Megiddo

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Nestes  dias  em  que  a História  nos  traz  a  lembrança  de  um  Deus  nascido  em  terras de  Israel,  é  em  terras de  Israel  que  a  minha  atenção  se  fixa,  num  local  que  me  impressionou quando  por  ali  passei  em  2013.  Mais  do  que  Belém,  Cafarnaum,  ou  Tiberíades,   que  são  lugares  de  pacífica  memória  e  nos  revelam  a  existência  da  vida  de  Cristo  e  das  suas  pregações  de  que  é uma  das  testemunhas  a chamada  Sinagoga  Branca.

Belém  dá-nos  o  nascimento  de  Jesus,  Tiberíades  e  as  cidades  à  volta,  as referências  da  sua  acção  mensageira,  da  missão  revolucionária  que  anunciava  a  salvação  da  humanidade,  através  de  parábolas  expressivas,  enunciadoras  de  princípios  morais  e  cívicos  que  se  opunham  à  devassidão  dos  costumes  e das  práticas  políticas  da  época. Cristo  vinha  trazer  um  novo  conceito  de  Deus,  uma  nova  interpretação  da  Fé,  uma  visão  redentora  da  vida.  Por  isso  é  de  paz  que  nos  falam  estes  lugares  próximos  dos  vales  férteis  do  Jordão e  do  grande Lago  da  Galileia.  Apesar da  distância desse  oriente  desconhecido, tão  próximo de  mim  estavam  a  estrada  e  o  Kibutz  de Genezaré  com as  suas  plantações  de  bananeiras  de  onde  pendiam  grandes  cachos  envoltos  nos  habituais  sacos  de  plástico  azul.  Estendida  na  paisagem, em  Migdal, vicejava  a  manta  de  mangais e  vinhedos  que  enfrenta o deserto  e  alimenta  o  povo: O   quotidiano  na  sua   mais  estrita  realidade.

Mas  o  local  que  hoje  me  inspira  esta  pequena  crónica,  ao  contrário  dos  outros é,  digo  eu,  um  lugar  de  maldição : Megiddo.

Megiddo  é  uma  colina  da  Galileia  onde,  em  tempos  remotos,  muito  antes  de  Cristo,  existiu  uma  cidade – estado    de   grande importância  teológica, e geográfica.   Devido  às  ambições  políticas dos  poderosos,  que  cobiçavam  a  sua  posição  estratégica  próximo   da  Via  Maris,  estrada  traçada  na  rota  que  ligava  o  Egito  à  Síria  e  ao  Líbano,  e pela exuberância  do  seu vale, transformou-se,  ao  longo  dos  tempos,  num  símbolo  de  destruição  e  morte.  Até  hoje  conserva  essa  carga  histórica.  Vinte e  cinco  vezes    Megiddo  foi  destruída;   vinte e  cinco  vezes  se  ergueu  depois  das  batalhas.   Pesa  sobre  ela  o  temível  vaticínio  duma  poderosa  batalha  final  onde  as  forças  do  bem  e  do  mal  entrarão  em  confronto  para  arrasar  ou  soerguer  o  mundo.  Que  acontecerá  então  a  Megiddo  cidade predestinada  para  a vitória  ou  para  a  definitiva  derrota ? Que  sabemos  nós ?  Quem  vencerá ?

Não  é  despropósito  recordar  Megiddo  neste  tempo  de tragédias,  destruição  e  morte  que  o mundo  vive.  O  Apocalipse  é  uma  realidade  dos  nossos  dias  com  uma  Europa  ferida  por  invasões  traiçoeiras  de  inimigos  invisíveis  mas  reais.    A Europa,  a Africa,  a  Ásia  e o Oriente  Médio, o Continente Americano, à  mercê  de  obscuros  credos  e  abomináveis  intenções, de  diabólicas  manobras para  gáudio  dos  sequazes  do  mal.  O  mundo  em  lenta  e devastadora  destruição  dos  seus  territórios,  pelos  desequilíbrios   de  uma  ecologia  doente,  os  solos  contaminados,  as  águas  desordenadas,  os  mares  e  rios  enraivecidos  pela  invasão  dos  seus   álveos.  É  a guerra  do planeta  e  das  suas  Potestades.

Que  poder  é  este, –  pergunta  Megiddo  – que  persegue  a  humanidade  há  milhares  de  anos,  apesar  da modesta  e  terna Belém,  onde  uma  Estrela  apontou  aos  homens  o  caminho  da  Salvação  e do  Paraíso ?  Por  agora  só  nos restam  perguntas.

A  Megiddo  de  Israel  permanece  em  ruinas  silenciosas  no fértil  vale de  Jezreel  e  é  agora  Património  Mundial  da  Humanidade. Mantém-se  como  uma  ironia  avassaladora  que  nos  faz  pensar  no dia  a  dia  do  mundo  actual,  incontrolável,  cuja  história  futura  é  uma  enorme  e  temível  incógnita.

Não  há  respostas  para a  grande  dúvida  da  nossa  existência,  perante  a necessidade  de  Paz  que  prescreve  a  guerra,  perante  a  ânsia  de  Felicidade  que  move  grandes  ódios, perante  a  defesa  do  Amor  que  se  esconde  na  hipocrisia.

Sendo  tudo  isto  verdade, também  é  verdade  que  a  faculdade de  pensar  ainda  reside nos  bons  propósitos de quem  projecta  uma  Esperança  nos  votos  de  Natal  e  Ano  Novo  que  nos  enviamos uns aos outros.  Que se  mantenha  esta  lucidez  sobre  a obscuridade  que permanece  em  ameaça !  Continuemos a  procurar  a  Estrela  quando  a  noite  cai  sobre  Belém… não  muito  longe  de  Megiddo !

 

 


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