Já não sei bem se mo ensinaram ou se fui aprendendo por mim, mas percebi que o Mundo é um lugarzinho cheio de coincidências.
Ser Médico Veterinário é talvez das coisas mais completas que se pode ser na vida.
Num só dia podemos dar vida a quem está a perdê-la. Podemos ajudar a trazer à vida quem grita pela primeira vez. Podemos impedir vómitos de criaturazinhas de olhos ternos. Podemos por termo a uma vida em dias piores. Podemos ir aos picos de alegria quando vemos um cocó. Podemos ganhar o dia quando um parvovirótico dá a primeira lambidela voluntária na comida. Podemos respirar de alívio quando termina a anestesia de um velhote. Podemos render-nos e pender os braços quando, apesar de tudo, não podemos fazer mais nada. E podemos logo de seguida ter que usar o mais cínico dos sorrisos para ir fazer uma vacininha de um cachorrinho que por acaso veio à mesma hora.
Questões como a da eutanásia, aborto, abandonos, maus-tratos e outras que tais, conhecemo-las desde que começamos a dar os primeiros passos nas clínicas. Trazemos nas mãos o peso da responsabilidade, sempre, e na cara geralmente os sorrisos leves de quem corre por gosto e as olheiras de quem teve já muito que correr.
COMPLETA. Num só dia vivemos uma vida.
Entramos de manhã à hora marcada. Vivemos o que possivelmente muitos não estariam preparados para gerir, gerimo-nos e, muitas vezes, gerimos os outros. Saímos mais tarde do que a hora marcada, para depois vivermos mais vida.
COMPLETA E ESGOTANTE. Quantos aguentam lidar com a vida e morte todos os dias, várias vezes ao dia, sem nunca se acostumar? Sim, lidar com elas de perto, tratá-las por TU, e sempre que a morte espreita, sempre, evitar ao máximo que ela se instale como em sua casa, mesmo conhecendo-a de todos os dias. Não é fácil. É completa. É esgotante. E pior que tudo, vicia.
VIVEMOS MUITA VIDA NUM SÓ DIA. Num sorriso e conversa fácil de uma vacina, ninguém pode adivinhar a carga de desilusão ou tristeza que se pode carregar. E aí vivemos a tolerância e a paciência. E, por incrível que pareça, no final do dia, a maior parte de nós não desata a maltratar os outros. Aprendemos o RESPEITO desde cedo. Por todas as formas de vida.
E entre um dia e outro que se vai vivendo, conhecemos seres extraordinários.
Entre uma urgência, uma consulta, uma cirurgia, apercebemo-nos das nossas tremendas fragilidades que nos fazem humanos. Percebemos que chorar não nos faz menores. Aprendemos, no fundo do poço, nosso ou não, a lidar com a dor, nossa ou não.
No mês passado eutanasiei uma gata com 14 anos. Não é prática usual na clínica. Estava com os donos desde bebé. Entre lágrimas e suspiros, eu tenho que conter os meus, falo com naturalidade do processo, vou tratando das questões técnicas. O final é sempre uma tristeza e as pessoas partem sempre arrasadas. Por muito que se diga ou faça ver, nada adianta. E tive, logo de seguida, que usar o mais cínico dos sorrisos para ir fazer uma vacininha de uma gata que por acaso veio à mesma hora.
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