E agora, o que mais nos espera?

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Antes de mais, devo confessar que, ao contrário de tantos políticos, jornalistas, comentadores, etc, etc, não fiquei surpreendido com a vitória de Donald Trump.

É que, desde há muito que deixei de olhar para as sondagens como uma espécie de “vaca sagrada” e passei a comportar-me nessa matéria como o capitão da equipa de futebol do meu clube, campeão europeu em 1987, num confronto com a equipa alemã do Bayern de Munique, João Pinto de seu nome, que questionado sobre prognósticos de jogos de futebol costumava responder que “prognósticos só no fim do jogo”. Ou seja, depois do que se passou com as últimas eleições inglesas que deram a vitória aos conservadores de David Cameran, ao contrário do que anteviam as sondagens, depois da vitória do Brexit no referendo britânico, o bom senso recomendava isso mesmo: porque as sondagens também se enganam e nos enganam.

Não se trata por isso de reivindicar quaisquer dotes de vidente ou de pretender tomar o lugar de um qualquer Zandinga, mas tão somente de não transformar opiniões em factos. Ou de querer ou crer para acontecer, como fez questão de frisar no jornal “Público” o embaixador Francisco Seixas da Costa quando assumiu que, até ao momento, em que ouviu Leon Panetta, figura grada de administrações democráticas, afirmar que Trump teria “muito fortes possibilidades” de ser o próximo presidente dos EUA, “dava a hipótese por absurda”, “talvez porque transformei em certezas os meus desejos”.

E não foi certamente por acaso que no próprio dia das eleições, aqui neste espaço, uma jovenzinha deputada à Assembleia da República, escrevia que “para ganhar, Trump necessitaria de uma junção de astros estatísticos pouco prováveis: uma maior afluência às urnas entre os republicanos brancos que aquela que se efectivou em 2012, um aumento da abstenção dos votantes afroamericanos, e de um crescimento menor que o esperado entre os eleitores hispânicos”. Tudo por que, segundo uma sondagem, a que aludia, Hillary Clinton “tem 90% de probabilidades em ganhar as eleições”.

Contudo, nem toda a gente se fiou na conversa das sondagens. Foi o caso do cineasta norte-americano Michael Moore que, embora assumisse que iria votar em Hillary, publicou em Julho último, no HuffPost US, um artigo intitulado “5 motivos pelos quais Donald Trump será o próximo presidente dos Estado Unidos”. Nesse texto Moore referia designadamente ser mais difícil conseguir que negros ou hispânicos, que morem em bairros pobres, compareçam às urnas, premonitoriamente anunciava que Trump iria concentrar muita da sua atenção em quatro Estados tradicionalmente democratas do cinturão industrial dos Grandes Lagos – Michigan, Ohio, Pensilvânia e Wisconsin – em que, diga-se, acabou por ganhar -, abordava o que designava por “o problema Hillary”, a quem se referia por “ extremamente impopular – quase 70% dos eleitores consideram-na pouco confiável e desonesta”. Moore acrescentava que os millennians (os jovens) “também não gostam dela”, referiu expressamente que “nenhum democrata, e seguramente nenhum independente, vai acordar em 8 de Novembro para votar em Hillary com a mesma empolgação que votou em Obama ou em Bernie Sanders. Não vejo o mesmo entusiasmo. Como essa eleição vai ser decidida por um único factor – quem vai conseguir arrastar mais gente para fora de casa e para as secções eleitorais – , Trump é o favorito”. Concluía afirmando que “a raiva que muitos sentem pelo sistema político falido vai se traduzir em votos em Trump. Não porque as pessoas concordem necessariamente com ele, não porque gostem da sua intolerância ou do seu ego, mas só porque podem”.

Previsível ou imprevisível para muitos, a vitoria de Trump foi também a derrota do establishment, de Washington D.C., de Wall Street e do politicamente correcto.

Uma vitória em toda a linha, uma vez que o partido republicano vai continuar a controlar o Senado e a Câmara dos Representantes.

O que se segue, nos EUA é, apesar de tudo o que Trump foi prometendo na campanha, de algum modo imprevisível. Não só porque o sistema político norte-americano tem mecanismos de freios e contrapesos, mas também porque no seu discurso de vitória Trump foi bem mais moderado, para além de que, segundo a agência Reuters, foram retiradas do seu site de campanha as menções à interdição de entrada de muçulmanos nos EUA, ao cancelamento do Acordo de Paris para a redução do aquecimento global e nomes de possíveis escolhas para a presidência do Supremo Tribunal, cujas decisões têm força de lei e estabelecem um precedente para decisões dos restantes tribunais. Em todo o caso, segundo Mark Kleiman, um professor de Políticas Públicas na New York University, Trump poderia tomar, por exemplo, a decisão de abandono do Acordo de Paris para o meio-ambiente e aquecimento global, que acaba de entrar em vigor e rasgar o acordo nuclear com o Irão, assinado por Obama, o que poderia levar a uma guerra com o Irão e a criação de uma bomba nuclear por parte desse país. Ainda segundo Mark Kleiman teria, também, capacidade para fazer a vida difícil a jornalistas, adversários políticos (através da Justiça) e, até, rivais empresariais (através da concessão discricionária de benefícios e penalizações fiscais). E muitas das reformas na regulação do sistema financeiro pós-crise de 2008, como o Dodd-Frank, poderiam, também, ter os dias contados, tal como teriam, também, os programas de cuidados de saúde universais, como o MedicAid, por exemplo, e os programas de Planeamento Familiar.

Mas não será só a América que irá mudar. É expectável que na Europa se venha a assistir a vitórias eleitorais da mesma natureza populista. A começar já, na Áustria, a 4 de Dezembro, na repetição das eleições presidenciais, com a possibilidade de Norbert Hofer, conseguir desta vez a vitória que lhe escapou por pouco à primeira. Seguir-se-ão eleições legislativas na Holanda, em que Geert Wilders, que tem um discurso xenófobo e anti-imigração, se encontra empatado nas sondagens com o partido do primeiro-ministro Mark Rutte, as presidenciais em França, em que Marine Le Pen, líder da extrema-direita, tem, pelo menos, fortes possibilidades de disputar uma segunda volta e, no fim do Verão, na Alemanha, em que se teme que o partido anti-imigração e de extrema-direita Alternativa para a Alemanha elega deputados. Fenómenos que podem ser explicados, recordando afirmações a fotógrafos italianos que imigrantes nos EUA produziram, nomeadamente: “estou cansada de políticos que criam leis que não cumprem. Cansada de esforçar-me para pagar impostos e viver honestamente enquanto eles gastam o nosso dinheiro e vivem como reis nas suas mansões e andam de limousine protegidos por guarda armados”.

P.S. O principal responsável pela denominada divida “oculta” que penalizou os madeirenses e portossantenses  com uma dupla austeridade publicou no seu facebook um libelo acusatório em que acusa o “sistema” norte-americano de tudo e de mais alguma coisa: desde a criação do Daesh, de “promover e fabricar democracias para atingir fins anti-éticos”, de “intoxicação da opinião pública mundial por um poderoso aparelho de propaganda”, das “democracias europeias terem calado muita coisa”, de “manipulação internacional, das imagens e inclusive através do ciberespaço” e do “negócio da indústria de produção de material de guerra”.

Enfim, a criatura quer fazer concorrência ao esquerdismo dos anos 60 e 70. Por este andar ainda haveremos de o ver gritar “morte à CIA e ao KGB”.

Há, porém, um pormenor muito importante, a sua deriva esquerdista não é para levar a sério, como tantas outras coisas que perorou ao longo dos anos. Para mais vindo de quem se deu tão bem com a ditadura de Salazar e Caetano.

Já essa da propaganda. Oh, homem, veja-se ao espelho!

P.S.  Por opção, este texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.


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