A Cultura em tempo de Autárquicas

No presente ano, importa mesmo saber, quais as pretensões que os candidatos aos municípios têm para um setor tão importante como o da cultura. Embora, saibamos – ou pelo menos deveríamos saber – que em ano de eleições há sempre um bonito rol de promessas culturais, mas que, infelizmente, os vencedores dos sufrágios, nem sempre cumprem com o prometido após tomarem posse.

Não é por mero acaso, que a área da cultura, norteia parte do programa das várias forças políticas, que se apresentam a votos, porque quer queiramos quer não, a cultura e as artes, move fortemente as pessoas, visto que estão intrinsecamente ligadas à vida das comunidades.

Temos que ser cidadãos atentos e exigentes, não se deixando ir, facilmente, na “cantiga do bandido”, porque, como diz o povo: de promessas está o inferno cheio. Basta pensarmos, quantas promessas culturais, das últimas eleições autárquicas, que contribuíram para ganharem votos, e que ainda estão por cumprir? É verdade que segundo a “lata” da maioria dos autarcas, os incumprimentos, são por culpa da conjuntura económica que o país atravessa. Ou então, justificam logo com aquela frase feita: o município não tem disponibilidade financeira. Mas também sabemos que, por vezes não há mesmo dignidade e responsabilidade, por parte de alguns autarcas, em cumprir com o que os levou ao poder e, por outro lado, porque também há um certo marasmo no que é apostar fortemente em projetos culturais inclusivos que envolvam, ativamente, a comunidade local.

Lamentavelmente, alguns autarcas, veem a cultura só nos eventos que arrastam grandes massas, independentemente, da qualidade e dos gastos financeiros públicos. São, igualmente, indiferentes ao interesse e envolvência ativa dos artistas locais. Para alguns, interessa ainda e muito, uma cultura de “show-off”, em detrimento de uma genuína cultura produzida pelos membros da(s) comunidade(s).

Sabemos que “muitos organismos públicos e decisores políticos continuam a ver os agentes culturais como “subsídio-dependentes”. Gente que não sabe fazer mais nada que não seja andar de mão estendida. Uma espécie de desocupados desta vida que se entretêm a fazer projetos que não interessam a ninguém a não ser aos próprios artistas. “ (Xavier, J. B. p.48).

É com muita pena que em vários municípios, da nossa Região Autónoma da Madeira, ainda deparamos com tanta falta de recuperação de edifícios classificados, de valor incontestável, que até poderiam dar uma nova vida social, cultural, turística e económica a determinadas localidades.

Oxalá que os candidatos às próximas eleições autárquicas, entendam que “cultura é parte dos pilares a tomar em conta na construção das sociedades no século XXI.” (Xavier, J. B. p.412).

É hora dos nossos decisores políticos perceberem que os municípios devem ser lugares de cultura, como algo relevante do ponto de vista económico e até de integração e felicidade de uma comunidade. É tempo de percebermos que a cultura pode projetar, ainda mais, as localidades para o espaço regional, nacional e até global. Pois a cultura, quando bem utilizada, assume um papel fundamental na dinâmica da vida de qualquer comunidade. Daí, independentemente de mudar-se os autarcas e até as cores políticas, há que ter visão e consciência em dar continuidade aos projetos culturais que já são referência incontornável no panorama local e regional. Não há necessidade de terminar os eventos de sucesso, só por terem sido uma ideia implementada por outras equipas autárquicas.

É de modo infeliz que vejo que, no nosso bonito país, – com 10 562 177 habitantes, segundo os últimos censos do INE de 2011 –, ainda temos municípios que nada ou pouco fazem, em termos culturais para as suas populações locais e visitantes. Outros, porém, têm uma oferta cultural mais intensa, diversificada e até de qualidade, desenvolvida pelo pessoal especializado do próprio município, mas também fruto das várias parcerias, sinergias e trabalho em rede que se criam com os diversos artistas, autores e outros agentes culturais locais e nacionais.

Embora exista alguns projetos ativos, há que aproveitar melhor os espaços culturais, – auditórios, museus, bibliotecas – existentes em alguns municípios, para que sejam realmente polos de dinâmica, reflexão e fruição de eventos de domínio artístico, pensados e virados para a comunidade em geral.

Louva-se os projetos que envolvem a comunidade e as escolas com as tradições que moldam o carácter das nossas gentes e nos unem num sentir comum e direcionado para o futuro.

“Não basta ter programações culturais, é indispensável criar políticas culturais, e essas deverão levar em conta a natureza dos públicos locais, os seus interesses e origens, os seus gostos e horizontes de crescimento e fidelização, o que implica não só a existência de equipamentos, mas sobretudo de uma oferta que, combinando tradições com modernidade, combata a descontinuidade do que é sazonal e, por isso mesmo tendencialmente esporádico e efémero.” (Letria, J.J. p. 93)

Apesar dos constrangimentos orçamentais que os municípios atravessam, a cultura deve ser uma aposta séria e consistente, adequada à realidade local. Por isso, os municípios devem estar dotados de infraestruturas dedicadas à fruição cultural e à qualidade de vida dos seus habitantes; deve ainda preservar e honrar o património histórico – material e imaterial – de todos nós.

Não nos esqueçamos que um município sem uma política cultural ativa e bem assente, acentua ainda mais o empobrecimento da população. Por vezes, parece que alguns municípios, em termos culturais, estão em modo pause ou então mesmo em modo off.

Devemos criar e ter orgulho nos projetos culturais que permitem os munícipes terem acesso à arte e ao saber. Mas para isso ser uma realidade é necessário existir coragem política e uma visão estratégica cultural, para que se saiba arriscar e encontrar mementos certos para agir, mesmo contra o pessimismo de muitos e a resistência de outros.

É curiosos verificar-se que nos meses que antecedem as eleições, há um crescente número de eventos culturais, nas mais variadas vertentes artísticas, sempre com alguma pompa e circunstância, onde não faltam os candidatos às autarquias, mas depois do período das eleições, a coisa esmorece mesmo.

Claro que são legítimas as aspirações dos autarcas, mas que o façam com seriedade, pois também são legítimas as aspirações culturais dos cidadãos, onde cada um deve realmente olhar a cultura como algo essencial para a organização pessoal e social das comunidades.


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