João Carlos Abreu lança livro “Eu Sou a Minha Memória” com amigos e para amigos

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FOTOS RUI MAROTE.

Sala cheia no Funchal Centre- Nini Andrade Silva, no final da tarde desta segunda feira. A resposta assertiva a um apelo de João Carlos Abreu que lança aquele que é o seu último livro e que dá pelo nome de “Eu Sou a Minha Memória”.

Ao longo de mais de trinta anos, o ex-governante e atual presidente da Associação Criamar reuniu uma série de crónicas editadas no Correio dos Açores e editou-as agora neste livro, dado à estampa uma edição limitada, da sua autoria, para os amigos. Além das crónicas, as entrevistas a figuras públicas que marcaram indelevelmente a história da Madeira, como Alberto João Jardim, D. Teodoro Faria, Lagoa Henriques e Filipe La Féria. Um testemunho de um homem vivido, viajado, governante e que começou justamente a familiarizar-se com a palavra escrita através do jornalismo.

joao-principalCom amigos e para os amigos, o ex-secretário regional do Turismo e Cultura apresentou o seu 22.º e último livro, com o sorriso e otimismo dos primeiros, mostrando sempre que a vida que por ele passa e o interpela vale a pena ser registada na escrita, com uma serenidade e vitalidade assombrosas.

Goste-se ou não do estilo ou sequer da sua prosa, João Carlos Abreu não pretende impressionar quem quer que seja, como declarou recentemente ao FN, nem tão pouco se diz escritor ou sequer corre atrás de prémios ou encómios, Partilha experiências de vida com um público familiar.

Fátima Marques, a amiga de todas as horas do autor, fez a apresentação do livro, numa viagem que intercala vivências e emoções partilhadas numa caminhada de companheirismo e cumplicidade.

joao-fatinha-niniO FN publica o discurso de Fátima Marques que foi recebido com aplausos pela plateia que enchia a recatada e distinta sala do Funchal Centre, de Nini Andrade Silva, outra amiga incondicional de João Carlos Abreu. Outros tantos amigos de ontem e de hoje mostraram que os anos passam mas a amizade com o homem subsiste.

joao-4“Amigo João Carlos,

Este livro Eu Sou a Minha Memória apresenta uma nota do seu autor, 41 crónicas e quatro conversas.

Foi difícil burilar a sua apresentação, pensei em selecionar algumas crónicas, mas depois senti que isso representaria uma injustiça, pois entendi que a intenção da maior parte delas era a de abraçar com a sua verve os amigos aqui presentes no livro e na sala, logo pretendeu que todos os que com ele privaram e o ajudaram, porque não dizê-lo, a construir os seus sonhos, fossem recordados, para registo futuro de uma forma terna e sentida.

Eu devia então dar voz a esse desejo e tentar não o desfeitear, uma vez que continua a depositar em mim confiança, o que muito lhe agradeço, pois tenho consciência que há pessoas que tecnicamente o fariam melhor que eu, mas não com tanto amor e amizade, modéstia à parte.

joao-8Na sexta-feira, ao fim da tarde, ainda não me tinha saído nada, estava preocupada pois não estava a ver bem como poderia apresentar, o melhor possível, um livro com toda esta pluralidade. Acontece que, nesse dia, à noite, enquanto ouvia um concerto na nossa linda Sé Catedral, virei-me para uma amiga, a Ângela, e disse-lhe: Já sei como vou apresentar o livro…sinto-me inspirada e, em casa, comecei a construir o que agora vou ler.

Era uma vez um jovem chamado João Carlos que vivia na rua de Santa Maria com os pais e dois irmãos, parece que este sítio já não é o que era, mas à época era uma espécie de universidade da vida e quem aprendesse a lidar com a diversidade teria não só uma licenciatura, como um mestrado e porque não doutoramento.

joao-6Todos estes títulos académicos só se alcançavam com muito trabalho, estavam também associados a coisas como ter humanismo, ser fraterno, ouvir os outros, aceitar que a inversão de valores, por vezes, não existe porque a queiramos, mas por ter que ser.

A reitora morava no nº 130, era mãe do nosso amigo. Durante a guerra, quando escasseavam os víveres, distribuía por várias famílias o pouco que também tinham, quando a guerra acabou emprestou os seus lindos chapéus para as senhoras também poderem parecer bonitas.

Pergunto-me onde estarão agora esses fabulosos seres e os seus descendentes que fizeram parte da tua formação como ser de exceção… O Ramelico, João, o Vesgo, a Assunção que mudou de nome, aliás essa coisa de mudar de nome parece que era frequente, onde está a mulher alta de cabelos brancos e alourados que antes era puta e agora Alexandra, a séria Governanta de uma casa… e o Francelho e as mulheres de guarda chuva para baterem nos homens que tinham amantes e as que ficavam a dever na venda e quando chamadas à atenção diziam coisas tão interessantes como esta “Grande Cornudo”… Só tu para contares com uma imaginação inqualificável, para fazeres e dizeres coisas do outro mundo – tinhas que ser artista, tinhas que ser poeta…

joao2Aprendizagem quase completa e o menino João Carlos, à primeira oportunidade segue para Roma, a cidade eterna e, a cidade do eterno regresso, acho que a maior parte dos amigos comuns foi pelo menos uma vez com ele.

Aí não fez por menos, como jornalista, teve acesso ao Vaticano e testemunha algo de suma importância O Concílio Ecuménico Vaticano Segundo, como sabem nesse concílio, para além de a Igreja dar passos importantes na sua modernização estariam presentes pessoas com as quais privou e com as quais terá trocado conversas de importância superlativa.

A vida em Roma torna-o ainda mais cosmopolita, faz amigos com facilidade, aperfeiçoa as suas potencialidades, enamora-se de Itália conhece o Papa João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Este, na presidência do Dr. Alberto João, sendo bispo D.Teodoro de Faria, visitará o Funchal, momento que não esquecerá, não esqueceremos. Tem ainda o privilégio de contactar com o padre Pio e mais tarde é este país, entre outros, que também o vai premiar reconhecendo-o como Humanista; como Homem do Turismo e Poeta. Receberá da Universidade de São Cirilo Roma, o doutoramento Honoris Causa, em Ciências Sociais, a Universidade de Turim onde leciona o seu amigo Fournier e um reputado professor seu homónimo, Gian Carlos, prestam-lhe também tributo através das poesias publicadas e do seu livro Dona Joana Rabo de Peixe.

joao1Mas este Homem ama a sua terra, o Funchal, capital da sua ilha, a Madeira. Do que me apercebo, ela provoca-lhe sentimentos contraditórios, daí que por vezes o vejamos feliz e cheio de planos a abrir um restaurante, que se tornará famoso, a Romana, David Mourão Ferreira será um dos ilustres que ali se sentou, ou porque os estrangeiros adoram as nossas festas, até simpatizam com os nossos taxistas, que sabem falar línguas e são civilizados, temos qualidade de vida, temos pessoas cheias de talento: poetas, músicos, historiadores, designers… enfim, para não enumerar muito, quero dizer que nestes escritos encontram nomeados alguns dos madeirenses de eleição e não só, descrição de noites de tertúlias memoráveis, amizades infinitas. Outras vezes sentimos-lhe a amargura causada pela incompreensão de muitos, que levados por uma acicatada inveja destroem a sua fé inabalável nos outros. Ele diz que a inveja existe mais aqui e que até alguém tinha dito que o pior inimigo do madeirense é o madeirense, mas o Teixeira de Pascoes no livro A Arte de ser Português diz que o português é invejoso, por isso não fiques triste, é da nossa idiossincrasia.

Um dia, o presidente do Governo da Madeira chamou-o e convidou-o para um desafio muito interessante, Secretário Regional do Turismo, pouco demorou a pôr em prática toda a sua criatividade, disto nem vale a pena referir, está à vista de todos.

Outra coisa maravilhosa é a vertente globetrotter, que partilhamos, fico contente pelas dezenas de viagens que fizemos pelo mundo e sobretudo por destacares o Botswana, Namíbia e Irão, eu sonhei-as como muitos aqui presentes e todos nos demos conta da importância do seu contributo para a nossa cultura. Em Shiraz, terra das mil e uma noites, terra de poetas, vi-o febril e deslumbrado perante o tributo prestado a Hafez, uma espécie de Camões da terra deles, que celebrava nos poemas o amor, a casa e o vinho. Foi tocante perceber que a cultura, apesar de estarmos num país de estranhos acontecimentos, se celebrava e que celebração era feita de emotiva convicção, essas manifestações tocaram-te, e tocaram-nos. Lembro o quadragésimo aniversário do nosso amigo António Miguel, fim de tarde, nos idílicos jardins do poeta e, a nossa guia a dizer na sua língua em homenagem ao festejado, versos dos quais retiro dois traduzidos: “Oh, Senhor das tuas nuvens manda-me Chuva/ antes, porém que como pólvora eu desapareça”.

Mallorca, Canárias, Açores e tantos tantos locais por onde peregrinaste e continuas a peregrinar são também parte desta tua história.

Aqui neste livro ficarão os nomes dos que estão e dos que partiram (Maria Aurora e a Ana Margarida), estão também os nomes dos que em várias áreas se distinguiram e que te acompanham nesta nova etapa chamada Criamar. Não quiseste ir para casa descansar, preferiste continuar a servir o próximo, fizeste muito bem, porque isso te dá vida. Contigo levaste jovens que te ajudam a construir um advir melhor para os menos bafejados pelo Destino e para quem o teu exemplo é lei.

joao3Aliás os teus mecenas, Dionísio Pestana e Luís Miguel Sousa, depositam a maior das admirações por ti, ainda bem, pois é recíproco.

Quase a terminar, destaco a vertente de jornalista que assume uma preponderância notável. Quatro figuras públicas e amigas pessoais: Lagoa Henriques, escultor que privou com a nata do primeiro e segundo modernismo português, agradeço hoje que me tenhas proporcionado dois ou três encontros com o mestre; Filipe La Féria, o Homem Teatro, que trouxe os musicais: Passa por mim no Rossio, que estreou o musical Amália na Madeira; vimo-lo tantas vezes que o Filipe dizia que podíamos substituir os atores; O Dr. Alberto João Jardim, ex-presidente do Governo Regional da Madeira, dispensa qualquer apresentação, foi sempre a imagem presente que te permitiu levar avante os ideais que nem sempre eram compreendidos, ele não te faltou, e o Bispo emérito do Funchal D. Teodoro de Faria, Homem de cultura invulgar a quem agradeço deste já a lição de sapiência presente na entrevista e que vai ao encontro do que referi acerca da viagem versus cultura. Queria ler uns excertos, mas foi impossível selecionar… as suas viagens pelas terras da Bíblia, terras que conheço porque as visitei, mas não conheço…

Uma das questões transversais aos quatro diz respeito ao gosto e preferências de leitura, de facto saber o que cada um gosta de ler já diz muito da pessoa, estou naturalmente a elogiar-lhes as preferências.

Assim, fica dito que estamos perante um livro multifacetado, como multifacetado é o seu autor.

Acredita que fiz o melhor que pude para sintetizar o teu percurso, sabes bem que é difícil ter a rapidez que tu tens.

Quero dizer-te hoje que herdei de ti a capacidade de desvalorizar o que valor não tem, herdei de ti a alegria de rir, mesmo que não seja o momento apropriado, e também herdei a capacidade de admirar e louvar o próximo sem subserviência.

Citando a tua amiga Ana Bela Pita Da Silva

És a luz intensa

Que brilha

E alumia

O caminho

Árido

Escarpado

Escuro

De tanta

Tanta gente

 

És a voz presente

Que soa

Quando o silêncio

Dói

 

És simplesmente

O

Amigo

 

O amigo que nomeia a Nini, o Xavier, o Telésforo, o Sandro o António, o Sérgio, o Carlos, o Victor, o José Reis e a Fatinha que sou eu e nos põe lado a lado com os familiares diretos.

Tens 80 anos, menino João Carlos, entraste na minha vida há 33, eu tinha autoestima, mas não era muito grande, chegaste à minha vida e Tu valorizaste o pouco que eu sou e eu acreditei que era possível ser alguém porque tu mo disseste”.

 

 

 


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