Apesar das assumidas dificuldades, dada a enfezadita reforma, Cavaco Silva lá conseguiu convencer o pai a atestar-lhe de borla o depósito, juntou uns trocos para as portagens (correndo sério risco de insolvência, presume-se) e lá foi ao Porto apresentar o seu livro dito de “prestação de contas”.
Sem surpresa, digo eu, (o ex-Presidente da República que, para sair “com dignidade”, bateu o recorde de maior impopularidade desde o 25 de abril) a antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto (gente de juízo) não aderiu à apresentação do livro de Cavaco Silva, mas, e ainda mais extraordinário, é que o PSD também não… nem mesmo admiradores da “estatura” de Marques Mendes.
Ou melhor, as figuras do partido que (talvez para desconto dos seus pecados) ainda fizeram o sacrifício de comparecer foram, ao que se sabe, Rui Rio, Marco António Costa e Bragança Fernandes, numa sala que chegou ao meteórico e quase imbatível recorde de… cerca de 50 almas. Coisa para o Estádio do Dragão…
Acredito que Tino de Rãs chegaria, pelo menos, a 100, e Jorge Jesus poderia atingir o dobro, particularmente leitores especialistas em Esperanto. José Saramago, suspeito, deverá, por esta hora, estar a roer-se de inveja do já mais que provável novo candidato ao segundo Prémio Nobel da Literatura português.
Ao longo de quase 600 envolventes páginas, a coleção de memórias do antigo (valha-nos o facto de ser já “antigo”) chefe de Estado incide sobretudo sobre a pacífica coabitação entre 2006 e 2011, nessas amistosas, divertidas e saudosas quintas-feiras, com o então primeiro-ministro socialista José Sócrates. Pena é não fazer parte das memórias o IMI da Urbanização da Coelha, mais conhecida como aldeia BPN. Lapsos do avançar da idade, só pode.
Resumindo o talentosíssimo argumento da obra, segundo Cavaco, Sócrates mentia e Cavaco tomava exemplarmente notas no seu infalível método.
Segundo Sócrates, em entrevista posterior de “parada e resposta”, as notas publicadas agora em volume não passam de mentiras, traições, revanchismo.
Segundo Cavaco, “prestação de contas”. Segundo Sócrates, “ajuste de contas”.

Em todo o caso, fica a certeza de que, alegadamente, minta mais um ou minta mais outro, sempre houve entre os dois um ódio de estimação que levarão além-túmulo.
Certo, certo também é que quer o livro de Sócrates, quer o de Cavaco, o de Passos Coelho ou quaisquer outros livros de santos (hagiografias, para sermos mais precisos) constituem um ótimo recurso para alimentar lareiras nestes gélidos serões de Inverno ou, em alternativa, fazer as vezes de acendalhas em churrascos de verão. Sempre se lhes dá alguma utilidade.
Editada pela Porto Editora e apresentada no Edifício da Alfândega, a “obra-prima” foi apresentada, calcula-se que “a pedido de muitas famílias”, por Luís Valente de Oliveira, ex-ministro das Obras Públicas. É Obra! Tenho para mim que uma empreitada deste grau de dificuldade só poderia mesmo vir de um Valente! Do fundo do coração, admiro-lhe a coragem e o esforço! Ganda Valente! Aquele abraço!
Infelizmente, e porque os amigos são para as ocasiões, o especial amigo Oliveira e Costa, que, como se sabe, sempre teve para com Cavaco as melhores “ações”, não pôde estar presente, mas pela certa deverá ter assistido à gloriosa apresentação na modesta salinha lá de casa, agasalhado em mantinha e pantufas, através de videoconferência.
Estranha-se, contudo, a ausência do amigo, admirador e conselheiro Dias Loureiro, que deverá ter recebido por via aérea um imperdível exemplar no seu humilde Resort de Cabo Verde.
Amigos ausentes à parte, ainda mais animador é saber que melhor que um livro de memórias só mesmo dois livros de memórias e, segundo consta, Cavaco já começou a rascunhar o segundo volume. Promete. As minhas fontes dizem-me que o reconhecido e emérito romancista, bem como particular apreciador de Os Lusíadas, obra que Cavaco nem sabia ter 10 Cantos,(“é fazer as contas”, como também asneirava em tempos Guterres) vai ter capítulos dedicados às “questões essenciais” do país, tais como as 31 maneiras de mastigar bolo-rei, a análise científica do intrigante tamanho avantajado da banana da Madeira, o encantador sorriso feliz das vaquinhas dos Açores, o estudo da procriação das cagarras, as diferenças fundamentais entre peixes como a dourada e o dourado, bem como um capítulo sobre como ser o político mais tempo no ativo sem nunca assumir ser político, sem descurar a sempre enternecedora história de embalar das suas origens modestas, com típica subida a pulso, seguida de outro trecho dedicado à admirável humildade de reconhecer que nunca se enganou e raramente teve dúvidas, como, aliás, atestou a sua certeira garantia da inabalável solidez do BES, com as desastrosas consequências que se conhecem.. ou ainda não…
Arrisco que a última e mais profunda memória, reservada para o apoteótico capítulo final será “Eu avisei!”, tal como agora, mas desta vez com carácter verdadeiramente preventivo, eu o fiz. E, lá diz o ditado, quem te avisa…
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