Dois madeirenses contam ao FN experiência profissional na Noruega: “As chefias são muito flexíveis e o mérito é valorizado”

André Figueira está a desfrutar desta experiência profissional na Noruega. Fotos DR.

São dois jovens madeirenses, licenciados em Ciências Farmacêuticas em Portugal, que iniciaram, há seis meses, uma experiência profissional na Noruega. André Figueira e Mariana Vasconcelos, namorados, responderam a um anúncio de trabalho que foi a porta de acesso à Noruega como farmacêuticos. Até este momento, os jovens estão rendidos aos encantos deste país e destacam a simpatia das pessoas contra o estereótipo de que os nórdicos são frios. A nível profissional, nova surpresa: não se nota tanto a hierarquia e “as chefias são mais flexíveis” e “valorizam o nosso trabalho”. Um testemunho a duas vozes, do André e da Mariana, que pode inspirar outros jovens.

 

Funchal Notícias – Como é que um licenciado madeirense chega à Noruega?

André Figueira –  Desde cedo achei aliciante abandonar a Madeira para um dia poder regressar como um cidadão mais capaz e com uma diversidade de experiências que me permitissem contribuir um pouco mais para a sociedade. Felizmente tive a sorte de ter tido sempre o apoio incondicional dos meus pais, não só a nível financeiro mas também a nível emocional. Assim sendo o primeiro passo foi frequentar o ensino superior fora da Madeira, especificamente em Lisboa. Desde que comecei o curso em Ciências farmacêuticas em 2010 tinha ambições de conhecer a realidade fora de Portugal, pese embora não tivesse nenhum país de eleição nem uma área específica de interesse. Durante o curso estagiei na universidade de Medipol, em Istambul, e fiz ERASMUS em Ljubljana, na Eslovénia, e gradualmente senti que queria continuar a evoluir profissionalmente fora de Portugal.

A Noruega surge como uma oportunidade, seria hipócrita se dissesse que desde os meus 5 anos sempre sonhei em viver na Noruega. A Noruega e a Suécia são dois países que tiveram alterações da regulamentação das farmácias recentemente, pelo que têm uma grande necessidade de farmacêuticos. Foi em 2015, enquanto estagiava na Farmácia de Santo António no Funchal (à qual agradeço pelo apoio prestado durante o processo de recrutamento), que vi um anúncio de recrutamento em Portugal para farmacêuticos que quisessem trabalhar na Noruega, e, juntamente com a Mariana, achámos que estaria na altura de embarcar numa aventura fora de portas. Após 2 fases de recrutamento ficamos a saber em Julho de 2015 que aprenderíamos norueguês através de um curso online durante 12 meses, e que em Outubro de 2016 iriamos para a Noruega. Na altura não sabíamos para que cidade norueguesa iríamos, e esse foi provavelmente um dos factores de maior stress durante todo o processo.

A afamada beleza deste país nórdico é evidente.

Apesar de a Noruega só ter 5 milhões de habitantes, é um dos maiores países da Europa. Para se ter noção, a 5ª maior cidade da Noruega tem menos habitantes do que o Funchal e desde o início do processo de recrutamento fomos informados de que não são muitos os candidatos que são colocados em cidades grandes (para a realidade norueguesa).

Para se ter uma ideia da dimensão do país, um voo entre Oslo e um dos pontos mais a norte da Noruega (Kirkenes) dura 2h10. Um dos nossos maiores medos era ir trabalhar para uma cidade ou muito a norte (onde efetivamente durante o inverno pode haver 2 meses sem se ver o sol) ou para cidades muito pequenas em que não houvesse muita margem para conhecer outras pessoas e uma boa oferta de atividades.

Atualmente vivemos em Kristiansand, a quinta maior cidade da Noruega, que fica bem no sul da Noruega, a 50 minutos de avião de Oslo ou por volta de 3h30 de autocarro.

Mariana Vasconcelos foi influenciada pelo namorado a partir mas está a adorar a experiência.

Mariana Vasconcelos – Posso sinceramente dizer que fui positivamente influenciada pelo André no “bichinho” de ter a experiência de viver no estrangeiro. Nunca foi de todo um sonho meu, nem mesmo para estudar, embora pretendesse ter a minha independência desde que ingressei no ensino superior. Aliás, foi uma surpresa para a minha família, porque normalmente sou mais para o lado reservado e não sou adepta de mudanças muito bruscas. Uma das decisões que mais pesou, para além de o facto de irmos juntos ser um processo muito mais fácil, foi o facto de estar a viver e a trabalhar na Madeira desde o momento do estágio curricular. Apesar de tanto ser dito sobre a nossa ilha, que considero maravilhosa, senti que era extremamente limitante lá viver “para sempre”. Além disso, acho sempre positivo o processo de aprendizagem interior, o sabermos mais sobre nós, e acredito que também é um processo mais fácil quando feito longe do nosso lugar seguro. Para acrescentar, é sempre bom ter um desafio a nível profissional; tendo em conta que tive a experiência do mercado de trabalho na Madeira, quis mesmo experimentar uma outra realidade exercendo a minha profissão.

FN – Qual o primeiro impacto neste novo mundo? Como descrever este país e estas pessoas a quem não os conhece?

André Figueira – O primeiro impacto foi surpreendentemente positivo, não esperava encontrar pessoas tão disponíveis para ajudar, pessoas tão simpáticas e tão pacientes. Digamos que em Portugal há muito a ideia de que os noruegueses são pessoas antipáticas, frias, e digamos que está um pouco longe da verdade. São, sem dúvida, pessoas menos próximas e mais difíceis de travar amizade, mas provavelmente tão ou mais simpáticas do que as portuguesas.

Tal como já disse, a Noruega é um pais bastante grande, e onde ir do ponto A ao ponto B não é tão simples como traçar uma recta no mapa, pelo que há muita diversidade. Porém, genericamente acho que posso dizer que e um país bastante liberal, em que o respeito pelo espaço pessoal do outro é mais marcado do que em Portugal, e onde se vê que os noruegueses, tal como os portugueses (apesar de tanta critica), gostam bastante do seu país e dos seus costumes.

O típico gelo tem a sua graça e não afasta os visitantes.

Mariana Vasconcelos – As pessoas são mesmo a surpresa mais agradável, e é o que sublinho sempre quando me perguntam, algo que provoca alguma surpresa, inclusive aos noruegueses que fazem a pergunta. Desde o início, e porque mal nos mudámos para cá,estávamos já preparados para trabalhar, tive muito apoio dos meus colegas, e senti como se pertencesse realmente àquela “casa” há muito mais tempo. Ainda hoje, as minhas colegas dão-me feedback positivo, por várias vezes, em relação à forma como lido com algumas situações do dia-a-dia da farmácia, e por em 6 meses conseguir usar o norueguês de forma prática e efectiva nas mesmas. Não acho de todo que seja algo que aconteça em todos os locais de trabalho noruegueses, mas possivelmente algo que seria difícil acontecer em Portugal. Há certas normas sociais que não estão escritas em lado nenhum e que uma pessoa vai interiorizando ao longo do tempo com o hábito, mas o dia-a-dia faz-nos ver que isso não faz das pessoas necessariamente frias, afastadas ou desligadas.

FN – O que efetivamente nos distingue dos noruegueses?

André Figueira- Acredito que são muitas as coisas que nos distinguem dos noruegueses. Porém, as diferenças não são provavelmente as que estava à espera. São vários os traços que nos distinguem dos noruegueses, quer enquanto sociedade, quer enquanto indivíduos. A nível de linguagem, por exemplo, o norueguês não conhece o ” tem de”, mesmo a nível laboral é um aspeto que é bastante importante, sobretudo em cargos de chefia. Aqui utiliza-se muito o ” será que te importas? Poderias ajudar-me?”; há toda uma linguagem muito indirecta e politicamente correta que muitas das vezes pode não ser muito fácil de descodificar. Há um exemplo típico em relação à linguagem: se um norueguês diz ” está frio, não achas?”, um português é capaz de concordar ou discordar, enquanto um outro norueguês facilmente compreende que é para fechar a janela ou ligar o aquecedor. Claro que generalizar um povo ou uma sociedade é sempre um erro, porque felizmente nem todos seguem o estereótipo que criamos.

A nível laboral, a hierarquia profissional não se nota tanto, e as chefias são muito mais flexíveis do que em Portugal, pelo que pedem bastante mais a opinião dos trabalhadores do que em Portugal.

Haveria todo um mundo de aspectos a referir tais são as diferenças, tanto que há guias online de como funciona a Noruega, de como são as pessoas e outros aspetos.

Mariana – Para começar, penso que os noruegueses no geral são mais sinceros que os portugueses. As pessoas não têm problemas, na maioria das vezes, em dizer as coisas como elas são. Não são muito faladores, mas se encontrarmos alguém a passear no meio da floresta e não os conhecermos, é provável que nos sorriam ou digam olá. Para além do que o André já sublinhou, há aspectos típicos que têm a sua piada e são diferentes: toda a gente tira os sapatos e deixa-os na entrada quando entram em casa; as pessoas não se cumprimentam com dois beijos como estamos habituados; se se conhecerem bem, o mais provável é ser escolhido uma espécie de abraço como forma de cumprimento, entre outros factos curiosos.

FN – Concretamente, que tipo de trabalho fazem na Noruega?

André Figueira – A nível profissional, tal como disse, sou farmacêutico, e para já trabalharei ate 2018 numa farmácia aqui em Kristiansand. No futuro pode ser que pense em mudar de ramo dentro da minha área de formação, mas para já estou bastante satisfeito, e sinto que ainda tenho muito para evoluir quer a nível linguístico, quer a nível técnico. Nos meus tempos livres, tal como para a maior parte dos noruegueses, há tempo para o desporto e pratico kickboxe 2 vezes por semana. Mais uma vez, tal como os noruegueses, sábado é dia de festa e domingo de gå på tur (expressão dada à acção de dar um passeio pela floresta ou pela montanha).

Nesta vertente viver na Noruega é uma grande vantagem, porque apesar de se trabalharem 36 horas semanais, uma pessoa sente que tem mais tempo; não por não fazer horas extra, mas sim por só termos 30 minutos de almoço e começarmos várias vezes antes das 8h30, que por norma fazem com que a maior parte dos trabalhadores saia do trabalho por volta das 16h.

Mariana Vasconcelos – Eu também trabalho como farmacêutica numa farmácia em Kristiansand, que é bastante semelhante ao que fazia quando trabalhava na Madeira. Mais um motivo de espanto foi a razão pela qual queria ir para outro país trabalhar, quando iria desempenhar mais ou menos as mesmas funções. A verdade é que esta área é sem dúvida a minha preferida, incluindo o contacto com os clientes e ajudando na interface médico-doente e toda a compreensão associada à administração e efeito de medicamentos, mas não só. Aqui é requerido ao farmacêutico que tenha imenso conhecimento do medicamento em si, quando em Portugal é normalmente exigido ao farmacêutico que saiba um pouco de tudo em relação aos produtos que a farmácia tem ao dispor, o que pode comprometer a capacidade do mesmo em desenvolver o seu conhecimento sobre o medicamento, visto que não é algo assim tão valorizado. Posso dizer que sinto realmente que os doentes estão bastante mais protegidos na Noruega, seja em termos económicos em caso de doença crónica, como na informação que recebem na farmácia. Os farmacêuticos são realmente encorajados em saber bastante, algo que me agrada muito e me desafia constantemente. Também noto, em geral, que as pessoas estão um pouco mais alerta em relação à saúde e aos medicamentos que tomam, beneficiando muito mais da informação que obtêm do farmacêutico ou dos outros profissionais de saúde que trabalham na farmácia. 

FN – Em termos profissionais o que é mais menos aliciante neste país?
André Figueira – O mais aliciante, no meu caso, é sem dúvida sentir que o meu trabalho é valorizado, sentir que daqui a 1 ano posso atingir uma posição laboral melhor do que aquela em que estou hoje.

Mariana Vasconcelos – Ser reconhecida pelo trabalho que faço. É um prazer fazer o nosso trabalho e, por vezes, ter de investir algum tempo em determinadas tarefas, mas ver que nascem frutos desse esforço. Como estou a trabalhar numa farmácia que abriu em Dezembro, num centro comercial, onde para além da minha há mais 2 farmácias abertas ao público, há sempre desafios e formas de melhorar a nossa oferta ao público. Para além disso, como as companhias em que trabalhamos são muito maiores em comparação com uma farmácia particular, é muito mais fácil cumprir os valores de salário e recompensar pelo bom trabalho, o que é uma grande vantagem.
FN – E as saudades da família, como gerem?
André Figueira –  As saudades da família são geridas desde que fui estudar para Lisboa, e felizmente hoje em dia com o Facebook e com o Skype é tudo bastante mais fácil. Há ainda que dizer que os meus pais gostam bastante de vir cá, e faço questão de ir a Portugal pelo menos 3 vezes ao ano, tal como quando estudava em Lisboa. Apesar de fácil, há sempre saudades, mas lá está, vão sendo geridas.

Mariana Vasconcelos – Sempre encarei a nossa vinda para cá como a construção da nossa vida juntos. Afinal de contas, ainda foram algumas mudanças, mudar de país, de casa, deixar de viver com os pais, viver juntos pela primeira vez. A partir desse momento, torna-se mais fácil dosear as saudades e pensar que estou a fazer o melhor por mim e pela minha vida, e não há razões para ficar triste nesse cenário. É também mais fácil quando se trata das pessoas com quem estivemos a nossa vida toda e já nos conhecem bem. No meu caso, tenho um sobrinho de 5 anos, e custa-me bastante saber que assisto ao crescimento e conquistas dele um pouco à distância. De resto, acho que me ajuda imenso a valorizar a minha família e o tempo que passo com a mesma quando vou a Portugal. Há também outros amigos de quem tenho saudades, mas normalmente quando há uma boa relação, há sempre contacto.

FN – É difícil a um português procurar trabalho na Noruega?

André Figueira – Digamos que é preciso analisar bem a área de formação e a nível de competência linguística. Apesar de praticamente todos os noruegueses falarem inglês, a maior parte dos trabalhos requer norueguês. Por outro lado, não são todas as zonas da Noruega nem todas as áreas do mercado de trabalho que carecem de trabalhadores, pelo que digo que para uns pode ser bastante fácil (sobretudo na área da saúde, onde há varias empresas de recrutamento que pagam toda a aprendizagem da língua e ajudam na mudança, por exemplo), mas para outros pode ser bastante difícil, pelo que vir para a Noruega com algum dinheiro e com espirito de aventura pode ser algo bastante arriscado tendo em conta o custo de vida bastante alto, sobretudo em Oslo.

Mariana Vasconcelos– Nós tivemos a sorte de possuirmos competências que são muito procuradas pela Noruega neste momento. Com a crise do petróleo, houve várias pessoas que trabalhavam na Noruega em áreas relacionadas com o mesmo, mas que foram obrigadas a voltar para Portugal por terem perdido o trabalho. Uma boa regra é ter um contrato de trabalho e boas condições oferecidas para então se mudar de país.

FN – Tenciona deixar a Noruega e regressar a Portugal?

André Figueira – Estamos por cá há 6 meses, e sentimo-nos cada vez melhor cá, pelo que regressar num futuro próximo não faz minimamente parte dos nossos planos. Mas nunca se sabe o dia de amanhã!

Mariana Vasconcelos – É engraçado, que normalmente quando falo com outros portugueses que emigraram, a maioria confessa-me que querem voltar a Portugal daqui a uns anos, mas só com melhores condições ou num emprego diferente daquele que tinham quando lá viviam. Não sendo a ideia desdenhar de tudo aquilo que temos em Portugal, e no nosso caso em particular da Madeira, a Noruega oferece melhores condições de vida e sinto-me muito satisfeita com o meu trabalho, pelo que não tenho intenções de voltar tão cedo. Existe por cá muito apoio à população, inclusive se não nativos, como nós. Há vários exemplos práticos que poderiam ilustrar esta situação, mas posso ficar-me por dois: uma pessoa com doença crónica ou qualquer outra condição que requeira cuidados por mais de um ano usufrui de uma comparticipação sobre esses medicamentos ou produtos, e paga no máximo 2205 coroas norueguesas por ano, o que equivale a cerca de 235 euros, o que na realidade norueguesa não é assim tanto. Outra questão pertinente é a maternidade: as mães e os pais podem repartir a licença de maternidade / paternidade, o que é muito positivo, e que ao todo perfaz um ano. É, portanto, totalmente natural que, se assim decidido, a mãe se ausente durante um ano do trabalho, e isso não é de todo visto como algo do outro mundo.