Crónica Urbana: Pingo Doce promove o ressurgir das cadernetas de cromos

Quem não se recorda, tendo idade para isso, do aparecimento, nos anos Sessenta do séc. XX, nas mercearias, das cadernetas de cromos das Equipas de Futebol de 1ª Divisão? Para a época em que vivemos, tratava-se de uma inovação artesanal. Os cromos faziam-se acompanhar de um rebuçado. Quem completasse a caderneta tinha direito a uma bola de catechu de péssimo fabrico. Na época ninguém sabia o que era Adidas, muito menos Nike. Cada saquinho de papel continha três fotos de jogadores e custava um tostão. A caderneta, um escudo. Geralmente, os estabelecimentos à porta das escolas eram os mais procurados pelos alunos.
Presto homenagem ao Francisquinho, ao pé do Liceu Jaime Moniz, que batia os recordes de venda destas colecções. Trocar o Matateu ou o Travassos não era fácil; valia três cromos. A Rua Bela de Santiago transformava-se numa autêntica bolsa de compra e venda de cromos. A mercearia, ao intervalo das aulas, abarrotava até o exterior.
Hoje os tempos são outros, mas a cadeia Pingo Doce descobriu o que há muito esteve em moda e lançou nos seus supermercados uma colecção intitulada Super Animais.
Vamos abrir uns parágrafos para que os nossos leitores possam situar-se no que mais à frente iremos concluir.
A venda de 56% da Jerónimo Martins a uma subsidiária da Holanda provocou as mais variadas reacções. A empresa disse que tal não iria ter implicações fiscais, os partidos políticos ficaram indignados. O PS considerou que a deslocação da sede social da Jerónimo Martins para a Holanda configurava um caso de “iniquidade fiscal” e exigiu ao Governo uma resposta imediata, para evitar desigualdades no pagamento de IRC.
A Jerónimo Martins, dona dos supermercados Pingo Doce, tinha anunciado que a Sociedade Francisco Manuel dos Santos vendera a totalidade do capital que detinha no grupo à sua subsidiária na Holanda, mantendo no entanto os direitos de voto .
Tudo isto para situarmos esta operação legal para fora do território nacional. Clarinho como água, ponto final.

Ora, anos e anos depois a cadeia Pingo Doce descobriu a pólvora. Através de uma publicidade sedutora, anuncia o fantástico Álbum dos Super Animais e promete “uma grande aventura em que vamos ficar a conhecer, através de 108 cartas coleccionáveis, alguns dos animais mais rápidos, temidos ou estranhos (entre muitas outras características) que existem”.
Esta colecção não tem nada a ver com os rebuçados depositados numa caixa de bolachas da fábrica de Santo António, está a léguas de distância.
Quanto custa o Álbum? O Álbum dos Super Animais está à venda em todas as Lojas Pingo Doce e custa 0,99 cêntimos, dos quais 0,20 são doados para o Fundo de Conservação do Jardim Zoológico.
Tudo correcto e didáctico até para as crianças das ilhas, que não têm possibilidades de se deslocarem ao “rectângulo português”, muito menos ir ao Zoo. E o facto ´é que as mesmas têm aderido, e os cromos começam a fazer furor entre os coleccionadores nas escolas da RAM.

Os clientes têm direito a um cartão com quatro cromos, no caso de efectuarem compras no valor de 10 euros, e se forem possuidores do cartão Pingo Doce têm direito a mais um cartão. Isto é marketing.
Conclusão: Nada temos contra a ideia, que aplaudimos. O único senão é a “falta de patriotismo”. O sr. Francisco Manuel dos Santos é comendador agraciado no Dia de Portugal e das Comunidades… Mas verifiquei que a Gráfica que efectua esta colecção se situa na Holanda. Será que os Portugueses não têm gráficas capazes de produzir esta brilhante ideia dos Super Animais?