A notícia do falecimento do António Bento …

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« Avoir conscience de sa propre mortalité oblige à ne pas vivre à la surface des choses » (1)

Marie de Hennezel in Mourir les yeux ouverts.

A notícia do falecimento do António Bento … foi como uma rajada de injustiça que nos atinge a todos quantos com ele convivemos e, ao longo dos anos, pudemos inscrever, nos dias, os registos de afabilidade e de respeito pelo Outro.

Recordo algumas das suas difíceis lutas para aceder – sempre por direito próprio – a um lugar que lhe pertencia. Que as consciências se verguem diante da sua honrada partida porque, da lei dos infames, liberta, realmente, a morte.

Ao longo da sua vida aprendeu, das formas mais penosas possíveis, que em certos contextos, valeu todo o mal.

Era um homem cândido e isto diria, muito provavelmente, quase tudo. A frase que escolhi como epígrafe descreve o modo como escolheu viver: profunda e inteiramente. Sem concessões e com uma inusitada capacidade de compreensão acerca do melhor e do pior do ser humano.

Façamos justiça e reconheçamos que fomos, de alguma forma, coniventes com a ausência de solidariedade que tornaram profícua a profunda solidão em que deve ter encontrado o conforto da partida.

A sua fidelidade aos valores e a grandeza da sua candura, elevam-nos o espírito ao patamar do perdão que lhe pedimos e rendem-nos à oração por uma eternidade mais justa, mais serena e imensamente mais feliz.

Escreveu Maurice Zundel que é diante da morte que tomamos consciência do quanto a vida poderia ter sido prodigiosa. Mas é precisamente esse sentimento de incompletude que nos remete à tristeza profunda e, neste caso também, a uma imensa sensação de frustração e de angústia.

Aos grandes, é reservado, com certeza, um fio de Luz especial que redima o seu sofrimento e o transforme numa alquimia melhor.

Espero que lá, onde agora estará, encontre a Paz.

Que lhe sejam concedidas as glórias eternas e o merecido descanso.

Até um dia… Bento.

Nota 1:  Ter consciência da sua própria mortalidade obriga a não viver à superfície das coisas (trad. literal).

 


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