Francisco Lobo Faria e Leonor Rodrigues são pai e filha no filme “O Feiticeiro da Calheta”, do realizador madeirense Luís Jardim. Dois atores, duas gerações, dois percursos ainda a despontar na arte cinematográfica. Em vésperas de exibição da longa-metragem, que irá retratar uma Madeira rural com mais de setenta anos, eles falam de como foi dar corpo e alma a João Gomes de Sousa e a Maria de Jesus.
João Gomes de Sousa era um homem do povo, analfabeto, mas com uma vontade e empreendedorismo pouco comuns para a época, tanto na forma como geria o seu quotidiano, como na maneira de expressar essas vivências. Figura muito popular, foi ele o autor do “Bailinho da Madeira” e de outros trabalhos, revelando grande engenho na improvisação de versos, na chamada poesia de cordel e na música popular regional.
Agora, a produção independente de Luís Jardim vem retratar a sua vida peculiar, no fundo, “a agonia e a felicidade de ser pobre numa zona rural”. É desta forma que Francisco Lobo Faria, o ator que assume o papel do Feiticeiro da Calheta, descreve a figura central que dá alma ao filme que estará em exibição, a partir de março, na Região e que poderá em breve passar às salas de cinema nacionais e aos países da diáspora.
Fruto desta experiência, o ator realça a grande admiração que acabou por desenvolver em relação a Gomes de Sousa, “um homem que nasce num contexto de isolamento cultural, mas que apesar disso consegue construir uma dinâmica, uma vontade e capacidade de se expressar que foram notáveis ao ponto de serem motivo para um filme.”
Magro, alto, de bigode e cara angulosa, o Feiticeiro da Calheta seduzia o povo com as suas artes. Daí o termo “feiticeiro”, neste caso, associado apenas à sabedoria, à capacidade de contar histórias e de arquitetar e improvisar versos.
Sobre a forma como desenvolveu o papel, Francisco Faria destaca a preocupação em manter intactas as principais caraterísticas de João Gomes de Sousa, poeta popular e reconhecido autor do “Bailinho da Madeira”, canção que viria a ser interpretada pela primeira vez em 1938, durante a atuação do Rancho Folclórico do Arco da Calheta na primeira Festa da Vindima, o que lhe valeu então o primeiro prémio do certame.
Mas o papel do “Feiticeiro” ultrapassa este facto histórico. “Uma parte curiosa do trabalho reside no sentido de humor que ele acaba tendo e as metáforas que ele usa naquilo que escreve. Acredito que vamos poder usufruir desse património no filme”, garante o ator.
A preparação da personagem passou essencialmente por estudar a forma como o Feiticeiro da Calheta falava e se expressava, procurando sobretudo “manter a dignidade da personagem e preservar a sua imagem tal como ela merece ser levada às pessoas”. Uma grande responsabilidade, como admite o intérprete, que encontrou na distância factual e nos escassos documentos disponíveis o maior desafio na construção da personagem. “É muito exigente replicar uma imagem. Por isso, tentei não o fazer, mas antes dar uma interpretação minha, de como seria este “Feiticeiro” com as achegas de quem me soube orientar, contactando pessoas que o tivessem conhecido”.
João Gomes de Sousa nasceu na Calheta, na zona oeste da Madeira, em 1895, e morreu em 1974, deixando associado ao seu nome um dos temas mais icónicos do folclore madeirense.
“Quero ser atriz”
Do elenco fazem parte também as crianças. São os pequenos grandes atores do projeto de Luís Miguel Jardim e personificam o quão difícil era a infância numa Madeira rural, de meados do século passado.
As manas Leonor e Catarina Rodrigues, de 10 e 5 anos, integram o grupo mais jovem deste trabalho cinematográfico, mas nem por isso levaram os seus papéis na brincadeira.
Entre a timidez de Catarina, a mais nova, e a assertividade de Leonor, fica a certeza de que esta primeira experiência no cinema se revelou muito gratificante e enriquecedora. “Foi fantástica”, sintetiza a menina de dez anos, com um largo sorriso. “Aprendi que aquilo que vemos nos filmes é muito diferente do que acontece quando filmamos.”
Um mundo novo e mágico que se abriu à pequena Leonor e que a faz agora sonhar com os palcos e o cinema. Se é difícil ser atriz? A resposta da menina é surpreendente. “Não, é preciso acreditar”. Uma atitude de confiança que terá sido determinante na escolha de Leonor pelo realizar madeirense.
Leonor Rodrigues encarna a personagem de Maria de Jesus, a filha de João Gomes de Sousa, o Feiticeiro da Calheta, “uma rapariga contente, sempre bem disposta”. É ela quem vai contracenar com Alberto João Jardim. No papel de pastor, o antigo líder do PSD-M dirá à menina que “as crianças da Madeira, um dia, terão melhores condições de vida”.
Um papel que tanto teve de desafiante como de divertido. “Não foi complicado representar uma personagem que tinha a mesma idade do que eu. Se calhar, decorar os textos foi um bocadinho mais difícil”, reconhece. Algo que tinha de fazer ao fim de semana, antes das filmagens.
Ao lado, a mãe partilha do entusiasmo e está satisfeita com o desempenho das filhas. Foram muitos meses de trabalho, ensaios, em condições meteorológicas por vezes adversas. Houve receios no início, admite Lúcia Sousa. De que as crianças não conseguissem gerir a pressão, do tempo exigido na preparação das personagens, das condições adversas – frio e chuva – já que a maioria das cenas foram rodadas na serra. No final, tudo decorreu dentro da normalidade. Leonor e Catarina conseguiram compatibilizar as filmagens com a sua rotina normal de crianças.
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