A solidariedade escondida é a melhor

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Ninguém tem culpa que as coisas existam se faladas e noticiadas, a sociedade mediatizada em que vivemos fez com que fosse assim mesmo.

As coisas hoje em dia, parece que só são verdadeiras e dignamente reconhecidas se aparecerem na comunicação social. Tudo é espetáculo. Tudo passa a existir se muitos souberam e viram. É o mundo em que vivemos, são os sinais dos nossos tempos. Nada de dramático. É o esplendor do melhor que a humanidade tem, a capacidade de comunicar.

No que toca à solidariedade ou caridade também assim tem sido. Porém, neste domínio é sempre um risco noticiar. Por um lado, pode-se expor demasiado quem recebe e isso não o beneficia em nada, até porque muitas vezes as pessoas necessitadas passam por uma grande vergonha que devemos ter em linha de conta e respeitar. Por outro, pode-se dar aso a vaidades desnecessárias, aliás, é gravíssimo quando a solidariedade tem como fim interesses mercantilistas e sucessos pessoais para quem dá. Tão feio, encontrarmos tanta gente que se enche arrogantemente sobre o que deu e dá aos outros. Tão feio, encontrarmos instituições que deviam limitar-se ao mínimo de publicidade sobre as ajudas, mas até à saciedade publicitam as suas ações em favor dos mais pobres. É falado o que recebem, é falado o que deram e às vezes falam de quem deram, contribuindo gravemente para agudizar o estigma social que a pobreza sempre gera.

Serve este introito para trazer à liça um aspeto que achei curioso no que toca ao tsunami solidário que se levantou após os devastadores incêndios há três meses na nossa terra, particularmente, no Funchal. O habitual, felizmente, quando a nossa terra se vê assolada pela tragédia. A solidariedade mais uma vez foi impressionante. Em números de euros, penso, que deve ser impossível contabilizar tudo o que circulou a favor de quem mais precisava. Sem contar nas ajudas em géneros alimentares, roupas, mobílias e outros bens necessário para acudir quem precisava.

A Igreja Católica da madeira, especialmente, algumas comunidades paroquiais foram céleres e foram mobilizadas pelos seus párocos, para fazerem ofertórios nas missas, suspenderam os arraiais ou os mantiveram, revertendo as receitas para a solidariedade com as vítimas dos incêndios.

A Diocese do Funchal, também fez a sua parte, fazendo de intermediária relativamente a vários donativos, que ascenderam a mais de 100 mil euros, vindos de várias entidades (por exemplo, da Torre dos Clérigos ainda decorria o incêndio chegaram ao Funchal 50 mil euros). Estas dádivas, imediatamente foram disponibilizadas pela Diocese, que as fez chegar aos párocos das zonas do Funchal mais fustigadas pelas chamas. Os párocos, por sua vez, juntando essa oferta e as outras que foram chegando de outras comunidades paroquiais e de pessoas individuais, as fizeram chegar às situações mais prementes e urgentes. Neste domínio, nada a dizer, foi uma conjugação irrepreensível, rápida e eficaz.

Tudo isto não foi publicitado, não passou nos meios de comunicação social, passou isso sim, uma série de críticas descabidas, infundadas que baralhavam tudo e todos foram medidos pela mesma bitola. Muito do que se disse não correspondeu à verdade e foi profundamente injusto.

Porque digo tudo isto? – Porque tenho necessidade de fazer esta reflexão se considero que a caridade escondida é a melhor? – Porque num determinado momento, no meio de tanto paleio sobre solidariedade e ajudas, vejo na televisão, oiço na rádio e leio nos órgãos escritos, que alguém recolheu entre emigrantes na América 1500 euros para serem entregues às vítimas. Suponho que dividido ao meio, este valor, foi entregue em cheque a duas famílias. E víamos o cheque a ser entregue. Tudo muito bem e um gesto bonito. Porém, na maior descrição várias somas neste valor, em valores abaixo e outros muito acima deste, passaram pela minha mão, que foram entregues aos afetados na zona de São Roque. E posso, garantir que o mesmo se passou também com os outros párocos nas outras zonas assoladas pelo fogo.

Muitas vezes se fala de cor, injustamente e a despropósito. Obviamente, que no que toca à solidariedade ficamos sempre aquém das necessidades, mas se não houvesse nada, seria muito pior e fatal para quem verdadeiramente precisa.

E para que serve este palavreado todo? – Serve para deixar claro que muito foi feito e ainda está a ser feito sem alaridos e cumprindo o preceito evangélico, faz com a direita sem que saiba a tua esquerda. Tomara que todo o rol de promessas propagandeado na comunicação social pelas entidades públicas numa chuva de milhões, tivessem a mesma implicação concreta, a celeridade e a solicitude pelas situações mais urgentes, como aconteceu com a ação da Igreja Católica da Madeira.

 


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