Sonhos de Abril que continuam por cumprir

Ilustração de José Alves.

Num dia em que se assinala mais uma aniversário do 25 de abril, o FN dá a palavra aos poetas, as vozes que cantam abril por cumprir, por sugestão do autor da ilustração que se publica, José Alves.

Tristeza que corrói a alma e me enche de rugas o rosto
Profundas, vincadas pela ansiedade, pelo desejo de gritar
De dizer não quero, por lutar e sentir desgosto
Por chorar por um Abril que não vejo, que tarda a chegar
Por um Portugal diferente. Que não seja adulterado
Por governantes políticos, sem alma e sem soluções
Por um País de promessas, corrompido, queimado
Conspurcado por ganâncias, manietado por obsessões.

Sinto neste silêncio podre, místico como a morte
O vento do descontentamento e o som da agonia
Gélido, cortante, permanente, rodopiando sem norte
Sugando a identidade, matando a alma da harmonia.
Comendo nas entranhas a nobreza e a memória
De um povo que tem garra que tem raça
Apagando a herança dos sinais fortes da história
De quem foi forte de quem tem credo de quem tem casta.

Agora um grito de revolta na minha alma ardente
Escorrido, como água por entre o rochedo da razão
Num doce eco fluido que se prolonga permanente
Neste corpo curvado cansado da espera e de solidão.
Sinto o meu coração elanguescido fundir-se na saudade
Daqueles momentos vividos no prelúdio da incerteza
Resgatados na coragem dos capitães que fizeram a liberdade
De armas e cravos na mão honraram e cantaram a Portuguesa.

Quero afastar esta tristeza, que me invade a alma
Quero dormir embriagado pelo doce sabor da ilusão
Daquela noite diferente, inquieta, livre e calma
Deram cores aos sonhos deram corpos e almas à razão.
Abril dos cravos de cores mais viva nessa primavera.
Sofreste, crescestes por entre estertores moribundos
Ergue-te e sai de novo à rua e grita pela voz do povo
Para que o sonho não seja turvo e a esperança, uma quimera.

José João Murtinheira Branco