Esculturas há muitas…!

Na Madeira, existe abundante escultura nas praças, rotundas, largos, ruas, jardins e recantos. Há excelentes peças escultóricas, mas também um significativo número sem qualidade estética para ocupar o espaço público. Por outro lado, algumas não se adequam ao sítio onde foram colocadas.

Importa, por conseguinte, repensar a arte pública na Região. Questão ainda mais pertinente quando envolve o dinheiro dos contribuintes.

O concelho do Porto do Moniz prepara-se para, em breve, exibir uma escultura alusiva ao combatente na guerra colonial, homenageando, em particular, os munícipes que cumpriram missões no Ultramar.

Se se trata de encomenda directa ao escultor que, no entender da Câmara Municipal, reunia melhores condições para executar tal projecto, parece-me que teria sido mais vantajoso um concurso público, isto independentemente do currículo do artista em causa.

Durante vários anos, foi sempre contratado Ricardo Velosa para as esculturas que o Governo Regional, autarquias e outras organizações próximas do PSD pretendiam promover. Até se chegou a falar no «escultor oficial» da dita «Madeira Nova». Recorde-se, entre outros, os seguintes exemplos: Autonomia (1987); Sereia (1989); Turista (1989); Sá Carneiro (1990); D. Francisco Santana (1991); Revolta da Madeira (1991); Carreiro do Monte (1992); Júlio Dinis (1993); homenagem aos que colaboraram no desenvolvimento do sector da construção civil e obras públicas nos últimos anos na RAM, o popular “Enforcado” (2004).

Registe-se que a escultura alusiva à Revolta da Madeira foi objecto de concurso público, tendo o júri, para o efeito nomeado, atribuído o primeiro prémio ao projecto do escultor José Manuel da Silva Gomes. No entanto, o Governo Regional desautorizou o júri e aprovou o de Ricardo Velosa, que não fora seleccionado.

Se, nos finais dos anos oitenta do século passado, não foi respeitada a deliberação de um júri de um concurso público, fazendo o Governo Regional, através de uma ardilosa alínea do respectivo regulamento, valer a sua opção, não sei se estética ou de outra natureza, em pleno século XXI, parece ainda não constituir prática um processo selectivo para peças escultóricas no espaço público.

Assim tudo aparenta depender da vontade de quem manda e paga. Seria procedimento indiscutível caso a encomenda fosse de um particular e se destinasse a espaço privado. Tratando-se de espaço público e verbas do erário, o questionamento tem toda a razão de ser.

Escultura dedicada aos produtores de sidra no Santo da Serra.

Por agora, interessa somente o assunto das esculturas em espaço público. Não o seu custo. Independentemente de tudo o mais, reconheça-se o direito de alguém não gostar da conspurcação da paisagem com esculturas de má qualidade e de publicamente manifestar indignação.

Os autores dessas «infelicidades» sentem-se satisfeitos ao realizá-las e, por vezes, contentes ao oferecê-las à freguesia ou concelho. Pois bem, continuem o seu passatempo ou terapia, mas coloquem o fruto do seu «talento» nas suas casas e, de preferência, sem vista do exterior.

Os largos e as rotundas ficam mais bem ornamentados com um bonito e cuidado jardim do que com uns arremedos escultóricos.

Foto Rui Marote

A propósito de rotunda, refira-se a de São Martinho, frente ao cemitério de Nossa Senhora das Angústias, onde insensatamente foi colocado, já há alguns anos, o busto do padre Eleutério Caldeira (1913-1964).

Manda o bom senso e a educação visual que uma escultura, numa rotunda, tenha leitura de todos os ângulos, o que um busto, obviamente, não possibilita.

Já que falamos nesta freguesia, recorde-se o insólito projecto de uma escultura dedicada a São Martinho, cuja maqueta, da autoria de Ricardo Velosa, esteve exposta na Igreja e na Junta de Freguesia há cerca de dois anos, tendo em vista a angariação de fundos para a sua execução. Trata-se de uma iniciativa de um grupo de cidadãos. Agora imagine-se que cada freguesia resolvia erguer uma estátua do seu orago…! No tempo actual, julgo que luxos desta natureza são perfeitamente dispensáveis, principalmente quando a escultura do santo, que o templo abriga, é de qualidade superior à escultura pretendida.

A arte nos espaços de livre acesso merece discussão pública. Não deve depender, exclusivamente, do gosto de autarcas e governantes.

Na verdade, as manifestações de arte pública contribuem para o embelezamento urbanístico, mas constituem também um indicador do grau civilizacional e poderão concorrer para a afirmação da identidade cultural.

 

* O autor escreve de acordo com a norma anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.