Uma moedinha se faz favor!

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Ainda todos nos lembramos dos tempos em que ir ao centro de Câmara de Lobos significava dar uma moeda a um qualquer miúdo ou graúdo que por lá pedia esmola. Os mais antigos ainda se lembraram dos miúdos que faziam habilidosos mergulhos no mar para recolher, com a boca, as moedas lançadas por turistas e locais. Durante anos, o poder político regional lutou contra esta situação que em muito prejudicava a imagem do concelho de Câmara de Lobos e que afectava o potencial turístico daquela que é uma das baías mais bonitas da Europa, mas como dizia Camões, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” e parece que agora o poder político regional aposta na estratégia da “pedinchice” para o desenvolvimento da Madeira enquanto destino turístico de referência!

Depois do disparate do pagamento no Cabo Girão, temos agora uma nova fase da asneirada! Vamos começar a pagar pelas actividades lúdicas na floresta! Estas medidas são erradas em toda a linha, se não vejamos:

  • Satisfação do turista – como manter os nossos turistas satisfeitos com o destino se quando entram numa excursão ou passeio acabarão por pagar de paragem em paragem? Pagam para ver a vista, pagam para aproveitar a floresta e quase que até pagam para respirar ar puro. Nós precisamos claramente de conseguir contribuição financeira dos turistas para a manutenção da qualidade do destino, mas isso só faz sentido através de uma taxa turística, que é o modelo usado normalmente nos diversos destinos pelo mundo fora e onde todos sabem com o que contar antes de cá chegar e não usando uma estratégia de tentar “passar a perna” nos turistas em cada local. Os tempos de “uma moedinha se faz favor” já deviam ter acabado!

 

  • Planeamento do destino – a Madeira precisa de uma oferta cada vez mais diferenciada e diversa para poder atrair cada vez mais turistas e para oferecer sempre novas experiências aos nossos muitos turistas frequentes. Temos de ter um produto que ofereça experiências suficientes para valer a pena regressar! Estas medidas não incentivam o aumento da diversidade da oferta, muito pelo contrário, tenta taxar o mérito! Taxar duplamente aqueles que com mérito inovaram e criaram novas actividades comerciais importantes para a qualidade do nosso destino! Viva a meritocracia promovida pelo nosso governo!

 

  • Defesa, promoção e educação para a floresta – Esta medida não promove a defesa e sensibilização para a floresta. Pelo contrário, afasta as pessoas da floresta! Como podem as pessoas estar dispostas a proteger e defender algo com o qual não têm uma relação forte? Afastar as pessoas da floresta não é defende-la! Para quem diz que estamos perante a introdução da ideia do utilizador pagador, é importante relembrar que mesmo os não utilizadores continuarão a pagar através dos impostos. Os utilizadores pagarão duas vezes pelo mesmo. Ninguém anunciou uma redução de impostos para compensar esta redução de serviços públicos gratuitos para todos!

 

  • Direito dos Madeirenses: os Madeirenses já pagam pela defesa, gestão e conservação do seu património! Pagam impostos altíssimos e por isso, não podem ser sempre chamados a pagar mais pelo mesmo! Nós temos dos impostos mais altos da Europa e estamos muito longe de sermos dos cidadãos com maior proteção social ou melhores serviços públicos! Chegou a hora de aumentar a eficiência do Estado e não de continuar a arranjar novas receitas/impostos para pagar as ineficiências desse Estado! Como dizia a Margaret Thatcher “Proteger a carteira do cidadão, proteger os serviços públicos essas são duas tarefas cruciais e ambas devem ser conciliadas. (…) Alguém tem que fazer as contas. Toda a empresa tem que fazê-lo, toda a dona de casa tem que fazê-lo, todo o governo deve fazê-lo”.

 

  • Promoção da actividade física e actividades outdoor – numa sociedade cada vez mais sedentária e cada vez mais isolada no seu espaço, vamos incentivar ainda mais esse tipo de comportamentos, que têm custos directos para o Estado, como por exemplo, com maiores custos do serviço público de saúde? A Organização Mundial da Saúde estima que os custos associados à falta de actividade física num país com as características de Portugal ascendem a 900 milhões de euros. Vamos então passar a ideia de que aproveitar a floresta e a natureza não é para todos e que um estilo de vida saudável é uma coisa para alguns privilegiados? Taxa-se os sumos com açúcares para “promover um estilo de vida saudável” e ao mesmo tempo taxa-se as actividades físicas outdoor na floresta? Será também para promover um estilo de vida saudável?

 

  • Logística – alguém me explica como vão fazer a gestão e controle disto? Esperemos não acabar a pagar mais pela logística para implementar este disparate do que a receita que vai ser arrecadada.

Tantas outras razões existem para perceber que estas medidas avulsas que agora são tomadas nestes sectores são completos disparates e só é difícil perceber como é que os nossos responsáveis políticos não vêem isso!

 

O autor deste texto escreve segundo o antigo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.

 


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