Crónica Urbana: a última moradora da casa do Socorro

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Rui Marote
Desde jovem que sempre admirei este edifício, na Calçada do Socorro, a caminho do Largo da Forca, na zona velha da cidade. Vivia então eu a cerca de duzentos metros desde autêntico castelo, implantado no rochedo entre a Barreirinha e o Toco. Era um lugar com uma vista deslumbrante, e uma lagoa no meio de um jardim panorâmico contemplando uma área desde a baía do Funchal até à Ponta do Garajau… um autêntico avista-navios.
Este prédio, que ainda hoje existe, encontra-se na área de protecção à Zona Velha do Funchal e, no que diz respeito ao PDM, está numa zona central predominantemente habitacional e domínio público hídrico marítimo (DPM).
Há muito que o edifício se encontrava devoluto. Os antigos proprietários eram uma família denominada Venâncio.
Entretanto, o prédio foi adquirido por cidadãos de nacionalidade checa, o que nos leva a pensar que será talvez utilizado para turismo.
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Esta notícia chamou-nos a atenção, e queremos aproveitar para prestar homenagem à última moradora, que permanecia na área anexa, com entrada pelo Largo da Forca.  
Era uma figura curiosa, simultaneamente imagem da velhice e espelho de uma beleza perdida na juventude distante, de seu nome Alice. Aparecia à janela nas alturas em que o carro do Lazareto circundava o Largo da Forca. Aparecia a uma janela com tapassóis amarelos, carcomida pelos anos e que era encerrada por uma maçaneta feita de jornais enrolados.
Alice era de facto uma figura misteriosa, com o seu longo cabelo desgrenhado e pêlos faciais, mas com uns olhos azuis cintilantes e sonhadoras. Quantas histórias de vida não se esconderiam por detrás desta curiosa aparência, pensávamos. Quanto alguém a olhava, ela correspondia ao olhar dos curiosos com uma saudação de mão…
Em tempos, não resistimos a fotografar essa mulher, que representava o envelhecimento no interior de uma bela casa cuja janela era o seu mundo exterior.
Temos a certeza de que, se pudéssemos abrir a sua alma, esta seria como um livro com muitos contos para revelar… Desde a lembrança de uma beleza e de uma juventude distantes ao modo como uma pessoa envelhece dentro de si mesma, e dentro de uma casa provavelmente também cheia de histórias.

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