Dijsselbloemistas e Schäublianos

Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem, mais conhecido como o mordomo do Ministro das Finanças alemão e suposto democrata cristão Wolfgang Schäuble, depois de ter sido porta-voz da “voz do dono”, e de ter vertido muito assertivamente em insidiosas palavras o sentimento revanchista dos países do norte, chegando mesmo a responder a um deputado espanhol (que lhe exigiu um pedido de desculpas ou a assunção de um “lapsus linguae”) que não necessitava de lhe lembrar o que a sua boca (desbocada) regurgitara. Uma espécie de “read my lips”.

Mais recentemente, porém, veio o “moço de recados” alegar que afinal havia sido mal interpretado.Claro que o amiguinho senhor Juncker, quando questionado sobre a polémica durante a conferência de imprensa conjunta com Marcelo Rebelo de Sousa (porventura a fazer as vezes de Freud, especializado em leituras psicanalíticas) já veio a terreiro pôr a mãozinha por baixo ao menino Dijsselbloem, argumentando que o “anjo” dos caracóis não sente “aquilo que parece ter dito”. Simpatizo particularmente com o “parece ter dito”. Ou seja, se calhar, não disse. Apenas parece que disse. Além de que só Juncker sabe da nobreza de sentimentos que vai na alma sensível e abençoada de Dijsselbloem.  Coragem, isso sim, teve o  Secretário de Estado Mourinho Félix que fez uma “pega de caras” ao “paquete”, exigindo em nome de Portugal um pedido de desculpas. Na esteira da filosofia do Dono Disto Tudo, “as desculpas não se pedem, evitam-se”, o prepotente holandês que se julga igualmente Dono Disto Tudo, para além da arrogância que é  desde sempre a sua imagem de marca, bolçou inclusivamente que se sentia chocado com a reação portuguesa, adiantando o seu firme propósito em continuar o mandato (com fim em Janeiro de 2018), independentemente da pressão de países como Portugal e Espanha e de grupos parlamentares do Parlamento Europeu – do Partido Popular Europeu aos próprios socialistas e sociais-democratas, a família política do ministro holandês – para que dê lugar a outro responsável. Deram-lhe a chave da casa-de-banho e, pronto, não a larga por nada deste mundo.

Dijsselbloem, não sem alguma razão, defende-se, escudando-se no facto de nenhum ministro ter exigido consequências. Quando chegou a vez de os ministros falarem, “ninguém pediu uma demissão”, golfou. Ao que parece, o único que os tem no sítio é o Secretário de Estado Mourinho Félix, já para não convocarmos a certeza de que “Quem não se sente não é filho de boa gente”.  Dos visados aquele que foi mais longe à chegada ao Eurogrupo foi o ministro das Finanças espanhol, Luis de Guindos, que considerou as declarações do holandês “desadequadas, em termos de conteúdo e forma”, tendo exigido ainda uma explicação. Consta que nos bastidores se intensificam as movimentações para ser escolhido um novo responsável. De Guindos é um dos nomes referidos.Talvez por isso resolveu dizer umas palavrinhas agridoces. Em sentido contrário, refira-se que o Ministro grego (por todas e mais algumas razões, o ministro grego) ficou estranhamente  afónico, à mistura com um confrangedor sorriso de impotência, quase que a pedir desculpas por ter sido injuriado.

Segundo  Dijsselbloem, as suas agressivas e inqualificáveis palavras foram mal interpretadas, isto é, os povos do sul, talvez devido à sua excessiva dedicação aos copos e às mulheres, não pescam nada de interpretação.  Note-se que apesar de não ter concluído os estudos de um curso de Mestrado, entre Novembro de 2013 e Abril de 2014, o grau de Mestre constou da sua biografia oficial, até o mesmo ser desmentido por parte do University College Cork e da National University of Ireland, facto que, como está à vista de todos, lhe confere grande autoridade para censurar quem quer que seja.    E a Lusófona atulhá-lo-ia em relvados de equivalências. Conforme o “doutorado” em  Semiótica Dijsselbloem, “A escolha de palavras magoou algumas pessoas e isso, claro, lamento profundamente.” O problema, portanto, entendamo-nos, não está na mensagem que se pretendia insultuosamente  passar. Está na escolha lexical. Fosse acompanhado ao piano e declamado, e estaríamos todos a aplaudi-lo de pé, a coroar-lhe os caracóis com rosas e a perfumá-los com incenso. Algumas e alguns  Dijsselbloemistas, ditos portugueses, que adorariam dele uma “selfie”, a esta hora já o têm no sacrário lá de casa a fazer companhia a outras imagens de santos e santas como Wolfgang Schäuble, Angela Dorothea Merkel, Christine Madeleine Odette Lagarde ou  Jean-Claude Juncker. A própria Super Bock não ficou para trás e já respondeu, ao seu estilo, na sua página de Facebook. Na imagem lê-se a frase “Gastámos tudo em copos!” e, em baixo, três copos de cerveja vazios. Afinal, diz que em Amsterdão, na Holanda, só se bebe uma água mineral (ou será refrigerante?) chamada Super Bock, e quanto a mulheres nem lhes tocam, divinizam-nas. Colocam-nas em exposição em poses angelicais, em montras, celestial e psicadelicamente iluminadas pelo Espírito Santo, para poderem ser admiradas e amadas, apenas e só, platonicamente, prevenindo-se, assim, a exemplar população da “doença das vacas loucas”.