Mas que Trump!

icon-henrique-correia-opiniao-forum-fnO mundo não fala de outra coisa. Como se isto fosse uma novidade, como se não estivéssemos a adivinhar e como se o mundo que hoje barafusta não seja o mesmo que elegeu, de forma direta ou indireta, esta versão de Trump em que se tornou a sociedade de hoje.

O problema é que estamos a assistir à degradação progressiva de valores, à constante desvalorização da pessoa, à desresponsabilização relativamente a políticas adotadas, com uma Europa que queria ser forte e é frágil, que ajudou sem fiscalizar, que prometeu sem cumprir, que se uniu para se dividir e sempre, mas sempre, andou a duas ou três velocidades, com os mais pobres a reboque dos mais ricos e estes, com esta superioridade e decidindo unilateralmente, ainda que de forma democrática, destruindo o espírito europeísta, que no fundo foi o objetivo pelo qual os países aderiram. Foi perdendo credibilidade e, com isso, foi perdendo o respeito dos cidadãos, nos respetivos países, pelo desmantelamento da identidade, e no contexto global europeu, pelo desvirtuar de um ideal.

Claro que esta transfiguração da Europa, esta falta de dimensão do projeto europeu, criou graves problemas internos e provocou, externamente, uma reação, muito natural, de quem está de fora e vê desmoronar-se um espaço, com potencialidades para ser dominado e perder homogeneidade.

O fenómeno Trump não é mais nem menos do que a reação dos povos à desorganização política e económica, à falta de estratégia para enfrentar os grandes problemas da humanidade e à falta de soluções para fazer emergir uma sociedade equilibrada e não uma sociedade do salve-se quem puder, como infelizmente hoje se assiste.

Estes fenómenos são, por isso, normais, aliando-se à circunstância do protesto ser, invariavelmente, conjugado com a indiferença. O protesto dos que votam e pensam que isso não terá qualquer influência. E os que votam, fazem-no no mesmo sentido e pensando da mesma forma. A indiferença dos que ficam em casa e não pensam que deixam nas mãos do protesto o seu futuro e o futuro de várias gerações. E esta versão de Trump não é só nos EUA, é no mundo inteiro, é na Europa sobretudo. É por isso que a Europa está na corda bamba à procura de equilíbrio. Se não mudar nada e cair aos poucos, não se façam de ingénuos e não se surpreendam.

Como é que chegámos ao “Brexit”? Não foi assim? Não foi por protesto que a saída do Reino Unido da Europa política – já não estava no euro – venceu? Não foi depois da vitória do não à Europa que a população, o mais certo é que tenha sido aquela que não foi votar, mas também muitos dos que votaram e só se aperceberam disso quando alguém lhes disse depois, saíu à rua protestando acerca das consequências que uma decisão dessas acarreta para o futuro?

Sejamos realistas. Já aqui referimos que estes fenómenos não são novos, mas o povo não aprende. Uns por ignorância, outros por comodismo, outros porque convivem num ambiente de favores e interessa mudanças para manter tudo na mesma, porque assim continuam com as benesses que um poder assim sempre vai dando.

Não vamos culpar os políticos, porque são eleitos, e depois de eleitos até parece que tudo o que querem fazer foi legitimado pelo voto, quando sabemos que a maioria dos que votam nem leram o programa, nem sabem o que lá está. Logo, não sabem discutir uma eventual medida que nem estava no programa. Não vamos culpar gestores, que fazem o que a lei permite e, mesmo que não façam, está à vista o que lhes acontece, porque os poderes “eleitos” permitem. Vamos responsabilizar quem vota, porque já é tempo de encarar o voto de uma forma mais responsável, sabendo que para isso, é preciso uma sociedade esclarecida, coisa que muito político não gosta e sabemos bem porquê. E é um trabalho difícil educar uma Nação.

Mas o voto responsável é essencial. E o protesto, sendo exercido, deve sê-lo responsavelmente.

Caso contrário, esta versão de Trump vai atormentar-nos para sempre.

Se é isso que querem…