“Tiros no pé”

A coisa mais fácil de acontecer, especialmente em política, é mais cedo ou mais tarde dar uns “tiros nos pés”, sobretudo em momentos de grande pressão e, também, de grande tentação impelida pelo poder, que se apossa de quem o tem e que, a dado momento, transmite uma ideia de impunidade, moral e legal, que leva a cometer erros de palmatória, que às vezes até custa a crer que tenham sido cometidos, independentemente da explicação dada e do momento em que acontecem.

Nos últimos tempos, assistimos a algumas situações que resultaram precisamente da inabilidade e falta de senso para gerir momentos de maior “aperto”. Ou por mau aconselhamento ou por má estratégia, atitudes que normalmente surgem em momentos em que a inteligência e a leitura objetiva não querem nada com quem decide. É normal em política e o que é preciso mesmo é evitar que aquilo que já foi criticado a outros, seja agora um exemplo e não a repetição de episódios, que não ajudaram a quem os fez no passado e que não vão ajudar nada a quem repete no presente. Está tudo inventado.

Inabilidade para tanta importância

Vamos ao episódio da inauguração do Aeroporto, que já foi escalpelizado por muitos, mas que convém não deixar cair no esquecimento, nem que seja como exemplo do que não deve, nunca, acontecer em atos públicos desta natureza, desta dimensão internacional. Somos uma ilha, de pequenas dimensões, mas que tem o melhor jogador do mundo, uma figura conhecida à escala planetária, queremos, e bem, homenageá-lo da forma achada por conveniente, não temos nada contra, antes pelo contrário, e depois, no meio de um grande momento, de um dia inesquecível, da mudança do nome do aeroporto, já de si alvo de controvérsia, lá vem um pormenor que mostra, de facto, a tal inabilidade para tratar de certas questões. Ter alguém a segurar as pontas, ter alguém para preparar convenientemente uma cerimónia, que tinha à partida garantia de cobertura mundial, de forma a que a imagem da Madeira passasse lá para fora com responsabilidade e competência, e não através de uma imagem, falamos do busto naturalmente, que ofuscou um dia tão importante e um ato com um simbolismo tão grande.

Ronaldo leva a Madeira ao mundo

Já não se discute se o nome deveria ou não ser aquele. Foi a decisão que se respeita, Ronaldo é realmente o nome que leva a Madeira ao mundo e em todo o mundo sabe-se quem é Cristiano Ronaldo. Nada de mal, portanto, nesta homenagem. Mas que diabo, perante a grandeza da decisão e a garantia de presença das mais altas entidades do País e da Região, bem que poderiam ter encontrado uma fórmula que acompanhasse a real dimensão do momento. Fazem comissões para tanta coisa, não escandalizaria ninguém se formassem um grupo de trabalho para aquela cerimónia. Mais um, menos um, não fazia diferença em número, mas podia fazer toda a diferença na imagem.

Não quero, nem acho que deva ser esse o caminho, responsabilizar o autor pelas imprecisões do busto, uma vez que fê-lo certamente com o maior empenho, inclusive há imagens em que há uma maior exatidão de pormenor, quando em barro e em gesso, mas seja porque razão for, seja na passagem ao bronze, seja na conceção, seja onde for, tinha forçosamente de ser encontrada uma forma de avaliar o trabalho final antes de expor a Madeira a isto. A Madeira e o próprio autor, que deveria ter recebido o apoio necessário para que, num momento em que pretendia lançar o seu trabalho, e era um momento de ouro, bem poderia ter tido outro apoio.

Não sei se foi pago ou não, dizem que não e acreditamos. Seja como for, há coisas que devem merecer intervenção mesmo sendo gratuitas. Até porque o profissionalismo que exigia a cerimónia, não se compadece apenas com a boa vontade de fazer um trabalho. É preciso garantir qualidade e precisão. Para proteção de todos e com o devido respeito, que é preciso ter, pelo trabalho de quem fez a obra e ao qual não podem ser assacadas responsabilidade em exclusivo sobre o que veio a acontecer. Realmente, como muitos já disseram, Ronaldo tem azar com escultores.

Convite na “gaveta”

O segundo “tiro no pé” foi protagonizado por Paulo Cafôfo. Foi acusado de não ter convidado o Governo para a inauguração da Loja do Munícipe e logo veio afirmar que o convite tinha sido dirigido ao secretário regional das Finanças e à diretora do IDR. Não é obviamente a mesma coisa e tratando-se de um momento em que estava presente o primeiro-ministro, mandava a prudência política, não deixar “pontas soltas” e convidar institucionalmente o Presidente do Governo, Miguel Albuquerque, para a cerimónia. Só então, depois, se o presidente entendesse delegar essa representação num secretário e não estar presente, seria um ónus para Albuquerque, seria dele o “tiro no pé” porque nessas condições deveria estar presente. Como Cafôfo deveria ter convidado. Pensamos mesmo que a decisão poderá ter origem num momento de reação a quente, mas que não dá bom resultado. Hoje, mais a frio, julgo que teria feito diferente. São coisas que acontecem, mas num contexto de ano eleitoral, deve ter uma equipa atenta para evitar que situações como esta comprometam o capital que, na realidade, conquistou e que é inequívoco para quem quiser ser justo, à margem das suspeitas avaliações partidárias, porque estas não são isentas. E isto nem tem nada a ver com eventuais reivindicações sobre quem pagou o quê. É mesmo num patamar exclusivamente institucional. É assim que se marca a diferença.

(Des)encontro ao almoço

A vinda de António Costa à Madeira, pelos vistos, fez “mossa” em várias frentes. E lá está, sem necessidade. Parece que em momentos de tensão, entra tudo em colapso mental e dá a ideia que não dá tempo a resolver as coisas e, pior do que isso, as pessoas não têm noção do seu verdadeiro lugar e das respetivas competências.

Aquele almoço entre Filipe Sousa e António Costa teria tudo de normal, talvez normal, normal, não, mas normalmente era aceitável, se as declarações válidas fossem aquelas de esclarecimento sobre a demissão de Jaime Leandro, no PS-M, e não as que foram proferidas à RTP-Madeira, no local, onde o presidente da Câmara de Santa Cruz, fez declarações de âmbito partidário ao afirmar o apoio do JPP a Cafôfo e manifestando a sua preferência pela não candidatura do PS em Santa Cruz, nas eleições autárquicas de 1 de outubro. Foi um “tiro no pé”.

O que Filipe Sousa deveria ter dito, desde início, era que o almoço visou, exclusivamente, uma oportunidade de encontro institucional, entre primeiro-ministro e presidente da Câmara de Santa Cruz. Ponto final, sem esclarecer mais. Até mesmo que fossem analisadas questões de âmbito partidário, envolvendo JPP e secretário-geral do PS, não poderia ser dito. “À mulher de César não basta ser séria, há que parecê-lo”. É outro caso que, julgo, Filipe Sousa nunca mais vai repetir, porque certamente hoje faria de outra forma. Há pequenos deslizes que, a não serem estancados, podem comprometer.

Medicamentos em falta

Numa outra vertente, temos a falta de medicamentos. Outro “tiro no pé”, este de Pedro Ramos, que apesar de novo nestas andanças políticas, já adquiriu os tiques de “político que lida mal com críticas”. Parece contagioso, todos ficam assim e lidam exatamente da mesma forma, desde sempre.

Não me lembro de alguém que lide bem com uma crítica, mas quem exerce um cargo público tem de fazê-lo de forma superior, pensada, assente na razão e não no coração, mesmo que seja essa a vontade. O secretário até tem “mexido” em algumas situações, tem mostrado trabalho, tem avançado com algumas medidas que fazem sentido, mas não pode deixar levar-se por aquela veia “partidária”, que vê oposição em tudo o que não faz vento a favor. E isso não é bom. Para a Saúde muito menos.

Falou-se na falta de medicamentos. E a notícia, obviamente, não é agradável para quem governa. Só que havia falta de medicamentos, é um dado concreto, independentemente de afetar ou não os utentes, de colocar ou não em risco vidas. Faltaram medicamentos. Ponto. Cabe à comunicação social alertar, cabe ao Governo explicar. Limpinho.

Como é que o secretário reage? “Nenhuma das substâncias referidas traz qualquer tipo de problema se ocasionalmente não estiver disponível”? Tudo bem, só que também diz que são notícias alarmantes, fomentadas pela oposição, normalmente metendo os jornalistas no mesmo saco, porque ninguém explica que jornalismo, não devendo ser anti-poder, deve ser contrapoder, leal, verdadeiro, e deve dar expressão à defesa das pessoas e não à defesa de interesses. Isto é o que deve ser, não significa que seja ou que tenha sido. Agora ou no passado. Sabemos disso, o que está para trás também não foi bom nesta matéria. E isto, claro, pode fazer confusão de princípios. Mas para quem fala em novo ciclo e novos métodos…É verdade que o que temos, nesta matéria, está mais para “venda”, ainda que camuflada, a interesses, do que para “compra” de credibilidade. Mas isto é como tudo, é sempre bom sabermos como deveria funcionar, neste caso a comunicação social, nem que seja para termos a noção de como funciona. É bom que os políticos saibam, tenham uma noção no mínimo. Praticar é outra coisa, já sabemos.

Além disso, jornalismo é assim, é preciso saber conviver com ele. É bom para subir escadas, mas também chega um dia que é preciso saber descer. Mesmo que neste “cenário de maravilhas” pareça que só há subida.