Crónica Urbana: “Guerra” das toponímias no Funchal

 

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Rui Marote

No Brasil, quem usa terno (fato) é Dr. Na Madeira, há muitos com cursos de bacharelato até incompletos que ostentam aquele grau académico sem possuir as habilitações literárias necessárias. Esta história do doutor para aqui, doutor para ali é uma praga importada das Terras de Vera Cruz. Recordemos o filme português de 1933, ‘A Canção de Lisboa’, no qual Vasco Santana interpretava um estudante de Medicina que vive da mesada das ricas tias de Trás-os-Montes, que o consideram um aluno cumpridor. Ora, o Vasco tinha-as informado que já era doutor, exercendo num riquíssimo consultório. Mas afinal, a personagem interpretada por Vasco era um boémio que não punha os pés na universidade. No entanto, para as tias, ele era o jovem médico que se tinha acabado de formar. Nos dias de hoje há quem engane os pais como o “Vasquinho”: é caso para dizer que “tem pai que é cego”.

Lembremos, a propósito, um jovem que chegou a ser líder da juventude de um partido na Região, que estagiou advocacia no escritório de um dos maiores advogados desta praça e que por várias vezes esteve presente em tribunal com toga e tudo, a defender causas (oficiosas) e com sucesso, acabando finalmente por ser descoberto que só tinha algumas cadeiras do primeiro ano de direito…

Todo este “nariz de cera”, em gíria jornalística, para melhor nos situar no contexto do que é e não é.

Tomámos conhecimento de que um residente na Rua Conselheiro Dr. Manuel José Vieira (1836-1915) [que foi presidente da Junta Geral e da CMF, deputado e par do Reino, e que tem uma placa toponímica na freguesia de São Martinho nas proximidades da Estrada Monumental e Rua Velha da Ajuda] não conseguiu, nas Finanças, efectuar o pagamento do carro e abrir conta no banco dos CTT por nos seus documentos de residência existir o título de Dr. ao Conselheiro, enquanto que nas referências destas instituições a rua chama-se simplesmente Conselheiro Manuel José Vieira. Disseram-lhe que deveria dirigir-se à Câmara para que a placa fosse corrigida.

O Conselheiro, passados 102 anos, perdeu o título com certeza.  O caixão do dr. José Manuel Vieira não tinha gavetas e como tal o diploma deve estar na posse dos familiares…

Quem é o munícipe que tem poderes para retirar o título de Dr. a uma rua, de modo a que possa resolver os seus problemas??

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Mas como não há uma sem duas o Beco do Paiol passou chamar-se a partir desta semana Rua Henrique José de Sousa Machado (tenente de Infantaria, combatente da 1ª Grande Guerra), o que causou espanto e indignação nos moradores, uma vez que não foram consultados nem avisados desta mudança brusca de nome da rua. E, naturalmente a mudança do nome de uma rua onde se reside tem influência na correspondência, nos documentos e em toda uma série de coisas.

 

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Entretanto, e voltando à questão que deu origem a esta crónica, o engraçado é que uma placa na casa onde viveu, no Funchal, o Conselheiro Manuel José Vieira (entre outras personalidades) não lhe nega o título de Dr. É caso para perguntar, em que ficamos. E andam as complicações com a documentação de uma pessoa dependentes disto…