Crónica Urbana: Governo compra agora arte sacra “saqueada” de capela nunca classificada

 

Foto tirada de “Madeira quase esquecida”, com a devida vénia
Rui Marote
“(…) Ainda que todo o património arquitectural seja propriedade de todos, cada uma das suas partes está à mercê de cada um.
Cada geração não dispõe do património senão a título transitório. Ela é responsáel pela sua transmissão às gerações futuras. A informação do público deve ser tanto mais desenvolvida quanto os cidadãos têm direito de participar nas decisões que respeitem à sua vida.”
 
                                          Carta Europeia do Património Arquitectónico
foto R. Marote
 
 Conforme o Funchal Notícias apurou, o Governo Regional adquiriu, num antiquário madeirense, uma peça pictórica anteriormente pertence à capela de Nossa Senhora da Saúde, situada na freguesia de São Pedro, na proximidade do Largo do Marquês (de Castelo Melhor), quase rente ao Beco dos Moinhos. A fundação deste templo é muito antiga; data de 1659.
 O espólio da dita capela, pode dizer-se sem grande perigo de usar inadequadamente a má palavra, foi, a bem dizer, “saqueado” e pouco ou dele nada resta.
Nos anos 80, então ao serviço do Jornal da Madeira fui impedido pelos proprietários da capela (pois, porque se situa em propriedade particular) de fotografar a capela, existindo então no exterior da mesma ma serragem. Anos mais tarde, estava eu então ao serviço do Diário de Notícias, os proprietários proibiram de novo a captação de imagens.
foto R. Marote
A Direcção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC) a muito custo conseguiu fazer um levantamento do estado em que se encontrava a capela, e do qual a foto que juntamos, da autoria de Rui Camacho, é a única prova fotográfico.
foto R. Marote
A referida serragem anos mais tarde encerrou, e os proprietários sacaram algumas peças e imagens que foram distribuídas pelos herdeiros que permaneciam nas suas residência. Alguns já faleceram e hoje as peças começam a aparecer em antiquários na Região e talvez no continente.
O Funchal Noticias descobriu num estabelecimento no centro do Funchal um fragmento de talha da estrutura retabular, que fotografou.
Esta peça de arte sacra foi, entretanto, adquirida pelo Governo Regional, o que aplaudimos, sendo como é, um vestígio de uma capela que, não se percebe porquê, nunca foi classificada  e cujo proprietário, o industrial João Augusto  de Sousa, adquiriu em 1952 , ao senhor Jaime  Vicente de Faria  e Castro.
Hoje a capela pertence à firma João Augusto de Sousa (sucessores), Limitada, estando à venda todo esse quarteirão.
 
A capela foi edificada pelo Dr. Pedro de Carvalho de Valdavesso (descendente de castelhanos de Toro que vieram para a ilha na 1ª metade do século XVI) e por sua mulher, Dona Maria de Gondim, na Quinta da Vinha, um imóvel solarengo já destruído, e onde, por volta de de 1872, Henry Price Miles instalou a primeira fábrica de cerveja da Madeira: a Miles & C.H.P.
Segundo um hábito comum dos proprietários de capelas, que enriqueciam com telas, azulejaria, talha, a capela de Nossa Senhora da Saúde foi valorizada com um opulento retábulo de talha dourada datado de 1661.
A obra de de talha desta capela constitui um documento da segunda metade do século XVII, referenciando um novo gosto na decoração de pequenos templos, com um arco superior interrompido por nicho (ladeado pelo Sol e Lua com rosto humano prefigurando o Antigo e o Novo Testamentos) a ocupar o espaço de fundo do altar-mor.
Assinalada na imagem está o local da peça agora adquirida pelo GR, e a posição que ocupava no retábulo da capela.
Com dezanove nichos para imagens, rico em simbologia alusiva à invocação da capela, o retábulo de Nossa Senhora da Saúde é exemplar, testemunhando a influência da moda espanhola e do novo estilo que revitalizaria a talha portuguesa, dando-lhe cunho nacional. 
Também a lindíssima capela de Nossa Senhora  da Saúde, segundo nos diz Santos Simões, teve cobertura de azulejos polícromos do século XVII, restando apenas uma cercadura para tapete coberta pelas partes laterais do retábulo.
Nas paredes da capela existiu uma colecção de estampas votivas e registos de santos, impressos nas mais variadas técnicas e de diversos autores, ali deixados por devotos e fiéis.
Ladeando o altar, na sua parte inferior, dois painéis armoriados ostentam, à esquerda, as armas do Dr. Pedro Carvalho de Valdesso , Juiz dos órfãos da cidade do Funchal, e à direita, as de sua mulher. 
No chão da capela, uma lápide tumular em pedra da ilha, com epitáfio gravado, cobre a única cripta particular conhecida na Madeira  em edificação semelhante. Anos atrás, foram ali encontrados dois cadáveres da família Valdavesso, sepultados no século XIX , ainda com restos de vestuário e calçado. O Dr. Pedro Carvalho de Valdavesso  faleceu no Funchal, na freguesia de São Pedro, a 3 de de Julho de 1679. A lápide tumular encomendada em 1660, dezanove anos antes da sua morte, mostra claramente a intenção de se fazer sepultar na companhia de sua esposa, que mandara erigir a capela de Nossa Senhora da Saúde.
(Com a devida vénia, reproduzimos quase ipsis verbis texto de José de Sainz-Trueva , ilustrado por fotos de  Rui Camacho).
Tudo isto que atrás reproduzimos foi entretanto “saqueado” e pouco ou nada resta. Pode-se argumentar com a possibilidade dos proprietários fazerem o que quiserem com a sua propriedade; pode-se questionar porque não foi classificada a capela; pode-se invocar um ror de aspectos, entre os quais a inoperância da DRAC. O que é certa, é a importância desta capela cujas obras são agora vendidas ao desbarato, tendo o Governo Regional a única hipótese de tentar ainda salvaguardar para o património da Região aquilo que ainda é possível. Porque, ao fim e ao cabo, trata-se de património da Madeira – património de todos nós.