forma pragmática, respeitando os princípios que estão subjacentes à própria sociedade portuguesa, tradicionalmente católica, mas adotando, também, uma postura de respeito por aqueles que têm uma opinião contrária, pensando de outra forma e vendo esta presença com maior ou menor indiferença.
Papa humano num mundo de números
É óbvio que a figura do Papa, para mais este Papa Francisco muito particularmente, ultrapassa em larga escala as opções religiosas. É uma questão de apreço, é muito sentimental, está num patamar de avaliação acima de qualquer pensamento. É um Papa humano num mundo de números. Mesmo aqueles que não são católicos ou que o são mas pouco ou nada praticantes, só o são porque foram batizados e é uma questão de família, mesmo esses, têm um respeito muito particular por Sua Santidade, sentimento reforçado numa altura em que está em Portugal para as cerimónias de Fátima.
É um momento para enaltecer a visita do Papa. É um momento para relevar o seu papel apaziguador, de alerta para os graves problemas que o mundo atravessa, de consenso entre as pessoas, de figura central para onde convergem grandes esperanças.
Fátima no centro das atenções
É um momento de fé, mais interior do que exterior, se bem que nem sempre aquela supere esta, infelizmente, mas o importante é que quando falamos de fé, emerge, desde logo, o melhor dos sentimentos que podemos explanar num contexto em que há um espaço físico, o Santuário de Fátima, para onde se concentram milhares de pessoas, além daquelas que vão acompanhar as cerimónias pela televisão, porque o negócio que mostra o outro lado de Fátima, não deixa outras opções. É assim desde há muito, por maioria de razão está a sê-lo agora com a procura largamente superior à oferta. Era bom que fosse só rezar, mas não é. Não há nada a fazer. Vamos rezando para que, um dia, não seja tanto.
Fátima centraliza atenções. Este maio mais do que outros, mas em todos os dias 13 há uma concentração de vontades, uma fórmula quase mágica de um sentir diferente, porque neste sentir não há negócio e é nele que devemos acreditar, em primeira análise, para que cada um possa, verdadeiramente, estar em Fátima de diferentes maneiras, com sentimentos variados à volta de questões muito práticas e normais do dia a dia, confiando nas mãos divinas aquilo que a vida terrena tarda em resolver ou minimizar. As vontades fazem milagres e é nisso que depositam todas as esperanças com todas as suas forças, às vezes as poucas forças que ainda têm.
Francisco com abertura que a própria Igreja não aguenta
Este quadro transporta-nos para níveis elevados dos sentimentos e de respeito, de tal forma que se torna rídículo encontrar pontos de discórdia relativamente a quem tem outra opinião, menos sentida, menos apaixonada, do fenómeno de Fátima. Além de vivermos num Estado laico, vivemos em liberdade de opinião, que provavelmente muitos não saberão do que se trata na verdadeira dimensão, mesmo no seio da própria Igreja Católica, onde há círculos tão fechados que, um dia, se chegarem a abrir, cairão na indiferença, porque efetivamente se tratam de pessoas que essa mesma Igreja Católica dispensaria facilmente. Este Papa tem uma abertura que a própria Igreja Católica não aguenta, pelo menos numa grande parte.
A Fé é de todos. Sem fundamentalismos
Valerá a pena discutir, neste momento, o essencial. Mais do que tudo. Fátima recebe o Papa Francisco, visita que ficará para a História e cada um dos peregrinos que ali vão estar, têm um sentir individual muito determinado que deve ser enaltecido em toda a sua plenitude. Não se brinca com sentimentos nem com a crença das pessoas. Mas também não é necessário ostracizar, qual comportamento mais próprio de período inquisitório, quem porventura possa, neste momento ou noutro qualquer, apontar discordâncias no que toca aos princípios, à génese de toda a história que suporta Portugal, Fátima e os Pastorinhos.
A Fé é de todos e ninguém pode apropriar-se dela como se a pudesse comprar, ainda que às vezes alguns comportamentos pareçam isso mesmo., que se pode comprar. A Fé, assim simples, é do mundo, não só do mundo católico, mas do mundo global. A Igreja Católica tem o seu lugar próprio, importante, na sociedade. Não tem o exclusivo, nem da Fé nem da verdade de pensamento. E às vezes, não ficaria mal um pouco de visão democrática e mais aberta relativamente a assuntos de real importância, e bem terrenos, que passam ao lado do dia a dia e que também vão estar em Fátima mesmo sem se ver.
Ter Fé é acreditar mesmo nos impossíveis. É por isso que a Fé é superior aos chamados defeitos da sociedade, a que a Igreja, porque é feita de homens e é muito mais do que a Fé, também está sujeita.
Na Fé, vale a pena ter Fé…Sem fundamentalismos.
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