Em Torno das Legislativas na Holanda

1 – As eleições legislativas holandesas realizadas no passado dia 15 de Março, confirmando as tendências da quebra dos partidos dos governos da maior parte dos países europeus, ditaram uma clara penalização da coligação da direita e da social-democracia, que geria aquele País, bem como reduziram muito do apoio ao presente modelo da União Europeia.

Na verdade, os dois partidos da coligação que implementa na Holanda as politicas e as orientações da U. E. foram fortemente penalizados, tendo perdido no seu conjunto 37 lugares no Parlamento.

Assim, com a elevada participação de 82% dos eleitores, o Partido Popular Para a Liberdade e Democracia (V.V.D.) do Primeiro Ministro Mark Rutle, apesar de ainda continuar a ser a força mais votada, baixou a sua votação de 26, 5% para 21,2%, passando  de 41 para apenas 33 deputados no Parlamento. Por sua vez, o outro partido da coligação governamental, o Partido Trabalhista ( PvdA ) do videirinho Jeroen Dijsselboem, Ministro das Finanças e presidente do Eurogrupo, sofreu uma hecatombe muito maior, pois de segunda força em 2012, com 24,8% e 38 deputados, baixou para o sétimo lugar, com apenas 5, 7% dos votos e 9 assentos parlamentares.

Por outro lado, o Partido Para a Liberdade (PUD), da extrema-direita, dirigido pelo populista Geert Wilders, marcado por um discurso reacionário, xenófobo, de favorecimento do grande capital e antieuropeísta, que muitos vaticinavam que obteria uma grande votação, subiu moderadamente de 10,1% para os 13%, passando de 15 deputados para 20 no Parlamento.

Os restantes partidos mantiveram mais ou menos as suas posições, com exceção dos Democratas Cristãos do C. D. A que subiram de 8,5% para 12,4% elegendo 19 deputados; e dos Liberais  do D66 que conquistaram mais 7 deputados, passando de 12 para 19 assentos parlamentares.

Mas a subida mais espetacular foi a obtida pelos Verdes de Esquerda que quadruplicaram a sua votação, passando de 2,3% para 9,1% dos votos e de 4 assentos parlamentares para 14 deputados.

2 – Uma primeira ilação a retirar desta votação na Holanda, é a de que apesar das sucessivas sondagens e dos principais meios de comunicação europeus, desde 2016, assustarem e apontarem para uma fortíssima votação, ou até para uma vitória eleitoral do Partido Para a Liberdade (PUD) da extrema direita, afinal  esta força apenas cresceu 3 pontos percentuais e só obteve mais 5 deputados face às eleições de 2012.

Deste modo, o PUD da extrema direita passou a ser a segunda força eleitoral da Holanda, não porque tivesse obtido uma espetacular votação, mas apenas porque os dois partidos da coligação governamental, ou seja o  VVD do primeiro Ministro, e o Partido  Trabalhista do inefável Presidente do Eurogrupo, que eram os mais votados, sofreram uma forte erosão eleitoral e perderam 37 deputados no Parlamento

Com isto, não queremos de forma alguma minimizar os grandes perigos que estão associado ao crescimento da extrema direita e dos nacionalismos na maioria dos estados europeus, facto indissociável ao aprofundamento da crise do capitalismo, e que é muito preocupante e deve ser fortemente combatidos.

Todavia, há que chamar a atenção para a desmedia instrumentalização da questão da extrema direita e dos nacionalismos, para apagar a crescente erosão dos chamados “partidos tradicionais”, como se verificou nas eleições da Holanda,  partidos esses que têm sido e são os pilares e os grandes defensores do ruinoso modelo neoliberal da União Europeia; tudo de forma a vender e fazer passar a ideia de que a verdadeira e única alternativa à extrema direita e aos nacionalismos, reside na direita neoliberal e no atual “status quo” europeu.

Há também que chamar a atenção para o cinismo que está por traz da alegada preocupação de alguns com o crescimento dos nacionalismos e da extrema direita, quando são precisamente os mesmos que, descaradamente, apoiam o regime fascista ucraniano, os golpistas corruptos brasileiros, que defendem as políticas mais reacionárias da União Europeia, ou vomitam insultos e ataques xenófobos contra os países do Sul da Europa,  como têm feito o nazi Schauble e o videirinho Dijsselbloem.

Os mesmos cúmplices do presidente do Banco Central Europeu Mario Draghi, que apesar do governo português, com muitos sacrifícios do nosso povo, ter conseguido travar a austeridade sobre austeridade, reduzir o deficit e cumprir com os absurdos rigores do Tratado Orçamental, na linha da ininterrupta ingerência e chantagem sobre o nosso País, vêm agora exigir, sem pudor, mais “reformas” para “corrigir os desequilíbrios macroeconómicos excessivos”, acompanhadas da recorrente e covarde ameaça de sanções a Portugal.

De modo que deduzimos que o verdadeiro combate da tropa de choque ideológico dessa gente que aparentemente combate os nacionalismos, a extrema direita e as suas profundas causas, reside sobretudo na inflexível defesa do actual modelo neoliberal e capitalista da União Europeia, contra aqueles que defendem o progresso social, a soberania, a solidariedade, o direito à saúde, à educação, à proteção social, a renegociação da dívida pública, bem como o controlo do Estado sobre as empresas e sectores estratégicos, e ainda a democracia política participativa, económica, social e cultural.