Desculpa a trapalhada, Ronaldo!

Não conheço pessoalmente Cristiano Ronaldo. Aprecio o seu trabalho, a sua tenacidade e louvo a carreira que tem tido, colocando-o no pódio dos futebolistas mundiais. É sem dúvida o madeirense mais internacional de sempre e uma referência de sucesso. A sua personalidade ultrapassa mesmo o mundo do desporto e isso só o engrandece.

É natural que a Madeira queira colocá-lo emblematicamente associado à sua História. Já o tem feito em diveros atos. Compreendo por isso as razões que levaram a homenageá-lo no passado dia 29 de Março no Aeroporto. Porém, para quem assistiu aos relatos da homenagem, a ideia que ficou é que a intenção foi mais a colocar a Madeira, através do Aeroporto, no Mundo, beneficiando da sua popularidade, do que reconhecer o papel de Cristiano Ronaldo para a Madeira. As declarações feitas subentendiam “o fazer render” o que Cristiano pode dar à Madeira, e não tanto uma verdadeira e genuína homenagem pública.

Curiosa esta perspectiva de “rentabilidade turística” de um nome, vinda de um partido e de pessoas que aqui há uns anos, quando sugeri na Assembleia o nome de Cristóvão Colombo para o Aeroporto do Porto Santo, exactamente com esse mesmo propósito de “internacionalizar” a terra onde viveu, tivessem votado contra, argumentado que os nomes dos Aeroportos não serviam para isso! Coerências….

Voltando ao caso, concordo que as homenagens não precisam de ser feitas depois do falecimento e era muito importante que se fizessem sempre antes dessa partida. Mas as homenagens devem ser fruto de um consenso o mais alargado possível, para que o homenageado não tenha razões para se sentir objecto de divisão. Daí que haja um tempo preciso para que a homenagem surja de forma natural, resultante de um sentimento cristalizado e comum. Está na capacidade e na perspicácia dos políticos entender a oportunidade.

Tão importante quanto essa aceitação popular está a credibilidade do ato. A homenagem tem de ser séria e bem fundamentada. Quando em Julho passado, no calor da inauguração Hotel da Praça do Mar, alguém segredou sugerindo a redenominação do Aeroporto da Madeira em Aeroporto Cristiano Ronaldo, antes de se tornar público, devia saber-se do que se estava tratando. Desde 14 de Dezembro de 2012 que a utilização, gestão e exploração dos bens do domínio público aeroportuário, onde se inclui o Aeroporto da Madeira, foram cedidos pela RAM ao Estado por 50 anos. Embora se saiba que o domínio público aeroportuário está na titularidade da RAM, nos termos do Estatuto político, aquele acordo abrangeu a cedência da concessão e dos direitos concessionários ao Estado implicando a transferência de todos os direitos (sociais e patrimoniais) inerentes à participação. Reconhecendo isso a posteriori, o Governo Regional, em vez de atribuir o nome, veio antes propor à ANA essa atribuição (vide Resolução do Conselho do Governo n.º 491/2016 publicada na I Série do JORAM de 1 de agosto).

Vir dizer que o Aeroporto é dos madeirenses porque o pagaram e só os madeirenses é que têm o direito de o rebaptizar, é esquecer algumas coisas:

1º o pagamento do Aeroporto, pelo menos da sua ampliação, foi mais das instituições europeias e de quem hoje paga as taxas aeroportuárias do que dos impostos aqui cobrados;

2º como se disse, o Governo Regional vendeu esses direitos que a Região tinha sobre o Aeroporto;

3º Acresce que o próprio Governo, naquela Resolução, reconheceu que não tinha essa competência e,

4º Por último, o nome do estabelecimento não é dado pelo proprietário, mas antes, naturalmente, por quem o explora!

Ficamos a saber, a acreditar na notícia de um semanário, que a questão ainda não está resolvida e à semelhança das inaugurações feitas antes da obra estar acabada, agora se baptizam aeroportos antes de tudo estar acertado. Espero sinceramente que o Estado e a ANA acabem por levar a bom porto a iniciativa do Governo Regional, mas não deixa de ser uma grande trapalhada toda esta história!

Por não ter sido bem preparada a homenagem, e pela falta de conhecimento e de competência de quem as devia ter, fizemos uma triste figura, fingindo que era uma redenominação, quando afinal não era mais do que um ensaio. Desta vez foi Cristiano Ronaldo a vítima de um Governo, que se farta de ser um executivo “em cima do joelho”.


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