Morreu Baptista-Bastos; cultura e jornalismo português estão de luto

É mais uma grande perda para a cultura e para o jornalismo português. E sobretudo, para a ligação ancestral existente entre cultura literária e jornalismo em Portugal, da qual representava um dos últimos e mais perenes elos. O romancista e jornalista Baptista-Bastos morreu hoje, com 84 anos de idade.

 

Lisboeta de gema, cidade que aliás descreveu de forma particularmente intensa e colorida nos textos literários e nas inúmeras crónicas que escreveu, Armando Baptista-Bastos era natural do bairro da Ajuda, onde nasceu a 27 de Fevereiro de 1934. Frequentou a escola de Artes Decorativas António Arroio e o Liceu Francês.

O seu percurso no jornalismo foi dos mais extensos e diversificados. No jornal ‘O Século’, onde principiou, reportou várias vezes do estrangeiro, como enviado especial; foi subchefe de redacção d”O Século Ilustrado” ainda nem 20 anos tinha; escreveu crítica cinematográfica; a sua vasta cultura cedo o empurrrou para trabalhos de registo cultural, mas tinha do jornalismo, e sempre manteve ao longo da vida, uma visão de polivalência e não de especialização. Para ele, acima de tudo, o jornalista era um observador e um intérprete dos acontecimentos e da vida das pessoas.

Foi despedido do jornal ‘O Século’ por envolvimento na Revolta da Sé em 1959 na sequência da candidatura do general Humberto Delgado, por quem foi activista. Por causa da perseguição política de que foi alvo, trabalhou na televisão pública apenas sob pseudónimo,  Manuel Trindade. Mas não durou: foi rapidamente despedido.

 

Entre os órgãos de comunicação social por onde passou, contam-se O Diário, República, Europeu, Almanaque, Seara Nova, Gazeta Musical e Todas as Artes, Época, Sábado e Diário Popular. Foi também correspondente da Agence France-Presse, em Lisboa e colunista – e brilhante – no Jornal de Notícias, A Bola, Tempo Livre e realizou crítica para o Jornal de Letras, Artes e Ideias, Expresso, Jornal do Fundão, Correio do Minho, Diário Económico. Fundou ainda o semanário O Ponto, periódico que registou uma série de entrevistas semanais. Na rádio leu as suas crónicas na Antena 1 e na Rádio Comercial. Era ultimamente colunista do Diário de Notícias e do Jornal de Negócios. Apresentou na televisão o programa de entrevistas Conversas Secretas, emitido na SIC. Para o Público, realizou também uma série de 16 célebres entrevistas, com o título “Onde é que você estava no 25 de Abril?”, uma das perguntas que mais recorrentemente formulava e que caracterizou tanto a sua personalidade como as gravatas borboleta que utilizava.

Entre os livros de sua autoria, contam-se Capitão de Médio Curso (crónicas, 1979); Viagem de um Pai e de Um Filho pelas Ruas da Amargura (romance, 1981); Elegia para um Caixão Vazio (romance, 1984); O Homem em Ponto (entrevistas, 1984); A Colina de Cristal (romance, 1987); Um Homem Parado no Inverno (romance, 1991); O Nome das Ruas (crónicas, com António Borges Coelho, 1993): O Cavalo a Tinta da China (romance, 1995)
Fado Falado (reportagem, 1999); Lisboa Contada pelos Dedos (crónicas, 2001); No Interior da Tua Ausência (romance, 2002); As Bicicletas em Setembro (romance, 2007); A Bolsa da Avó Palhaça (romance, 2007); A Cara da Gente (crónicas, 2008).


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