Carnaval Trapalhão teve a sua dose q.b. de sátira, criatividade, ironia e crítica social

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Fotos: Rui Marote

A sátira e a crítica social estiveram presentes, embora em doses moderadas, no Carnaval Trapalhão que esta tarde percorreu o centro do Funchal. Centenas de pessoas fizeram questão de associar-se a esta celebração da época festiva, e milhares de espectadores encheram as ruas para assistir.

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A criatividade dos madeirenses foi posta à prova neste corso carnavalesco que não obedece às regras de imitação do Carnaval brasileiro, mas antes procura ser o espelho de diversos elementos da cultura popular e da contestação desse mesmo povo a certas situações de cariz político, económico ou social.

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Não falta quem participe, porém, pelo simples prazer de se mascarar de modo inventivo ou até, por vezes, absurdo, sendo o limite, na confecção das fantasias, simplesmente a imaginação de cada um.

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De tudo um pouco se observou neste Carnaval Trapalhão, desde piratas a sheiks árabes, desde os ‘Caça-Fantasmas’ a polícias, desde “atletas” a travestis…

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No âmbito do imaginário popular, observou-se a presença de muitos disfarces criativos mas positivamente “trapalhões” no maior sentido do termo, procurando criar imagens “às três pancadas” que não têm, na verdade, interpretação, mas que se nos afiguram originais.

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A referência às raízes culturais do povo madeirense esteve presente através da representação de diversos hábitos e profissões desaparecidas. Desde o bordado Madeira, inspirador de curiosos “vestidos”, aos antigos carrinhos de canas que se construíam para os pequenos brincarem, desde as profissões hoje desaparecidas, como a de leiteiro ou vendedor de amendoins e castanhas com tabuleiro ao pescoço aos “horários” da Rodoeste que transportaram imensa gente entre localidades no campo e o Funchal, muitas foram as abordagens.

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No capítulo da crítica social e política, não pode ser ignorada a abordagem à condenação a prisão do deputado José Manuel Coelho, encarnado por um folião encerrado numa jaula, com roupa de prisioneiro, de relógio ao pescoço e ostentando as bandeiras nazis cuja exibição no parlamento regional tornou o parlamentar trabalhista famoso e alvo dos focos das câmaras de televisão.

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Também os diversos problemas pelos quais a Madeira tem passado em inúmeros capítulos foi tema explorado por uma ‘troupe’ de foliões disfarçados de massas alimentícias, que se intitulava “(Di)sabores da Madeira”. A fiscalização realizada pelas polícias e entidades económicas a diversos estabelecimentos de venda de produtos e bebidas tradicionais foi também uma temática interpretada.

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Uma outra crítica social, se bem que discutível, comparava favoravelmente os refugiados de Calais com as vítimas dos incêndios da Madeira. Para os membros da “troupe”, que se faziam deslocar em carro aberto, os refugiados das guerras no Médio Oriente eram merecedores de todas as mordomias e encontravam-se muito bem instalados, enquanto que as vítimas dos incêndios na ilha, por comparação, continuavam a viver em autênticas espeluncas.

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O indefinível presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a fazer a sua aparição duas vezes, em duas diferentes interpretações; numa delas, fazia-se acompanhar da sua adversária às presidenciais estadunidenses, Hillary Clinton, enquanto que na outra, num carro alegórico, surgia na companhia da sua esposa Melania Trump… pelo menos, assim o pensamos. O seu carácter populista ficava bem expresso na atitude e nos gestos dos que o encarnavam, embora também houvesse quem o cercasse com cartazes que chegavam a apelidá-lo de fascista.

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Fantasias de palhaço, também se viam muitas, bem como participantes, adultos e crianças, em triciclos e bicicletas. Cavaco Silva fez uma fulgurante aparição, com uma careta verdadeiramente assustadora e um vulto alto e escanzelado.

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Nota de destaque também, sem dúvida, para o ‘sketch’ que ironizava com a “cantora” Maria Leal, que chegou com uma verdadeira comitiva, fazendo-se transportar de limousine mas alternando entre esta e um palco montado num “carro de som” onde um estranhíssimo DJ fazia soar ritmos penetrantes. Entretanto, os/as fãs da “cantora” assediavam-na constantemente com gritos apreciadores e pedidos de autógrafos, o que dava imenso trabalho aos seguranças que a cercavam. Este foi um dos quadros criados neste Cortejo Trapalhão que mais resultou e mais agradou a várias pessoas com quem falámos.

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Em termos de crítica social, as redes sociais, principalmente o facebook, foi alvo de denúncia, pela coscuvilhice e falsidade que nele grassam; um grupo de brincalhões abordou muito bem esta questão.

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Muitas crianças marcaram também presença neste evento, quer desfilando e brincando, quer assistindo, disfarçadas ou não com as suas fantasias favoritas, e contribuindo para a animação que cercava o cortejo. Para muitos cafés da baixa, foi uma tarde de grande clientela e de grande animação, pois foram muitos os que se deslocaram com o objectivo de ver esta manifestação mais espontânea dos locais na época de Carnaval.

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