Conferência de Adelino Ascenso levou numeroso público à Reitoria da UMa

screenshot_2017-01-23-20-12-06.png

O auditório da Reitoria da UMa encheu-se hoje de gente interessada em ouvir falar Adelino Ascenso, um padre católico conhecedor dos países orientais e, em especial, da realidade japonesa. A servir de mote à conferência, o filme ‘Silêncio’ de Martin Scorsese, que aborda a evangelização católica em terras nipónicas e o martírio a que estiveram sujeitos os cristãos por aquelas paragens no século XVII. Os portugueses, é sabido, foram os primeiros a alcançar esse país misterioso situado no limiar do mundo conhecido, e deixaram lá a sua marca e influência, que em certos casos perduram até aos dias de hoje. No capítulo religioso, de exportação da sua fé católica romana, não terão sido dos mais bem sucedidos, já que esta crença é hoje considerada residual em terras do Sol Nascente, em relação com a grande população que aquelas ilhas albergam. Mesmo assim, Adelino Ascenso situou ontem o número de católicos no Japão em cerca de 400 mil.

screenshot_2017-01-23-20-14-45.png

As razões para isto, explicou o sacerdote orador, Superior Geral da Sociedade Missionária da Boa Nova, prendem-se com o facto de os nipónicos lidarem dificilmente com a noção de um deus transcendente; percebem melhor o imanente e relacionam-se mais facilmente com o conceito de kami, ou espíritos ancestrais ou da natureza. São essencialmente panteístas por vocação e, segundo alguns autores, evangelizá-los era extremamente difícil graças à “tripla insensibilidade” que manifestam em relação a Deus, ao pecado e à morte.

screenshot_2017-01-23-20-12-16.png

Adelino Ascenso, que empreendia esta conferência a convite do Museu de Arte Sacra do Funchal, em co-organização com o Conselho de Cultura da Universidade da Madeira e com o núcleo regional da ACEGE – Associação Cristã de Empresários e Gestores, não optou, todavia, pelas explicações mais fáceis. Procurou, na sua intervenção, caracterizar o povo japonês como extremamente observador, delicado, sensível mesmo, mas com uma formação e com reacções diametralmente opostas àquelas que são de esperar de um ocidental.

screenshot_2017-01-23-20-12-50.png

Admirador do escritor japonês Shusaku Endo, autor do livro do qual resultou o filme de Scorsese, o palestrante enunciou também as preocupações humanas e existenciais do autor, para tentar desenhar melhor o pano de fundo sobre o qual criou os seus romances, que, mais que meras peças de literatura, são um reflexo do cristianismo deste escritor e da sua espiritualidade, com todas as dúvidas e hesitações que se colocam a qualquer espírito humano face a um divino cuja realidade procura apreender. Mas que, muitas vezes, não demonstra o que é desejado, não corresponde às orações do modo que os seres humanos entenderiam justo. É o que se passa em ‘Silêncio’, onde, face à perseguição e ao martírio, sacerdotes portugueses no Japão se confrontam com a necessidade de apostasia, para evitar males maiores – inclusive de pessoas que deles dependem. No enquadramento da época, tal configurava uma traição imensa ao próprio fulcro da religião que professavam. É esse conflito interior que é habilmente explorado por Shusaku Endo e, no filme, por Martin Scorsese, que Adelino Ascenso considerou ter criado uma película bastante fiel ao livro original.

screenshot_2017-01-23-20-14-37.png

Enveredando pelos temas teológicos, o padre Adelino citou quem já referiu que a fé era constituída por 90 por cento de dúvida e 10 por cento de esperança e referiu que, em seu entender, mesmo as fés pequeninas são dignas de nota, até porque “são temperadas em alturas de crise”. As grandes fés, por vezes, podem ser terrivelmente egoístas porque incentivam um indivíduo a situações de martírio tendo em vista apenas a sua própria salvação. É com essa contradição que se debate o protagonista do livro, o padre Sebastião Rodrigo: tornar-se ele próprio apóstata faz com que salve outros homens da tortura. Não seria isso que Deus desejaria, mais que o martírio? A questão permanece a qualquer cristão de convicções, ontem como hoje. “Deus fala-nos operando nos acontecimentos triviais da nossa vida diária, diz-nos Shusaku Endo”, e não respondendo com milagres a situações de crise ou injustiça, referiu o orador desta conferência.

screenshot_2017-01-23-20-13-18.png

Adelino Ascenso, que chegou ao Japão em 1998, só se tornou padre católico aos 44 anos. Percorreu a Índia, o Nepal e o Tibete, estudou budismo, doutorou-se em Teologia e leccionou na Universidade Católica de Osaka.

screenshot_2017-01-23-20-14-11.png

Numa introdução à conferência, que reuniu grande público e que foi sucedida por perguntas dirigidas ao orador, o director do Museu de Arte Sacra, João Henrique Silva, apelou à partilha de iniciativas e acções culturais entre instituições e sublinhou o simbolismo desta palestra se realizar no Colégio dos Jesuítas, que tanto tiveram a ver com a expansão do conhecimento em Portugal e a nível mundial. Realçou, na oportunidade, que o Museu de Arte Sacra quer ser um pólo divulgador de Cultura na Região.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.