Alguém ainda se lembra de Liu Xiaobo?

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Por vezes, e por um infeliz acaso ou acontecimento, não são os livros os protagonistas, mas os seus autores. Num longínquo 2010, o Prémio Nobel da Paz foi concedido a Liu Xiaobo, um crítico literário, escritor e activista cívico e político chinês. Poucos se recordarão do nome ou sequer da atribuição de tão elevada distinção. O seu nome será quase desconhecido de uma grande maioria de pessoas. Este facto atesta, não só do poder dos media que o têm, repetidamente, silenciado, mas e sobretudo, de uma censura maior que o tem refém da ausência de direitos fundamentais e da liberdade de expressão no seu país de origem.

Em Portugal, o “assunto” é politica e diplomaticamente “sensível”, como o é para tantos outros países onde o poder do dinheiro fala muito mais alto do que os mais elementares direitos dos cidadãos. Não fosse o fenómeno Luaty Beirão e creio que muitos continuariam (como, aliás, continuam) a pensar/defender que Angola seria uma democracia exemplar. O mesmo sucede com Xiaobo, desta feita quase sem defensores, quase sem porta-vozes da ausência da sua voz. Conceda-se excepção ao Pen-América, do qual foi Presidente e que continua a pugnar pela liberdade e o direito à expressão de opinião.

A verdade é que o crítico literário e escritor se encontra a cumprir uma sentença de 11 anos de prisão efectiva, no estabelecimento prisional de Jinzhou, em Liaoning, sua terra natal, desde 24 de maio de 2010. As razões invocadas são: “incitar à subversão contra o poder do estado”. Igualmente grave é o estado em que se encontra a sua esposa, Liu Xia, em situação formal de “prisão domiciliária” desde que o prémio Nobel foi anunciado. Notícias recentes (não contrastadas) davam conta de que o escritor teria tido autorização para receber visitas esporádicas da sua esposa e até acesso, embora restrito/censurado, a algumas obras literárias chinesas.

Liu Xiabo representa, neste conturbado século de globalização da perda dos direitos fundamentais do indivíduo, um revês no que seria o progresso expectável da Humanidade. A sua ligação à defesa da liberdade de expressão, aquando da perseguição sangrenta aos estudantes, na Praça de Tiananmen (episódio este que deixou de fazer parte da agenda mediática internacional), valeu-lhe a atenção do partido único, na China, por ele fortemente criticado, no quadro de uma luta pela democratização do sistema político em vigor no país asiático. Sempre pugnou pela atitude pacifista nos protestos, o que lhe valeu, durante algum tempo, uma certa “tolerância instrumental” por parte do poder chinês. Não deixa de ser tristemente irónico que uma das suas principais batalhas tenha sido a da liberdade de expressão e de exercício de profissão dos jornalistas que, desde então, têm tido um papel fundamental no seu silenciamento e na ausência de denúncia da sua absurda e condenável situação de preso por delito de opinião, sem recurso a advogado e num julgamento que, tendo durado apenas três horas, contou com a proibição da sua defesa proceder a alegações ou apresentação de provas em contrário.

Nunca chegou a receber o prémio Nobel que lhe foi outorgado. Aquando da cerimónia, o perturbador vazio da cadeira que lhe estava destinada, gritou ao mundo o seu silêncio, mas o ruído das complexas dependências económicas e financeiras ao poder chinês fez com que aquela cadeira vazia se resumisse a uma (mesmo que incómoda, então) fisicalidade, uma estética do horror, um exemplo para outros, como é hábito nas ditaduras.

Esfuma-se, já, a euforia do Natal e inicia-se a do consumismo de final de ano civil. Redes sociais, votos e frases ditas por célebres e menos célebres. Todos defendemos o Bem, todos somos detentores de uma suprema perfeição de solidariedade e de respeito por outrem. Todos, sem excepção, nos manifestamos indignados com o mal alheio, com o terrorismo do Daesh, com todas as Aleppo deste mundo. Repressão violentamente musculada, na China? Decididamente, não. Distanciada da agenda mediática e das respectivas redes sociais, a prisão de Xiaobo é um acto  perpetrado por um regime não-democrático que parece impor ao mundo ocidental um estatuto de vergonha maior. Mas é esta mesma fragilidade do ocidente que consubstancia a mais evidente via-verde para a sua autofagia. A embriaguez dos “mercados”, das suas teias de corrupção e da vassalagem aos deuses maiores deste tempo ditarão a sua decadência e subjugação.

Pugnar por uma igualdade de direitos dos cidadãos, independentemente do regime político em causa ou das ideologias políticas que cada um professa? Uma utopia. O servilismo ideológico é, afinal, em tempos de globalização, uma das mais abjectas formas de escravatura. De um lado e do outro da barricada.

São estas as Festas… deste mundo.