E se eu escrevesse que tomou posse como 45º Presidente dos Estados Unidos, Vladimir Putin?
As pessoas mais serenas esperarão que o sistema de checks and balances (sistema que visa, através de controlos e equilíbrios, proteger a separação de poderes e evitar o seu abuso) venha a funcionar (apesar da maior representação republicana de sempre) e/ou confiarão que, dada a personalidade de Trump, seja quase fácil recorrer, com êxito, ao impeachment (impugnação). Os menos serenos poderão até convencer-se (para seu próprio sossego) de que a máquina implacável de Washington o triture até ao mais profundo âmago e o modele a seu modo.
Obama, por quem tenho uma imensa admiração pessoal, terá perdido as rédeas à sua “futura” sucessão pouco após o início do seu primeiro mandato. As expectativas criadas tinham sido altíssimas, George Bush era o rosto da culpa pelo 11 de Setembro. Obama tinha conseguido pegar nos cacos e transformá-los em esperança, com a sua conhecida audácia, verbo fácil e convincente, e uma qualidade empática rara. No entanto, a reeleição foi já “complicada”. Tudo ficou menos evidente, na Convenção, aquando da escolha de Hillary Clinton, para candidata, em detrimento de Sanders. Não quer isto dizer que Sanders tivesse vencido, mas Hillary nunca foi “a” candidata. Pelos vistos, ninguém havia esquecido (as memórias da Internet são terríveis…) as duras críticas de Obama a Hillary aquando das disputas eleitorais e, mesmo que tenha sido com as melhores intenções, o apoio de Michelle Obama a Hillary, sobretudo o primeiro discurso, desmereceram a candidata, revelando, a um grau superior de evidência, as razões pelas quais Hillary não deveria ter sido escolha.
Pelo longo meio de oito anos ficaram muitos acertos e, infelizmente, também, muitos erros, sobretudo de política externa, alguns da co-responsabilidade de Hillary, enquanto Secretária de Estado, muitos desacertos de política interna e uma profunda incapacidade de acção quanto aos movimentos da geopolítica internacional (os frágeis equilíbrios com que a diplomacia geria a nova “guerra fria”). É por demais evidente que, nos EUA, os cuidados de saúde melhoraram e chegaram a mais cidadãos, que o desemprego desceu como nunca e que as liberdades sociais e individuais encontraram o Presidente mais respeitador de sempre. Apesar de tudo, isso pareceu não interessar ao eleitorado que via os seus filhos morrerem nas guerras perdidas à partida, aos que vivem, ainda, o trauma do 11 de setembro, diariamente, aos veteranos incapacitados a quem se canta o mais maravilhoso hino mas que desesperam por comida à beira dos bem fornecidos supermercados. Não se contam “histórias” a quem Obama se dirigiu (e por treze vezes ao longo dos mandatos) a lamentar atentados diversos, ocorridos nos EUA. Trump, que não venceu as eleições mas que delas resulta Presidente, é – assim – eleito muito mais por demérito do anterior Presidente do que por qualidades próprias.
Aqui chegados, interessa ponderar o “peso” de Trump. A sua total impreparação, a sua ausência de conhecimento acerca dos dossiers de política interna e externa, o seu feitio “raivoso” e insultuoso, os nomes (alguns mais desastrosos do que outros) que escolheu para o Gabinete, o conflito (óbvio) de interesses entre os seus negócios e o exercício do cargo, algo que, em Portugal, não causará estranheza, enfim e resumindo, a inadequação do homem ao lugar.
O seu primeiro discurso enquanto Presidente foi um desastre e o segundo, oficial, na sede da CIA, foi uma calamidade sem precedentes, isso enquanto, por todo o território dos Estados Unidos multidões de mulheres (e não só) provavam ao novo presidente uma forma de poder com a qual terá de defrontar-se se não for, entretanto, impugnado. Relembremos que Trump tem uma forte oposição interna, no quadro do seu partido e que este não colocará a mais significativa maioria de sempre em causa por via dos “desvarios” do Presidente.
Entendo que o segundo perdedor destas eleições norte-americanas foi a União europeia. Encerrado em estranhas estratégias de multiplicação da espécie e longe, muito longe dos seus eleitorados, o aparelho da União europeia, muitas vezes eleito sem representatividade significativa de voto ignorou o agora evidente avanço do populismo, cuja escalada parece imparável. Relembremos que os, até agora, conhecidos aliados de Trump são os líderes dos partidos populistas europeus; Vladimir Putin, na Rússia e Benjamin Netanyahu, em Israel. A EU conviveu, activamente, com o crescente empobrecimento das populações (de que Portugal pode dar testemunho), geriu, de forma completamente desastrosa, o que se designa como “crise dos refugiados”, foi incapaz de lidar com o fenómeno do terrorismo que mata cidadãos inocentes, mas poupa os governantes, logo daí resultam apenas “danos colaterais” e deixou o rio ganhar uma extensa foz que culminou com o Brexit.
O terceiro perdedor das eleições norte-americanas foi a NATO. Minada por interesses que em nada dignificam os seus propósitos resignou-se à sua inoperância e favoreceu a crítica de Trump que encontrou eco em tantos norte-americanos. Deixou milhões de cidadãos à sua desastrosa sorte e, mais uma vez, pareceu conviver bem com os sucessivos danos colaterais da desgraça. É uma organização fundamental no desejado equilíbrio geopolítico mundial e deve regenerar-se o mais rapidamente possível senão as profecias da calamidade não serão em vão.
Em minha opinião, falível e criticável, com certeza, Trump não tomou posse sozinho, como 45º Presidente dos Estados Unidos. Com ele, uma arriscada, mas ganha, estratégia de enfraquecimento do Ocidente e dos seus valores, uma vergada derrota que o paladinismo eloquente de Obama não soube (ou não teve capacidade para) contrariar.
Nos Estados Unidos, iniciou-se uma nova era, a do desconhecido, a da deslocalizada beligerância entre a Rússia e a China, assim como a da crescente falência da Europa como projecto político (da qual pode e deve, urgentemente, recuperar). Iniciou-se uma presidência que decorre, em meu entender, muito mais de derrotas do que de uma vitória e isso é, sempre, politica e socialmente lamentável.
No entanto, o mundo livre, ocidental, tal como o temos conhecido, não terminou com a eleição de Donald Trump. Acabou no dia em que deixámos de ser governados por Estadistas e deixámo-nos “encantar” por invertebrados, sedentos do dinheiro sujo com que abarrotaram as luvas da corrupção. Povos à deriva, sugados nos seus rendimentos à medida do impensável, jovens sem projectos porque não se lhes afigura qualquer tipo de futuro e “elites” satisfeitas com as suas vidas preenchidas com o sangue, o suor e as lágrimas de tantos.
Nos EUA, terá tomado posse uma profunda, evitável e degradante derrota: a de todos os que pugnaram e pugnam por valores que fundaram o país, trazidos pelos imigrantes europeus que o fizeram nascer e prosperar tal como é: democracia e liberdade. Respeito.
De Obama que deixa, como legado, um país que não foi capaz de unir num desígnio, terei imensas saudades: pela lisura, pela elegância, pelo humor também, pelo permanente elogio da família, pelo respeito relativamente às diferentes famílias, cores, opções, pelo modo como sai, sem qualquer escândalo, da Casa Branca, e claro, por Michelle, uma primeira-dama exemplar.
Obama acreditou, penso eu, que a sua eloquência bastaria, que a palavra desencadearia a acção e que o exemplo seria mais do que suficiente. Ter-se-á enganado.
Sobre ele recaem muitos e pesadíssimos legados, o histórico e o político que serão, com certeza, objecto de análise, crítica e, quem sabe, fundamentarão a iniciativa de “consertar” o mundo que queremos preservar.
Num texto publicado, num longínquo 1995 (vale muito a pena reler), Umberto Eco descreveu o que considerou serem as 14 características do ur-fascismo ou fascismo eterno (ver nota). Essas características parecem descrever o percurso e o que se configura como o projecto de Trump. Mas também podem descrever a Rússia de Putin, entre outros muitos exemplos que caberiam aqui. Nesse ano, nesse preciso momento do século XX, talvez ainda distante da época de “pós-verdade”, encontrava conforto a progressiva ideia de desintegração do “Estado de direito”, preparava-se a violação, silenciosa, tácita e lamentável das diferentes constituições dos países europeus (seu fundamento e garantia) inclusivamente através de instituições supra-nacionais (como por exemplo a União europeia) tornando a certeza da lei numa fluida letra impressa num papel desgastado e, muito pouco, diga-se, questionado. A nova era pós-liberal que daí resulta, deve, no entanto, ser refundadora da EU muito mais que desintegradora. A Europa desunida e desagregada (o que faria, aliás, jus à sua História) representa o percurso mais curto em direcção ao caos geopolítico e a um perigoso desconhecido.
Em conclusão, de acordo com as designadas “teorias da conspiração”, se Putin conseguiu que Trump fosse eleito, por que não conseguirá o mundo livre (e a Rússia não é) falar mais alto?
Os mais optimistas confiarão no sistema democrático ou nas Bíblias sobre as quais jurou o mandato. Os seus votantes e simpatizantes, por todo o mundo, confiarão que é a escolha certa. Que estejam todos certos, do lado da Democracia, o lado da História pelo qual pugnamos. Em qualquer dos casos não sejamos obscurantistas: o que se passar nos EUA recairá sobre nós qualquer que seja o sentido.
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Nota: texto disponível in http://www.openculture.com/2016/11/umberto-eco-makes-a-list-of-the-14-common-features-of-fascism.html
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