De Jardim a Albuquerque

Todos sabemos que Miguel Albuquerque tem algumas razões para estar agastado com Alberto João Jardim, sobretudo nos últimos anos de governação jardinista, em que o exercício mais musculado fez-se sentir de forma acentuada e tantas vezes sem qualquer justificação. Mais com o coração do que com a cabeça.

Foi na altura em que Jardim “disparou” para todos os lados, porque habituado ao clima ameno à sua volta, muitas vezes falso ameno, começou a reparar numa onda de frição e ficou sem saber de onde vinha. Sobretudo com o “aviso” das internas em que os resultados já tinham dado um sinal que estava para vir. Acontece quando um líder está há tantos anos no poder e pensa sempre, porque o poder leva-o a isso mesmo, que os seus “timings” são incomensuravelmente melhores do que aqueles definidos pelos outros, além de que normalmente esquece, porque o poder também faz isso, que a segunda linha pode ficar eternamente à espera de chegar lá antes da reforma e não interessa que pareça que não chega ou não chegue mesmo.

Aconteceu com alguns. E isso tem consequências, para além da reação do próprio povo eleitor, que a dado momento já não era o que tinha sido.

Sabemos que o atual presidente do Governo tem os seus motivos de queixa e tem os seus méritos de conquista de espaço no partido e depois na Região, mas sabemos que a sua vitória ficou a dever-se, não só mas também, de forma muito sublinhada, a esse clima de tensão que, no fundo, Jardim alimentou, desde que se vislumbrou Albuquerque como o “rebelde” mais próximo de levar à rebeldia total. Na essência, sem tirar mérito a quem quer que seja, Jardim acabou por alimentar os momentos de derrota que teve na vida, não foram muitos é verdade (qualquer um deles não foi de governo), mas aconteceram naturalmente. Aquela coisa de ouvir sempre sim à sua volta, foi fatal para, de repente, ficar surpreendido com o não. Já sabemos que é assim. E Jardim já devia saber e muito bem, como pessoa inteligente que é. Às vezes, surpreendia ver como é que um homem marcante da política portuguesa, que colocou a Madeira no mapa e que via a política ao longe, não conseguiu ver certas coisas ao perto.

Mas, por outro lado, se Albuquerque tem motivos para estar melindrado com Jardim, sobretudo este último Jardim, com aquela ideia peregrina de preparar o futuro, também não podemos esquecer o quão agradecido deve estar o atual presidente do PSD-Madeira e do Governo ao seu antecessor, pela confiança demonstrada nos cargos que veio a ocupar, já nem falo das reeleições mais recentes, mas do lançamento, o que de resto aconteceu com muito boa gente. No caso de Albuquerque, o lançamento correspondeu depois a uma popularidade ao ponto de se posicionar, com destaque, para o lugar que veio a ocupar. Também tem mérito. O que outros não poderão dizer porque só foram lançados.

É claro que, da mesma forma que Jardim não deve andar sempre a dizer que o céu é azul porque foi Presidente do PSD e do Governo durante décadas, também Albuquerque não pode dizer que o céu deixou de ser azul com o seu governo, dando razão ao que Jardim diz ser, com alguma piada, que não ofende mas está lá, o Achamento da Madeira em 2015, altura em que entrou este governo em funções. E, diga-se, às vezes até parece verdade em algumas situações. O que não fica nada bem.

Posto isto, é importante, para a credibilização das pessoas e das instituições, que tanto Albuquerque e o seu governo, no ativo, como Jardim e seus próximos, no descanso atento de tantos anos de atividade, independentemente do julgamento que possamos fazer do passado, tenham bom senso para que não se chegue ao exagero de se assistir a uma tensão tipo “guerra fria” entre elementos do mesmo partido, que tiveram desavenças, mas também, não o esqueçamos, grandes conivências, umas normais na dialética partidária em vigor, outras menos normais, algumas inclusive roçando a grosseria para determinados destinatários, do próprio partido e de outros. Estava tudo metido no mesmo saco, para o bem e para o mal.

Da mesma forma que é importante respeitar o passado, com o que tem de positivo e negativo, respeitar a liderança de Alberto João Jardim naquilo que representou de afirmação da Madeira, dentro e fora, e que é inquestionável para quem quer ser honesto, também torna-se imprescindível e exigível respeitar a expressão de mudança que esta governação trouxe, com resultados positivos e negativos, para que em democracia possamos avaliar parâmetros de atuação. Nem tudo foi bom no passado e nem tudo é bom agora. Nem tudo foi mal no passado e nem tudo é mau agora. É simples.

É preciso que tanto os que fizeram parte do governo anterior como os do governo atual, que só para lembrar os mais esquecidos, têm a mesma escola político partidária, estejam conscientes que, por muito que as memórias possam ser alvo de um repentino apagão, a verdade é que, um dia, regressa a luz quando menos se espera, e ninguém fica bem na fotografia.

As pessoas são feitas de passado e presente e têm todas legitimidade de pensar no futuro. Seguir outros caminhos, mudar estratégias, alterar políticas, pensar de outra forma e agir de modo diferente, são tudo legitimidades de quem assume novos poderes. Tem uma outra perspetiva de desenvolvimento que não passa por determinadas opções. Mas a quem comanda aconselha-se elevação no discurso, para não cair no chavão do passado como bengala que serve para tudo, até às vezes para não fazer nada, em determinadas situações.

Durante muito tempo, falou-se no povo superior, que fazia parte de uma imagem de marca de Jardim para provocar “choque”, bem ao estilo das publicidades da Benetton. Mas, agora a sério, é preciso líderes superiores. Superiores à discussão do passado e superiores para acentuar, em particular, a discussão à volta do que será feito para o futuro, para um novo modelo para a Madeira. E para isso, não é preciso sistematicamente meter nos discursos os erros do passado, que existiram, mas mais importante é definir a planificação do futuro.

O trabalho que este governo se propõe fazer é mais importante para a população do que aquilo que o anterior não fez ou fez de mal. Primeiro porque o mal está feito, depois já estão identificados os erros e em tantos anos de maiorias absolutas e de regime tenso, isso até acabou por ser uma consequência natural. Não aceitável, porque os erros nunca se aceitam, nem alguns procedimentos conhecidos, mas naquele tipo de exercício de poder, é natural. Depois ainda, já houve julgamento político, finalmente porque as pessoas começam a ficar cansadas disso.

O tempo novo, como era anunciado, versava o fim dos chamados ódios de estimação. O tempo novo anunciou tanta coisa nova que, em condições normais, nem havia tempo para falar de coisas velhas. Mas tem havido tanto tempo para falar de outros tempos, que o risco é grande de não haver tempo para que o “tempo novo” mostre, a tempo, o que pode realmente oferecer de diferente e que compense estar tanto tempo a falar do passado.

Não estraguem o “tempo novo”. E deixem fluir as virtudes que, temos que ser justos, este governo também tem. Mas com uma certa obsessão pelo passado, poderão correr o risco do povo chegar a um ponto de fazer aqueles exercícios de banda desenhada à descoberta das diferenças.

E não era muito bom que isso acontecesse depois de tanto trabalho…


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