Crónica Urbana: JM, a ‘Casa dos Segredos’

 

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Rui Marote

Hoje ponho a nu a história do Jornal da Madeira, do passado ao presente. Não ficarei calado. Tenho cerca de 50 anos de jornalismo, trabalhei nos dois órgãos de informação, conheço muito bem os bastidores.

Miguel Albuquerque, no seu programa de Governo, tem e continua a ter por resolver a “venda” do JM.
Em Abril, entretanto, 50 por cento do seu mandato já lá foi.  As conversações para venda dão azo a especulação na praça pública, com muitos nomes falados, mas ninguém avança.
O povo, embevecido, assiste a esta novela: quem compra,quem dá mais? Um autêntico leilão, pelo valor de 1 euro…
O leiloeiro, em Dezembro último, não conseguiu entregar a mercadoria.
Teremos novas ofertas em Março.
Vamos divulgar aos leitores o que está à venda:
1- O edifício é da Diocese do Funchal.
2- O titulo JM tem um ano (plágio do Jornal da Madeira) registado por 200 euros.
3- Não tem gráfica
4- Não tem empresa distribuidora
5- Vende os trabalhadores
6- Fica com as dívidas.

O HISTÓRICO

O Jornal da Madeira, propriedade da Diocese, dos anos 70 a 82 do século passado:
1- Tinha uma rotativa
2- Tinha uma distribuidora
3- Tinha uma gráfica que fornecia todo o material às paróquias e executava trabalhos a empresas privadas.
4-Sobrevivia dos anunciantes, assinantes e das oficinas – trabalhos gráficos.

Após o 25 de Abril, o Jornal viveu períodos conturbados. Apelidado de fascista, sofreu ataques semanais às suas instalações. Embora sendo um jornal da Igreja, o clero diocesano apoiou muitas dessas acções.
Sou do tempo em que, para receber o vencimento, era às prestações, e tudo dependia da venda da banana das propriedades da Diocese na freguesia de São Jorge.
Tinha uma dívida enormíssima à Segurança Social e às Finanças. (Com a saída de Alberto João Jardim para o Governo, estabeleceu-se um acordo para resolver esta situação, perdoando grande parte dessa dívida).
Mas a situação no Diário de Notícias da Rua de Alfândega não era famosa, e na altura Adam Blandy chegou a colocar o Diário, que estava dominado pela FEC-ML, à venda.
O CDS chegou a ser um forte candidato e recordo-me do preço de compra, no valor de 800 contos, dinheiro que viria da fundação alemã da CDU.
Tudo estava encaminhado, mas o marxismo-leninismo assustou os dirigentes do CDS, que ainda viviam na clandestinidade.
O Diário, que recebia as suas bobines de papel da Finlândia – de alta qualidade – viu-se privado de as receber por falta de pagamento. Chegou a estar em causa a publicação do Diário.
Recordo conversações havidas entre o director comercial do Diário, Sr. Neves, e o administrador do Jornal, Sr. Gouveia: o Jornal emprestou bobines de papel da fábrica do Porto Novo.
Houve um senão: as bobines do Jornal eram maiores no comprimento e tiveram de ser cortadas para serem colocadas na rotativa do DN.
Nessa época caiu a pique a publicidade e o número de assinantes do DN, devido ao esquerdismo lá instalado.
Já o Jornal da Madeira passou por um período áureo, com aumento da tiragem e de publicidade.
Essa ‘acção de graças’ foi curta e os serviços administrativos não estavam preparados para esse tipo de grandeza. A publicidade não era cobrada,os assinantes recebiam o Jornal à borla, a Segurança Social deixou de ser paga e as dívidas apareceram.
Para travar tudo isso, o Governo Regional faz uma sociedade com o jornal, em que mais de 90% é do Governo e a Diocese nomeia o director.
Surgem nomeações de conselhos de administração com três administradores do Governo e um da Diocese, com vencimentos chorudos.
Compra-se uma rotativa em terceira mão na Holanda, para instalar no Parque Industrial da Cancela. Foi um autêntico desastre: quando se iniciou a instalação, a mesma não cabia no pavilhão.
Desmantelaram-se as oficinas gráficas e todo o património do Jornal, e que foram transferidas para as instalações da imprensa regional.
Anos mais tarde já era o Diário de Noticias a fornecer a impressão do Jornal da Madeira e a distribuí-lo. A VOLTA QUE ISTO DEU – com contratos chorudos e até com multas.
Chegou-se ao ponto de reter o Jornal nas oficinas até que finalizasse a impressão do Diário, para que os dois fossem distribuídos na mesma hora.
Com horários rígidos, o Jornal deveria estar na Cancela ate às 22 horas e o Diário ate à 1 hora da madrugada.
Conclusão: um desastre. Um acontecimento internacional ou regional que se passasse entre as 10h e a 1 hora da manhã, só saia no Diário, uma vez que as páginas do Jornal já estavam a ser impressas. Entretanto, continuou o cortejo de grandes administradores e do Governo a injectar verbas no Jornal da Madeira, criticadas pela oposição e ate pelo próprio Diário, com queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social e até na União Europeia.
Houve uma altura em que o DN tinha um acordo para ficar com uma parte do Jornal da Madeira. O DN dava apoio contabilístico e apoio gráfico, exigindo a redução de pessoal do Jornal da Madeira.
O Jornal da Madeira foi primeiro órgão de informação a colocar na rua trabalhadores e a negociar a saída, uma exigência do Diário que se concretizou. Porém, a entrada do Diário no Jornal da Madeira nunca se concretizou.

Mais tarde o feitiço volta-se contra o feiticeiro e o DN surge com os despedimentos em massa dos seus trabalhadores, o que vem acontecendo até aos dias de hoje.

A ACTUALIDADE

No meio destes conturbados acontecimentos há muita matéria por contar. Voltamos ao início: quem será o novo dono do JM? Uma autêntica ‘Casa dos Segredos’. Sérgio Marques tem-se desdobrado em reuniões secretas e almoços. Tudo se encaminha para que o pai da criança seja o eterno adversário que come e não deixa os outros comer. Tudo esteve quase a ser resolvido nas costas do ‘Big Boss’, que regressou entretanto duma viagem ao Tibete e que mandou tudo voltar à primeira forma, como se diz em gíria militar. Entretanto, tenta-se reunir espingardas de diversos calibres, com patentes altas da nossa praça. Há quadros do JM que têm guia de marcha para diversas secretarias do Governo; há quadros do outro lado da rua que preparam o assalto ao castelo.
Até lá, a Portaria do Governo que regula os apoios à comunicação social regional só se prepara para dar de comer a um gamelão, e o silêncio é de ouro.